A questão iraniana ou a decadência teocrática da "revolução"...

Podemos considerar que o facto de G W Bush ter deixado a presidência dos EUA é mais um factor de júbilo para o Mundo.
Caso contrário teríamos à perna os neocons a tentar aproveitar a agitação popular determinada pelas eleições presidenciais – cujos contornos de fraude são cada vez mais evidentes – para “exportar a democracia” para o Irão.
Está, hoje, largamente difundido que, nos finais de 2007, por proposta do então presidente G. W. Bush - e dando resposta às ambições neocons de "exportar a democracia a todos os locais onde haja petróleo, num estilo de "novas cruzadas" - o Congresso teria aprovado vultuosas verbas para serem promovidas operações secretas (CIA) com o fim de “desestabilizar” o regime teocrático iraniano link.

O “Conselho de Guardiães” da auto-proclamada “revolução” reconheceu que em 50 cidades votaram mais de 100% dos inscritos…
Estas gritantes irregularidades deviam – mesmo num País com uma democracia embrionária – a repetição das eleições. No Irão, não! Considera-se que, apesar destas clamorosas fraudes, Ahmadinejad, terá ganho as eleições, já que o seu apoio nas zonas rurais seria esmagador.
A limpidez e a transparência dos julgamentos do “Conselho de Guardiães” é esta!
Uma sondagem efectuada pelo Center for Public Opinion de Washington y KA Europe SPRL, com sede em Bruxelas, efectuou em Maio 2009 um inquérito onde obteve as seguintes previsões: Ahmadinejad, 34 %, Musavi 14 %, indecisos 27 %.

Então porquê milhões de iranianos ocupam as ruas e as praças de Teerão, manifestando-se contra o regime, dispostos a arriscar a vida?

Porque, no mesmo estudo, se conclui que 77% dos iranianos é favorável a sistema político mais aberto e democrático em que, por exemplo, o todo poderoso “Supremo Líder”, chefe dos ayatolas, fosse eleito por votação popular livre e directa.
Na verdade, Jamenei (o líder supremo) é quem controla os centros de decisão e comanda o País (incluindo as Forças Armadas).
Uma esmagadora maioria (96%) dos entrevistados, constata que o “líder supremo” e o presidente (um seu mero executivo) são as instâncias fundamentais da Republica Islâmica. Os outros inúmeros "Conselhos" vão - como dizia o poeta - guardando as margens...

Muitos iranianos gostariam que o presidente gozasse da liberdade de ser o defensor das liberdades e dos direitos humanos no País.
As últimas eleições trouxeram uma alteração qualitativa na participação dos cidadãos. Homens e mulheres participaram lado a lado, nos comícios, nas manifestações, nos confrontos, apesar da perseguição e do controlo dos mujahidines (soldados de Deus). Uma situação cujo recuo, no futuro, será difícil.
Mas, mesmo aqui, o “Líder Supremo”, despe as suas vestes de grande mullah e vigia atentamente a democracia "divina".

Ahmadinejad, limita-se a prometer “pôr o dinheiro do petróleo nas mesas do povo”.
Não o fez, mas este tipo de promessas garante-lhe o apoio dos meios rurais que continuam de mão estendida à esmola, como no tempo do Xá.

Na realidade o que os citadinos observam é o crescimento de uma oligarquia de mullah’s cada vez mais rica, envolvida nos grandes negócios do petróleo, da energia nuclear (com fins energéticos ou militares) e do armamento.

O saque das riquezas do País e negócios da China no campo energético e do armamento controlados pelos insaciáveis mullah’s torna-os poderosos, mas venais e corruptos.
Mas também fanáticos e ferozes.
A paz podre e os equilíbrios que, ainda, se estabelecem no seio da oligarquia religiosa são cada vez mais frágeis. Isso foi (muito) visível na última "crise" provocada pelos protestos a favor da repetição das eleições.

Não estará distante o dia em que o regime iniciará as guerras internas (orgânicas ou institucionais) provocadas pela insaciável ganância e da delimitação dos "cartéis", dos cluster's, e, naturalmente, se auto-destruirá, desmantelando uma artificial "unidade" em torno da actual hierarquia religiosa. Um dia o dinheiro falará mais alto do que o muezim e convocará do cimo do minarete os poderosos para um nova luta: a do domínio do mercado interno ou uma nova repartição da riqueza.

Este o fim que vaticino para a clique sucessora de Khomenei.
Elites religiosas que combaterão pela divisão do "seu" quinhão de petróleo, como as “famílias” das honorabiles societás…

Comentários

Mensagens populares deste blogue

O Sr. Duarte Pio e o opúsculo

Coimbra - Igreja de Santa Cruz, 11-04-2017