Notas Soltas - Agosto/2008
Turquia – O uso do véu, proibido nas universidades, não é uma reivindicação de liberdade individual, é o desafio à laicidade do Estado, com a conivência de altos dignitários e o risco de o país se transformar em mais uma teocracia.Sinistralidade – A loucura invadiu os condutores no mês de Agosto. A escassez dos combustíveis ameaça extinguir o automóvel mas este mantém-se a forma mais popular de suicídio indígena.
Constituição – A última defesa contra os desvarios das Regiões Autónomas foi já ameaçada de revisão pelo regedor da Madeira a quem nunca faltaram cúmplices para o regabofe com que humilha o Governo, o PR, os Tribunais e o Parlamento.
China – A organização dos Jogos Olímpicos, da admirável abertura ao soberbo encerramento, revelou o talento do imenso país, sem varrer as injustiças, a repressão e a farsa da substituição da criança que cantou a «Ode à Pátria» por outra mais telegénica.
Geórgia – O patriotismo que mantém a estátua e o culto de Estaline não tolera a perda da Ossétia do Sul, mas Putin ressuscitou o nacionalismo russo e o precedente do Kosovo abriu as portas às independências fantoches da Ossétia do Sul e da Abcásia.
Rússia – O conflito caucasiano pode apressar a guerra que Israel e o Irão anseiam desencadear. O mundo está à beira do precipício e aguarda o passo em frente.
Zimbabué – Foi deprimente ver o velho ditador e coveiro do país que ajudou a fundar, assustado, a mendigar a impunidade para entregar o Governo e, depois, a agarrar-se de novo ao poder.
Jogos Olímpicos – Os resultados foram decepcionantes para as expectativas e os investimentos do País. A prestação portuguesa teria passado de vergonha nacional a olímpica sem os feitos isolados de Nelson Évora e Vanessa Fernandes.
PSD – A actual líder, ao recusar a festa do Pontal e as solicitações para fêveras e sardinhas, tomou uma decisão prudente para o fígado e o colesterol mas arriscada para as suas ambições. Manuela Ferreira Leite, politicamente, é uma criação cavaquista.
Madeira – Alberto João Jardim, ao defender em Porto Santo um novo partido que faça «oposição a sério», sabe que a sua voz não chega ao Céu mas corrói a liderança que abomina.
Cavaco Silva – A interdição do espaço aéreo da sua casa de praia não melhorou a segurança pessoal, mas contribuiu para o anedotário nacional à custa de um excesso do autóctone de Boliqueime.
Bloco de Esquerda – Acusar os cem portugueses mais ricos, de fazerem fortuna graças «aos amigos, ao poder, à influência e aos governos», metendo todos no mesmo saco, é demagogia que não ajuda a reduzir o fosso que separa os portugueses.
Alemanha – O apoio de Angela Merkel ao ingresso da Geórgia na NATO, feito a Mikhail Saakashvili, cuja invasão da Ossétia do Sul destabilizou o Cáucaso, foi um desafio à Rússia e o apoio a um belicista que devia ser demitido e julgado.
Divórcio – O veto político do PR ao novo regime jurídico, aprovado pelo PS, BE, PCP, Verdes e seis deputados do PSD, foi uma decisão eivada de preconceitos pessoais e de conservadorismo beato.
Espanha – A tragédia aérea de Madrid, com 154 mortos, não põe em xeque o meio de transporte mais seguro que existe, mas o pânico, a desolação e o luto agravaram a depressão e a angústia que percorrem a Europa.
Violência doméstica – Em Portugal, país alegadamente brando, foram mortas pelos companheiros, até ao início do mês, 31 mulheres, mais oito do que em todo o ano de 2007. Na prática, há quem defenda apenas esta forma de divórcio.
Justiça – Os sindicalistas António Martins e António Cluny, de têmpera política e totalitária, criticam leis, Governo e Assembleia da República. Tarda o reparo dos respectivos Conselhos Superiores para lhes lembrar a condição de magistrados.
EUA – A vitória dos democratas é incerta, apesar de nunca ter havido quem tanto mal tenha feito para que os republicanos mereçam a derrota. Bush foi uma tragédia para o mundo e para o seu próprio país.
Hillary Clinton – A força do seu discurso e a convicção com que apoiou Barack Obama na nomeação do partido democrata às eleições de Novembro, são um exemplo de nobreza pessoal, instinto político e sentido de Estado.
