Amálgamas de incoerências ou as insónias da Direita...


A discussão do programa do XVIII Governo Constitucional expôs, de modo límpido , as frustrações de uma Direita arredada do Poder pelo voto popular.
Só hoje a Direita parece ter-se apercebido que a “grande, qualificada e diria global” maioria reside na Assembleia da Republica (AR).
Para um português, menos atento às coisas públicas, portanto, políticas, haveria a noção de que só a partir de hoje a AR seria o fórum privilegiado da democracia representativa, onde, através dos partidos, os cidadãos estão representados.

Hoje, também, a Direita entreteve-se a repetir, repisar e recalcar que o PS não tinha a maioria absoluta. Portanto, não representava os portugueses.

Raramente, na AR, se ouviram tão enormes alarvidades. Parecia que só Governos com maioria absoluta têm legitimidade para governar. A legitimidade democrática, para a Direita, navega ao sabor do vento…

Quando analisa a globalidade do órgão representativo salienta as fragilidades das maiorias relativas. Contrapõe uma outra maioria, aritmética, matemática, numérica que não corresponde politicamente a nada. Aliás, chama-lhes “coligações negativas”.
Esquece que o absurdo “negativista” seria uma situação de todos contra um! Aliás, esta “contabilidade” de mercearia, anda próxima da chantagem democrática.

Um Governo de maioria relativa, com certeza que despende um esforço redobrado. É necessário negociar, concertara muitos assuntos essenciais da actividade do Estado, para garantir aos cidadãos a continuidade das prestações governativas, entre elas, as financeiras e as sociais.
Uma delas – provavelmente a mais importante - será o Orçamento Geral do Estado da qualdependem todos os deficites e os superavits.

Os portugueses apreenderiam muito sobre política se, durante esta negociação do Orçamento, em todos os seus passos – desde o começo até ao encerramento e votação – existe uma grande transparência pública e democrática.

A Direita hoje no Parlamento estava raivosa, impotente, ressabiada e agastada.
Tentava retirar dos esconsos baús da derrota política de 27 de Set, velhos argumentos, mostrando como só entende os veredictos eleitorais como meros actos de confirmação das confabulações das elites económicas e finaceiras.

Recorreu a todo o tipo de pulhices. Evocou, por exemplo, que o PSD sozinho, tem mais votos que a totalidade da Oposição, o que lhe conferia particulares responsabilidades na manobra democrática. Se não se tratasse de um partido que, uma vez derrotado e afastado do circulo directo do Poder, fica, por largos tempos à deriva, dando ao País o triste espectáculo de uma agremiação... sem rei, nem roque!
A outra grande pulhice foi ter a ousadia de – para efeitos de guerrilha parlamentar – considerar a oposição como um todo.
Não existe Oposição (una, indivisível, coordenada...)
O que a AR alberga são Oposições (dispares, antagónicas e ideologicamente variegadas)
E será esta diferença – constantemente escamoteada pela Direita - que permitirá a governação de um partido com maioria relativa.

Durante todo o dia os partidos representados na AR teceram uma multiplicidade de cenários. Todos acharam que as suas propostas eram indispensáveis, insubstituíveis, inultrapassáveis e deveriam subsituir as do PS.
A certa altura pairava a sensação que o programa de Governo deveria ser a amálgama de todas as propostas, independentemente do quadrante político de origem. E que o Partido mais votado - por não ter obtido uma maioria qualificada - deveria ser o menos representado no Programa de Governo... O novo modelo de "bode expiatório"...

Ninguém teve a audácia de – perante a segmentação partidária existente na AR – há uma verdade que se teima em manter escondida. Existe uma maioria sociológica de Esquerda que não funcionará concertada e coerentemente, mas que permitirá avançar no terreno legislativo, em questões estruturantes, fracturantes, de modernidade ou de modernismo.

O País tradicional com a enxada na mão, pobre mas honrado, reverente e obrigado por lhe ser permitida o acesso às migalhas que caiem da mesa do grande banquete, cultivado durante os longos tempos do salazarismo, está agonizante ou, já, nem sequer existe.
Esvaíu-se na torrente da tentacular de expoliação que quadrilhas de ex-governantes, amigos e favorecidos que tudo quer controlar e, sejamos directos, com tudo pretende lucrar. Para substituir esta ignominiosa concepção do País, começam a aparecer os lobbys que ao menos têm uma virtude. Têm rosto e facilmente se adivinha o que está por detrás.

Este espectro de saque, esta imagem de arrancar à sorrelfa do Estado tudo o que pode ser rentável, tem caracterizado a Direita, associações patronais, clubes de empresários - em muitas circunstâncias numa semelhança liturgica decalcada da Igreja - é, todos os dias, desmascarado e a sua previsível derrocada - tira o sono à Direita!
Ontem, para um "ouvidor" atento - "isso" - foi visível e notório na discussão do programa de Governo no Parlamento e na hipocrisia parlamentar da Direita que, permanentemente, veio à tona ...
Que vivam ensombrados com os seus fantasmas.

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