Totalitarismo islâmico
Intelectuais publicam hoje no semanário satírico francês Charli Hebdo um manifesto intitulado «Juntos contra o novo totalitarismo, o islamismo» - lê-se no D. N., última página (sítio indisponível).O manifesto de doze intelectuais conta com os escritores Salman Rushdie (na foto) e Taslima Nazreen.
É na sequência da vaga de reacções contra a publicação de caricaturas de Maomé que os referidos intelectuais se manifestam:
«Depois de ter vencido o fascismo, o nazismo e o estalinismo, o mundo enfrenta uma nova ameaça global de tipo totalitário: o islamismo. Nós escritores, jornalistas, intelectuais, apelamos para a resistência ao totalitarismo religioso e para a promoção da liberdade, da igualdade de oportunidades e da laicidade para todos».
Aludindo aos conflitos criados pela publicação das caricaturas, os intelectuais escrevem o que parece passar despercebido a quem, de forma maniqueísta, só vê o imperialismo, de um lado, e os povos espoliados dos seus recursos, do outro:
«Não se trata de um choque de civilizações ou de um antagonismo Ocidente-Oriente, mas de uma luta global que opõe os democratas aos teocratas».
Quem não perceber isto arrisca-se a viver sob os ditames da sharia ou os ensinamentos do Levítico. Sob a violência do Islão, do fundamentalismo evangélico ou da doutrina do concílio de Trento.
Comentários
A análise dos intelectuais - cujo teor na integra desconheço - permite-me o ousadia de comentar, pelo menos, o que está no texto do post "entre aspas".
A citação do fascismo, nazismo e estalinismo, como uma real ameaça às liberdades, peca por hipócrita.
Estes quando se manifestaram capitalizavam uma esmagadora força e, daí, impuseram-se causando os estragos que todos conhecemos.
Na verdade, na situação actual, os países islâmicos são o elo mais fraco deste Mundo globalizado.
Sendo o elo fraco não podem, para punharmos pela isenção (não neuralidade), ser identificados como uma ameaça. Eles estão condicionados em termos de força e na capacidade de influenciar.
Quem não detém o poder económico e militar acaba perdendo a sua identidade e acultura-se.
Eles, se formos rigorosos, lutam pela sua sobrevivência.
Veja-se o caso do Irão e do nuclear. Ninguém fala do potencial militar de Israel seu vizinho. Ninguém teme que o poder aí caía nas mãos dos fundamentalistas judaicos. Onde está a equidade nas apreciações?
Os países islâmicos estão, também, condicionados em termos de desenvolvimento. Veja-se as comemorações dos 10 anos da Conferência de Barcelona onde a UE condicionou os projectos de apoio aos países islãmicos da bacia mediterrânica a umas "reformazinhas" políticas. Euros por reformas.
São estas políticas bacocas que nos tiram a razão e dificultam o diálogo civilizacional.
Agora, o Sr. Rushdie tem razões de queixa (pessoais e no que toca ao livre exercício da liberdade de expressão). Mais, quando vitima da fatwa teve a solidariedade do "Ocidente". Agora ninguém lhe reconhecerá autoridade para lançar uma cruzada contra o Islão sob a sigla "Totilarismo Islâmico".
Por mais que se tente iludir as coisas e manipular a história recente, existe o imperialismo de um lado - cujo cabeça de fila é os EUA - e países espoliados do outro (que não são só os países islâmicos, mas também).
O problema é que os países islâmicos, no passado, já foram "grandes". Não se conformam com a actual situação (óbvio que têm culpas no cartório)e... reslavam para atitudes radicais (fundamentalistas).
Agora os intelectuais, ao tentar arrebanhar "crentes" no Ocidente sob a sigla que não há imperialismo de um lado da barricada, vão ter pouco sucesso.
Nestas coisas é preciso contar com a visão (e a inteligência) dos outros. Por cá continuamos inibidos (castrados) com a arrogância dos EUA (é uma face do imperialismo) e, por exemplo, a desastrosa guerra do Iraque. Não nos peçam que ignoremos isso.
Por outro lado, consequência do estado civilizacional em que estamos mergulhados, ficamos cientes que (em relação aos povos islâmicos) não podemos - nem devemos - extreminá-los!