Festa do Avante – O maior evento cultural e político de natureza partidária honra o PCP e é um exemplo para os outros partidos, mas só consegue réplicas medíocres e um generalizado silêncio que não prestigia os adversários nem a comunicação social.
Comentários
Os russos retiram da Geórgia porque, ao contrário do que se fez crer no Ocidente, depois do “desmoronamento” da ex-União Soviética, não desapareceram do mapa.
A Rússia continua a ser uma grande potência e avança ou retira em conformdade com as suas conveniências.
O fim da “guerra fria” pressupunha um equilíbrio entre as potencias militares.
Os EUA modificaram unilateralmente este equilíbrio.
Em 2006, instalaram um sistema de intercepção de mísseis na República Checa, numa clara violação do “pacto” vigente entre a OTAN e a Rússia, desde 1997. É de notar que este pacto, era fundamental para os Estados unidos, já que incluía a “luta contra o terrorismo”.
Um segundo foco de atrito foi a tentativa da OTAN em integrar na organização a Geórgia e a Ucrânia.
Aí instalar-se-iam novos dispositivos de intercepção anti-misséis.
Às portas de Moscovo!
Tal facto irritou solenemente as autoridades russas.
Por último, Saakachvili decide invadir a Ossétia do Sul, com apoio da EU, através de conversações secretas e com finalidades encobertas.
Um dia saberemos...
Na actuação na Geórgia parece claro que Saakachvili foi aconselhado pelos EUA, para o conflito.
A situação americana com a guerra do Iraque, do Afeganistão e a manutenção de uma permanente pressão sobre o Irão, levou os neo-conservadores que rodeiam Bush e a Srª. Condoleeza Rice, a mais esta aventura na Geórgia.
E depois chamar a UE, o CS da ONU, etc, para apagar fogos.
Quando olhamos para a Ossétia não podemos deixar de a comparar ao Kosovo.
O respeito pelas fronteiras internacionais estabelecidas questiona-se quando existem graves problemas no âmbito dos Direitos Humanos nomeadamente com minorias étnicas, como é o caso, rebentam os conflitos. Sucedeu no Kosovo e na Ossétia do Sul.
A Rússia não está em período de expansão, antes pelo contrário, tenta segurar aquela região que, desde otempo da mãe-Rússia" foi o seu coração – a Ucrânia.
No campo oposto, todos conhecemos qual a política da OTAN em relação aos Países de Leste (da antiga órbita soviética)
Saakachvili foi tentado a dar um passo em falso na convicção de que a Rússia estava imobilizada.
Um erro estratégico clamoroso a somar ao longo curriculo de Bush.
Estes problemas são, ao fim e ao cabo, problemas europeus se tivermos em linha de conta a celebre frase “Europa do Atlântico aos Urais”...
A OTAN é o veiculo de intromissão dos EUA na Europa do Leste. Não desiste de desempenhar este papel. E qualquer intento de militarizar estas regiões, através da OTAN, só agrava os complexos equilíbrios das área balcânicas.
Mais, sejamos directos e francos, esses intentos, não interessam à UE, mas sim aos EUA.
A Europa mantêm importantes e ciclicas divergências com a Rússia.
Questões que passam pelo oil e pelos gasodutos...onde os EUA, sempre presentes na área energética, pretendem meter a colherada.
A Europa tem de evitar a militarização do conflito. Se não quiser ficar ensanduichada entre o Leste e os EUA, a gerir tensões e problemas criados por conceitos e delírios imperiais que lhe são estrategicamente estranhos.
A Geórgia tem, neste momento, um conflito aberto com a Rússia. É um País envolvido num conflito “em banho maria”.
Na prática, está em guerra.
A OTAN, segundo as normas de procedimento, segundo a prática de longo tempo, não deve promover a sua entrada na organização, como parece querer fazer.
Portanto, a chave da Paz estará nas mãos da OTAN...
Ao fim e ao cabo, após o fim de um Mundo bipolar , aparece um Mundo unipolar , de hegenomia norte-americana.
As consequências estão à vista!
As expectaivas dos cidadãos desse Mundo, eram outras.
Que surgisse um Mundo multipolar , onde os problemas da Ossétia, Abkassia, Kosovo, Iraque, etc., não acontecessem...
Enfim.
Excelente resumé.
Quanto ao divórcio à bala, como único método, só faltou acrescentar o "litigioso".
Abraço
MFerrer