A extinção do serviço militar obrigatório

Face à proposta do Governo e à entusiástica concordância da generalidade da sociedade portuguesa com a qual parecem conformar-se quase todos os partidos com assento parlamentar, venho manifestar um ponto de vista que colide com o pensamento e o sentir da generalidade dos meus compatriotas.

Não estamos no tempo em que o signatário foi incorporado 4 anos e 4 dias numas Forças Armadas que obedeciam à voz do dono. Não temos a guerra injusta e criminosa que inviabilizou uma descolonização menos traumática. Não temos um Governo ilegal e prepotente como aquele que lançou a minha geração no pesadelo da guerra colonial.

Mas a democracia que hoje se respira com naturalidade não é uma conquista irreversível. Não há conquistas irreversíveis.

É por isso que defendo o serviço militar obrigatório para ambos os sexos. É por isso que entendo que a opinião pública deve debruçar-se sobre uma decisão que, em situação de crise, pode condicionar o nosso futuro colectivo. Serviço militar obrigatório não significa que todos os jovens tenham de ser incorporados e, muito menos, pegar em armas. Significa, isso sim, que as Forças Armadas tenham no seu seio o pluralismo ideológico que se reflecte na sociedade portuguesa.

O voluntariado, a predisposição para a obediência cega, a falta de controlo podem levar a que lenta e paulatinamente se resvale para a criação de uma hidra que em situação de instabilidade sufoque as liberdades e conduza a um Governo autoritário.

Os novos militares sentir-se-ão mais solidários com a entidade patronal que lhes paga do que com a Pátria a que devem obediência.

Não quero que as Forças Armadas voltem a ser a guarda pretoriana de uma ditadura mas sim o referencial de estabilidade e a garantia das liberdades e do regular funcionamento das instituições democráticas.

Penso que o serviço militar obrigatório defende melhor os valores da sociedade. Gostava que os meus compatriotas se pronunciassem a este respeito antes duma decisão que temo poder vir a ser grave.

Nota: Este texto, escrito em 12-10-1998, foi publicado no EXPRESSO no sábado seguinte. Infelizmente, as juventudes partidárias do PS, PSD e CDS, levaram à extinção do SMO.

Comentários

Anónimo disse…
Como tua compatriota, na minha mui modesta opinião:
1)Também sou contra o serviço militar voluntário, pois teremos um exército de mercenários, os piores soldados que existem. Matam por dinheiro, não por amor a coisa nenhuma. Defenderão quem tiver mais dinheiro e mais poder.

2)Mas também sou contra o serviço militar obrigatório. Em resumo sou contra termos exército. Para mim não se justifica que um País como o nosso o tenha. Salvo o erro foi a Costa Rica que eliminou o dela, pois sabiam que por melhor que fosse o seu exército nada poderia contra o vizinho, e como não tencionava invadir ninguem...As condições que levaram os nossos soldados a fazer o 25 de Abril, nunca mais acontecerão.

3)Para mim, homens e mulheres deveriam ser treinados para guardas florestais, defenderem as nossas matas e pinhais. Treinados para conduzirem helicópteros e avionetes para salvamento de pessoas e apagar incendios. Ensinados a conduzirem lanchas para salvamento de pescadores em perigo.Enfim, salvar em lugar de matar.

A ser obrigatório, que o seja para servir um exército Europeu, ou, talvez a ONU. E claro, acabar com os capelões...
Anónimo disse…
Cumpri 5 anos de serviço militar obrigatório, não fui voluntário, nem para assobiar. Sei o que custa servir a nação, ao contrário de muitos que opinam sobre o assunto.

Apesar de tudo, penso que o SMO, é o melhor caminho...um exército de voluntários, normalmente é a base de apoio das ditaduras.

O SMO pode ser útil em muitas áreas, nas florestas, na abertura de estradas, na construção de infra-estruturas básicas, etc. Acções de guerra, exército europeu, só para voluntários.

Serviço militar para as mulheres, só para voluntárias... é coisa de mau gosto, no DIA INTERNACIONAL DA MULHER, o governo de Sócrates, noticiar o recenseamento militar das mulheres, medida em prol da igualdade entre os sexos mas, uma medida, verdadeiramente idiota.

As mulheres precisam de emprego, de promoção social e nunca de botas e armas para ocupar o tempo...e muito menos, para fazer carreira.
Anónimo disse…
Em todo o caso, é bom saber que o CE se opôs, oportunamente, a essa idiotice de meninos, que foi o fim do serviço militar obrigatório, e a sua substituição pelo regime de mercenariato!
Anónimo disse…
Admito perfeitamente a bondade e a pertinência deste texto, escrito, aliás, com a lucidez habitual.
Todavia, porque estive fardado à força, durante três anos, três meses, treze dias e meia hora e porque ainda não consegui guardar o distanciamento suficiente, prefiro não alinhar nessa formatura...
Reconheço no entanto, que se trata de um excelente tema de debate.
Por exemplo: Se tivermos um qualquer Barroso como primeiro-ministro e uma qualquer guerra num qualquer Iraque, e se não tivermos um Sampaio para se opor ao envio de tropas para a dita, o que é que pode suceder aos "forçados à farda"?
Anónimo disse…
JRD, meu velho amigo:

Fui vítima durante mais 8 meses, 17 dias e 23H30 do que tu.

Recordo-me bem da forma como nos opúnhamos à guerra e à ditadura, quando era perigoso fazê-lo.

No entanto, acho diferente o papel das FA em democracia.

