Corrupção e democracia

Não sei se aquele hábito de pedir aos santos um empenho para um emprego, a ajuda no exame, a preferência na disputa de uma promoção e outras pequenas corrupções, que se pagam com esmolas e ave-marias, cria condições especiais para o apodrecimento dos valores morais nos países de tradição católica.

A verdade é que a Espanha, França, Itália e Portugal sofrem de uma endémica tradição que envergonha os povos e causa a sua ruína. A degradação que parece ter-nos atingido ultrapassa os níveis suportáveis de um país com um módico de decência e de respeito por si próprio.

Não sei se, no passado, se desceu tão baixo ou a corrupção chegou tão alto, porque só com a liberdade de imprensa foi possível que os casos chegassem ao conhecimento público e ao escrutínio da justiça.

Deixo de parte esse cancro da violação do segredo de justiça e a aterradora hipótese de os sindicatos judiciais poderem ter uma agenda própria, metástase que urge extirpar em sede da próxima revisão constitucional, ficando bem explícito que a natureza da função é incompatível com a sindicalização de juízes e de magistrados do Ministério Público.

Uma coisa é certa, os factos delituosos existem, ainda que a incompetência, incúria ou dificuldade de prova conduzam à prescrição ou absolvição. Grave é julgar na praça pública o que é da competência exclusiva dos tribunais e não haver penas que levem o medo onde falta a vergonha e à cadeia quem prevaricou.

A democracia não aguenta casos sucessivos como os da Moderna, Casa Pia, BPN, SLN, Freeport, submarinos e, agora, a teia de corrupção em torno dos lixos. É putrefacção a mais num país que se baba de gozo por ver humilhados os adversários políticos e não reflecte sobre a vergonha colectiva que nos atinge. Um ministro sai do Governo, leva para casa 51893 fotocópias do ministério da Defesa e ninguém exige uma investigação.

Das mais insignificantes Juntas de Freguesia aos mais altos escalões do Estado somam-se casos que vão da conspiração política à troca de favores, por dinheiro, empregos e remunerações em espécie. Não se podem sanear as contas públicas, exigir sacrifícios e impor a autoridade do Estado num clima de generalizada desconfiança e impunidade.

Ponte Europa / Sorumbático

Comentários

ana disse…
Acho que só agora começamos a perceber o que é essa coisa da corrupção. Sempre houve, nascemos com ela, mas de tão habituados nem achávamos estranho. O que pensaríamos agora de um funcionário de uma Câmara, Finanças, Conservatória, que só fizesse o seu trabalho a troco de uma nota? Lentamente, é certo, as coisas vão mudando. E se não muda a mentalidade tão depressa como desejaríamos, é preciso encontrar para já mecanismos que assegurem o exercício do poder apenas a quem está disposto a cumprir as regras. Metade desistia logo da corrida.
André Pereira disse…
Precisamos de uma cura ética, de um banho de limpeza moral no exercício dos cargos públicos e privados. A ganância, o orgulho do vil metal, os pequenos luxos da passadeira vermelha levam os menos preparados à catástrofe. E com eles, o regime.

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