MEMÓRIAS DA “PRIMAVERA MARCELISTA”


MEMÓRIAS DA “PRIMAVERA MARCELISTA”

Quando o Almirante Américo Thomaz, Presidente da República em 1968, substituiu o incapacitado Salazar pelo Prof. Dr. Marcello Caetano, muitos pensaram que este iria “liberalizar” o regime. Foi a chamada “primavera marcelista”.

Tal ilusão, porém, durou pouco tempo. A única medida “liberal” de Marcello Caetano foi acabar com as licenças de porte de isqueiro (no tempo de Salazar, para se poder usar isqueiro, tinha que se obter, mediante pagamento de uma taxa, uma licença da Câmara).

De resto, Marcello, por vontade própria, por falta de coragem, por falta de visão política, ou – o mais provável – por tudo isso, nada mudou. Limitou-se a mudar o nome às coisas.

“Acabou” com a Censura; mas decretou que, em tempo de guerra, poderia haver “exame prévio”. Ora, como, segundo a doutrina do Governo, estávamos em guerra nas colónias, havia lugar a esse “exame prévio”, que era nem mais nem menos que a censura salazarista. Tudo ficou na mesma.

Quanto à PIDE, limitou-se a mudar-lhe o nome para “Direcção-Geral de Segurança” (DGS), nada modificando na sua estrutura nem nas suas práticas.

A prova é este abaixo-assinado. Alguns democratas, em 1971, tomaram a iniciativa de fazer um abaixo-assinado, dirigido a Marcello Caetano, pedindo a libertação dos presos políticos.

É claro que este abaixo-assinado não obteve qualquer efeito. Marcello limitou-se a remetê-lo à PIDE-DGS, que com ele “enriqueceu” as fichas dos signatários. A minúcia dos agentes daquela polícia foi ao ponto de dizer que o documento foi assinado por 95 indivíduos e que o autor destas linhas o assinou em 42º lugar.

Não me lembro do que aconteceu a seguir. A mim não me incomodaram (limitando-se a engrossar a minha ficha com este “crime”). Mas o mais certo é que os primeiros signatários tenham sido, se não presos, chamados à PIDE-DGS para interrogatórios.

Comentários

AHP:

É altura de lembrarmos a ditadura aos que procuram branqueá-la.

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