No nosso caso era a PIDE a vigiar-nos no Café Martinho e o Exército a enviar-nos para uma guerra criminosa.

Em democracia, aceito e defendo o papel das FA e temo sempre os mercenários.

Neste aspecto penso de forma diferente da Ana Maria, uma mulher cuja coragem cívica e coerência muito aprecio desde que tive o privilègio de a conhercer.
Anónimo disse…
Posso estar mais de acordo com a Ana, que é duas vezes contra, do que com o Carlos?
Estamos a confundir desejos (nossos) com realidades (sociais).
a) Relembro a forma como a população americana de há um século, salvo erro no filme «Chicago», reagiu à tentativa governamental de estabelecer um SMO nos EUA. Em força, e de modo a fazê-lo arrepiar ràpidamente de caminho.
b) O SMO conseguiu ser aceite pela populações, em Portugal e arredores, num ambiente económico e social determinado. Que já não existe, desapareceu.
Mesmo nas últimas décadas em Portugal, sabemos bem, sei bem, como as famílias procuravam fazer pela não incorporação dos jovens inspeccionados.
c) Aconteceu em Portugal, com o governo de Cavaco Silva, e com um SMO de 4 meses, termos tido um dos mais aberrantes serviços militares do hemisfério Norte. Um atentado à dignidade dos jovens atingidos pelas 'sortes'.
Sorte dos nossos governos, darem com uma população de 'mansos', a evitar as cenas do filme «Chicago».
d) Volto à opinião da Ana: sim a um Serviço Nacional, de segurança e defesa, de prestação cívica ás populações e ao Estado. Mantendo naturalmente umas FA ajustadas ao País.
Talvez demasiado exigente para os nosso hábitos, talvez com laivos demasiado sociais ou mesmo socialistas.
Seguramente que sem interesse para a maioria. De muito boas elites e de muito boa classe política.
e) Condenado portanto, à realidade das coisas. Mais do que qq voluntarismo político, a realidade da economia e da sociedade. Os políticos, limitam-se aliás a seguir essa realidade.
Digo eu, que tive a sorte de ter trabalhado sempre com tropa voluntária. No tempo do SMO, e no tempo em que o regime de «volutariado», não assentando num salário sigificativo, não tinha os contornos actuais, a tender para uma outra forma de emprego. Pago.
Anónimo disse…
Uma aliada do CE:
A directora do suplemento do DN «notícias», que acabo de ler:
Depois de uma reflexão sobre a educação a cargo dos pais e da sua permissividade/facilidades/menores exigências para com os petizes... que termina com:
«Não seria altura de voltar à tropa obrigatória»?
Dado o bom senso e a pertinência habitual da directora, aqui fica.
Camarelli disse…
o papel das FA em democracia pode ser apreciado ao serviço da NATO, apoiando activamente guerras mercenárias no estrangeiro.
o nacionalismo é uma coisa abominável que só promove a xenofobia e o racismo. as democracias militaristas e imperialistas são tão perigosas como as ditaduras com os mesmo qualificativos. será que um dia se vai conseguir substituir a nação por um conceito moderno mais solidário?
jamais lutarei em defesa dessa coisa a que chamam nação ou pátria. para mim, pátria é a língua, e defendo-a comunicando.
Anónimo disse…
matarbustos:

Estou de acordo que o nacionalismo é abominável mas não ignoro a bondade da intervenção na Sérvia pondo termo ao genocídio contra os islamitas do Kosovo.

Igualmente julgo meritória a presença de forças portuguesas em Timor.
Anónimo disse…
Meu Caro Esperança,
Vê bem o tempo que nos tiraram!
Repito-me, admito com ressalvas o papel das forças armadas, mas, no que diz respeito a obrigatoriedade ou voluntariado, prefiro a opção "civil", porque, se for necessário, até as Democracias recorrem a "voluntários à força" para travar as suas guerras.
Anónimo disse…
Carlos; podes ter a certeza que para mim foi também uma alegria enorme conhecer um ateu de fibra como tu.

Quanto à questão do teu artigo, sei que a minha posição é uma utopia… Sei que a esmagadora maioria das pessoas teme perder a sua nacionalidade, a sua Pátria, se não existirem as FA. Mas quanto aos dois Países que falas em que Portugal esteve com as suas tropas, isso poderá acontecer sempre, se a ONU for a opção militar dos jovens (portugueses ou portuguesas) que quiserem seguir uma carreira na tropa. Aliás termos a ONU a decidir se devemos ou não interferir num País pode ser uma segurança para se evitarem situações tão perigosas como as que JRD aponta.

Quando as nossas tropas foram para Timor, achei bem. Hoje já não tenho tanta certeza. Para mim, para Timor, o que não hesito em apoiar foi o envio de professores, médicos, enfermeiros, técnicos que os pudessem ajudar a construir o País.

Mas se houvesse um referendo se as FA deveriam deixar de existir não hesitava respondia: SIM, no entanto se o referendo for se o serviço militar deve ser facultativo ou obrigatório… ficaria aflita sem saber como responder. Sou contra as duas hipóteses só porque se for facultativo, teremos um exército de mercenários, o que abomino! Mas detesto a ideia de ser obrigatório os nossos rapazes e raparigas serem sujeitas a uma educação dada por um grupo de sargentos de mente quadrada. Lembro-me de o meu Pai (nasceu em 1912) dizer cheio de orgulho que na tropa tinha sido tudo menos militar (até foi dado como desertor)

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