Fazem falta novas pontes de diálogo: honestas, credíveis ...
longe do cheiro nauseabundo do crude!
longe do cheiro nauseabundo do crude»;
2 - Discordo de quase tudo o resto embora lhe reconheça alguma razões, sem lhe dar razão;
3 - Quem defende e pratica princípios teocráticos, à semelhança do que aconteceu com a Europa na Idade Média, não merece solidariedade;
4 - A teocracia é a mais vil das ditaduras;
5 - Pelos vistos, o islão importa-se menos com a destruição de mesquitas do que com caricaturas de Maomé;
6 - O tribalismo e o espírito medieval não são uma cultura diferente, são o ódio à cultura e à modernidade.
MANIFESTO :
Juntos contra o novo totalitarismo
Depois de ter vencido o Fascismo, o Nazismo e o Estalinismo, o mundo enfrenta agora uma nova ameaça totalitária global : o Islamismo.
Nós, escritores, jornalistas, intelectuais, vimos aqui apelar à resistência ao totalitarismo religioso, bem como à promoção da liberdade, da igualdade de oportunidades e dos valores laicos para todos.
Os eventos que ocorreram recentemente, depois da publicação das caricaturas de Maomé em jornais europeus, tornaram evidente a necessidade de um combate em prol destes valores universais. Trata-se de um confronto a travar no campo ideológico e que nunca poderá ser ganho pelas armas. Aquilo a que estamos presentemente a assistir não constitui um conflito de civilizações, nem um antagonismo Este-Oeste, mas antes uma luta global entre democratas e teocratas.
Como todos os totalitarismos, o Islamismo estabelece-se sobre medos e frustrações. Os pregadores do ódio apostam nesses sentimentos para formar batalhões destinados a impor um mundo de opressão e desigualdades. Contudo, nós afirmamos clara e firmemente : não existe nada, nem mesmo o desespero, que possa justificar a escolha do obscurantismo, do totalitarismo e do ódio. O Islamismo é uma ideologia reaccionária que aniquila a igualdade, a liberdade e a laicidade sempre que as encontra. O seu êxito só pode conduzir a um mundo de dominação : dominação do homem sobre a mulher, dominação dos islamistas sobre os demais. Para nos opormos a este processo, temos que assegurar direitos universais a todos os povos discriminados ou oprimidos.
Rejeitamos o « relativismo cultural », que consiste em aceitar que homens e mulheres de cultura muçulmana devem ser privados do direito à igualdade, à liberdade e aos valores laicos em nome do respeito pelas culturas e tradições.
Ayaan Hirsi Ali
Chahla Chafiq
Caroline Fourest
Bernard-Henri Lévy
Irshad Manji
Mehdi Mozaffari
Maryam Namazie
Taslima Nasreen
Salman Rushdie
Antoine Sfeir
Philippe Val
Ibn Warraq
Não reclamo solidariedade para a situação em que vive o mundo islâmico de hoje. Não me identifico com ela.
Reclamo uma análise equilibrada, justa, para a sua trajectória histórica.
Como sabe, o islamismo não é simplesmente uma religião mas um códogo identitário, que vigora desde 622. Concerteza que, está velho, é medievo, precisa de mudar.
Algumas questões se levantam:
Somos nós (Ocidente) que temos de fazer a Reforma?
Vamos arrebanhar "crentes" com a mentira de que "o que parece passar despercebido a quem, de forma maniqueísta, só vê o imperialismo, de um lado, e os povos espoliados dos seus recursos, do outro"
Na realidade:
Os EUA não são o polícia do Mundo (imperialismo) ?
As nações islâmicas não foram espoliadas?
Donde sacamos o petróleo?
Finalmente:
O espirito de cruzada, que transparece ao longo do documento publicado no Charli Hebdo, não é medievo?
Sendo o Charlie Hebdo é um semanário satírico, isto não é uma satira?
O jornal dinamarquês, aquele dos cartoons, não publicou também este apelo?
Gato escondido com rabo de fora?
CE:
Pelo diálogo, contra as cruzadas!
RE: Certo. Mas não há diálogo com a fé. No início do século passado os fundamentalistas evangélicos (EUA) não admitiam outra lei para além da Bíblia.
É aí que nasce o termo «fundamentalismo».
