Correio dos leitores - AUSCHEWITZ (ontem e hoje)
Há imagens que poderão não ser ainda do vosso conhecimento; mas são-no outras que dão o mesmo testemunho, sem dúvida. Nem é para vós novidade o que aconteceu. Nem o atestado do horror, na sua forma mais absoluta, mais desumana, mais cruenta, mais bárbara, mais…, se vos apresenta pela primeira vez.Foram não sei quantos milhões que “saíram pela chaminé”, que ficaram nas valas forçadamente abertas por eles próprios, que tombaram por inanição, por doença, pela violência da malvadez do carrasco, por tudo. E tudo isso aconteceu em nome da “supremacia” da raça ariana, afinal talvez a raça que mais inferiorizada foi pela voracidade carniceira do capitalismo de então, quando o seu delegado, Hitler, precisamente invocou o arianismo, agindo por mercê e em prol dos Daimler, dos Thissen, dos Siemens e quantas outras famílias comandantes do capitalismo alemão e austríaco.
Juntaram-se-lhes, a esses, em gananciosa parceria uns e em hediondo aplauso outros, os títeres imitadores de supremacia rácica do país do sol nascente e do sul e do ocidente do velho continente (incluindo o heróico comandante da Primeira Grande Guerra na luta contra o expansionismo alemão, Pétain, que na segunda se tornou um execrando colaboracionista vendido a Hitler e seu representante no governo “francês”de Vichy), em nome de um qualquer “valor” inventado mas sempre a soldo do desenfreado capitalismo sem leis, sem fronteiras, sem rosto nem bilhete de identidade, sem alma! Foi o que se viu, foi o que se sabe…
Tristemente, e ao arrepio do que se poderia esperar, quando terminava o calvário de um dos povos sacrificados nesse inferno sem limites que foi o nazismo – o mesmo povo que a Igreja Católica Apostólica Romana, de braço dado com o eufemisticamente chamado poder temporal na Europa sudoeste e mais não era que o braço armado do fanatismo do estado todo poderoso sediado no enclave de Roma, espoliava nos intervalos da perseguição que lhe movia e não poupou às fogueiras dos rossios que por todo o lado se acenderam desde o início do século XIII –, quando esse calvário terminava, vinha dizendo, os arautos de outras famílias do capitalismo, judeus (aqui expressando o mau sentido do termo) dirigentes desse povo, iniciaram uma longa e atroz perseguição de morticínio selvático a um outro povo, o palestino. E, à semelhança de Hitler, que, em nome dos patrocinadores, invocava o argumento do “espaço vital” para se arrogar o “direito da expansão” a poder da bota espezinhando terra alheia, também desde há seis longas e pesadas décadas, Israel, a pátria dos judeus, como dizem, se arroga o seu “espaço vital”, expulsando, aprisionando, torturando, matando, destruindo o povo da Palestina.
Não lhe são (ainda) conhecidas câmaras de gás e fornos crematórios. Mas o martírio dos sacrificados, vítimas das antigas vítimas do horror nazi, em nada se distingue pela brutalidade em nome do mesmo “espaço vital” que Israel apregoa aos quatro ventos sob a máscara de “segurança”, intensificando dia após dia o terrorismo de estado, só lhe faltando ufanar-se da inspiração que bebeu no Mein Kampf quando vítima do seu autor.
Auschwitz está de volta desde o dia em que fechou na Polónia, após a libertação operada pelo exército soviético, agora noutros modelos e em muitas outras terras espalhadas pelos continentes. Voltou e instalou-se com a complacência da chamada civilização ocidental, nela incluindo os EUA, que então participaram no derrube da besta nazi (por autodefesa, sublinhe-se). Nem lhes falta, a esses novos antros de morticínio, a bênção do Vaticano traduzida nas ocas tiradas das “rezas pela paz no mundo”, bem ao modo das feitiçarias de antanho, sem que, entretanto, mova sequer uma palha em favor de tal paz; de luvas brancas fingindo a virgindade das mãos tintas de sangue humano, vai movendo, sempre e inexoravelmente, uma guerra sem quartel a favor de todas as fontes donde lhe possam advir proventos.
Sem qualquer menosprezo para com as prostitutas, merecedoras de respeito e solidariedade enquanto alugadoras forçadas do corpo como modo de ganhar o pão para a boca dos filhos da sua desgraça, é o ordinaríssimo procedimento das putas e dos seus filhos que todos os dias alugam a sua ética e vendem a sua moral ao mesmo tempo que fazem o sinal da Cruz, ostentando-se possuídos da crença de que um qualquer deus por si criado à sua imagem e semelhança os abençoará por lançarem no inferno da desgraça os marginalizados do Mundo.
Nestas imagens, como se o cenário do horror ainda carecesse de algum adereço, nem sequer falta a encenação tragicómica de Dick Cheney, um algoz entre muitos da mentira e do morticínio no Iraque, de semblante compungido, que se diria de contrição se tal espécie de gente tivesse consciência moral!
Não me fazem falta nenhum Deus nem nenhum Céu. Mas não seria pior se houvesse um Inferno e as almas persistissem para lá dos corpos que as possuem. Teria que ser um Inferno de grandes dimensões, é certo; mas ficava-me a consolação de, um tanto como dizem os arautos dos deuses inventados, aí se poder dar um ajuste de contas da besta humana…
Lisboa, 5 de Maio de 2008.
a) Luís Veiga
Comentários
Poderá ser como diz, não sei.
Para “ahp”:
Não! Não pretendo que os Israelitas saiam de Israel. Mas devemos pretender que também os palestinos não sejam forçados a sair, que não sejam perseguidos, que fiquem na sua terra por direito próprio.
Quando disse “judeus no mau sentido do termo” referi-me, precisamente e só, aos dirigentes de então (e aos actuais, bem entendido), e não ao povo judeu, contra o qual (assim penso) nada se deve ter enquanto tal; julgo que esta destrinça está patente no texto quando digo «judeus… dirigentes».
Entendo eu que a diferença entre a política expansionista de Israel e a da Alemanha nazi reside na forma, que não na substância da sua filosofia, que a brutalidade, na essência, é a mesma.
Já agora indico o endereço onde podem ser vistas as imagens a que aludi, uma delas referente ao dirigente dos EUA, Dick Cheney: http://www.slideshare.net/Almeida/auschwitz-holocausto/
Obs.: Congratulo-me por ter manifestado a sua discordância (parcial que seja), do modo cordato como o fez. Deu um bom exemplo do modo de procedimento devido no pacífico confronto de ideias. Assim fosse com todos os comentadores do Ponte Europa, para não dizer sempre e em todo o lado.