Abaixo os fundamentalismos.
Visceralmente. Penso que os findamentalistas são vampiros da credibilidade humana. São um atentado à inteligencia. Atentam contra a dignidade. Etc...
Mas antes de sair para a rua a dizer abaixo, procuro (quero)saber porque razão(ões)surgiram. E porque infuenciam tantas pessoas.
Pelo diálogo, contra as cruzadas e ... contra os fundamentalismos
religiosos, políticos e culturais.
Está bem?
Há muitos árabes (homens e mulheres) que gostariam de se libertar das cinco orações diárias, dos jejuns e das peregrinações, mas a pena de morte (em nome do profeta) paira sobre eles.
Cito o último parágrafo dos 12 intelectuais:
[Rejeitamos o « relativismo cultural », que consiste em aceitar que homens e mulheres de cultura muçulmana devem ser privados do direito à igualdade, à liberdade e aos valores laicos em nome do respeito pelas culturas e tradições.]
Link com o texto do manifesto em francês e a identificação dos susbscritores.
Assim:
... "não constitui um conflito de civilizações, nem um antagonismo Este-Oeste, mas antes uma luta global entre democratas e teocratas." Não será bem assim. Penso que há de facto um conflito de civilizações. A tirada pretende retirar o estatuto de "civilização" ao Mundo Islâmico. É um "negacionismo" como qualquer outro. Assim não vamos lá.
"O Islamismo é uma ideologia reaccionária que aniquila a igualdade, a liberdade e a laicidade sempre que as encontra."
À primeira vista traduz a realidade actual mas sofre de uma amnésia histórica. Não foi sempre assim (sabemo-lo por experiência própria - dominação moura/arábe na peninsula de 711 a 1492) e se agora é, por alguma razão há-de ser.
Por outro lado, a classificação do Islamismo como "ideologia" mistifica a questão. O islamismo significando "submissão" o que é incompreensível para nós (Ocidente), entronca-se numa vasta questão no que se refere à liberdade - não ideológica - mas religiosa.
Assim, acreditando que o manifesto não preconiza o extremínio do Islamismo (note-se que sou agnóstico)o caminho terá de ser cuidadosamente percorrido. Entendo que o movimento terá de encontrar interlocutores no interior (no terreno)dos países islâmicos, senão a guerra é inevitável.
E,nesse sentido, não temos ajudado nada veja-se a política do Sr. Bush.
E mais haveria a comentar...
Reduzir este complexo problema a uma "luta global entre democratas e teocratas" é pensar, enviesado, à "maneira ocidental". Depois sucedem "acidentes de percurso" como o do Hamas na Palestina e, na nossa sabedoria, inventamos um novo conceito "teocracia democrática". O que vem baralhar tudo: democracia e teocracia.
É importante que ao mesmo tempo que condenamos "o totalitarismo islâmico" saibamos lidar com o Islamismo e as suas contradições.
É preciso deixar assentar a poeira levantada nos últimos tempos.
Foi o renascimento, o iluminismo e o século das luzes que conduziram à Revolução Francesa.
A Reforma transformou radicalmente o poder teocrático do Papa.
Hoje, a secularização progressiva fez do Ocidente (culto, rico e livre) o que Averroes e Avicena não conseguiram.
O islão já foi mais tolerante do que o cristianismo.
Sei que há muitos árabes que desejam a laiciadde mas o sistema de terror do clero tolhe-os ou obriga-os à emigração.
Para o efeito basta ler os curricula dos signatários do "Manifesto".
O que sendo relevante, não é suficiente.
A questão é de facto essa. Parece mentira, mas a globalização põe em confronto perspectivas que pareciam arquivadas nas páginas da história.
Como não sei muito de assuntos teocráticos, prefiro a solução democrática.
Talvez seja endeusar o povo ou cada um dos que o compõem.
Mas talvez o problema esteja ainda a ver-se tudo o que é melhor ou pelo menos menos mau "à imagem e semelhança" do Além.
Seja como for, assim como a evolução mantém elementos do corpo inexplicáveis, talvez o teocracismo seja um desses "ossos" do espírito.
A democracia não é um substituto da religião. Tal como a religião não devia apresentar-se como um substituto da democracia.
"Cada macaco no seu galho"