mutatis mutandis versus status quo...



Portugal vive, como ninguém duvida, tempos de crise económica.
É uma crise importada, como todos sabemos, mas a sua prevalência, exige, do mesmo modo, respostas atempadas.

No fórum “Novas Fronteiras” do PS, dedicado à Economia, foi difícil encontrar as propostas de estímulo do Governo para combater a crise.
A menos de 3 meses das eleições andavam todos perdidos...

O Governo, numa primeira abordagem da crise, mostrou, alguma prontidão, apresentou-se seguro e resolutivo. E traçou uma opção.
Isto parece ter sucedido há séculos. Quando Sócrates tinha ferocidade suficiente para enfrentar a crise. Hoje, parece que só quer ser humilde. Acabará humilhado.

Parecia ter escolhido uma revisita ao modelo Keynesiano em detrimento do modelo neo-liberal.

Aparentemente, para um cidadão leigo, uma boa escolha, já que na génese da actual crise era visível, estava esmagadoramente presente, a influência das doutrinas de Milton Friedman e da subsequente redução das funções do Estado frente ao domínio do mercado livre. Ora a crise nasceu da não-regulação, desse mercado livre.

Como sabemos, Keynes, defendia que o Estado deveria interferir na sociedade, na economia e em qualquer área que achasse necessário.
O modelo do Estado intervencionista (Keynesiano) só foi adoptado (serviu) – exclusivamente - para “salvar” o mundo financeiro do colapso eminente. Parou aí.

Os neo-liberais não permitiram que o mesmo fosse aplicado à recuperação económica.

A intervenção do Estado em termos de um substancial acréscimo de investimento público – através da realização de grandes obras estruturais - de que o País está carenciado, foi a proposta governamental. Foi levantado pela Direita os efeitos apocalipticos da dívida externa que se estendiam até à 7º. geração...
O Governo vacilou e hesitações em tempos de crise são fatais para a confiança dos investidores e consumidores.

Os partidos da Direita, imbuídos pelas doutrinas neo-liberais que, apesar do desastre ocorrido – a maior recessão mundial nos últimos 80 anos – não pretendem abandonar, foram "abocanhando" sistematicamente e concertadamente esses planos.

Começaram pela localização do novo aeroporto na OTA e não mais pararam.

Entretanto, propõem que a existir um eventual apoio às empresas esse seja dirigido às PME’s que, no entender da Drª. Manuela Ferreira Leite, poderão gerar ou manter 2 milhões de postos de trabalho. Não se dá ao trabalho de explicar como.

As PME’s vivem subsidiariamente das grandes empresas. Estas são a parte fundamental dos seus objectivos estratégicos.
Como as grandes empresas se “deslocalizaram” a sobrevivência das PME’s é mais do que problemática.
O PS que, entretanto, foi abandonado a "conta-gotas" os grandes investimentos públicos - sob a indisfarçável pressão da Direita – acaba no fórum “Novas Fronteiras”, por cair nos braços das PME’s.

Sabe que as PME’s não têm objectivos estratégicos de desenvolvimento interno (o mercado interno retraiu-se drasticamente), nem de penetração do mercado internacional(as exportações caíram assustadoramente).

Então, tira um trunfo da manga: a internacionalização das PME’s como se o mercado internacional fosse um assunto fácil de trabalhar e de conquistar. Ou se fossoe possível fazê-lo num ápice.

Falta-lhe, finalmente, tirar um último coelho da cartola: criar, por geração espontânea, níveis de competitividade que garantam o acesso a uma internacionalização.
A internacionalização proposta, no Fórum do PS, dirige-se, prioritariamente, a países do 3º. Mundo.
Que terão dificuldades de cumprir contractos e o serviço das dívidas decorrentes de uma política de exportações gizada um pouco ad hoc.
Se o sistema financeiro está a estabilizar com imensas dificuldades, um novo deslizamento do sector dos seguros – extremamente ligado ao sistema financeiro – corre o risco de nos fazer andar para trás.

Resumindo: A direita neo-liberal conseguiu “esvaziar” o programa de estímulos do Governo para resolver a crise.
Conseguiram – no assunto fulcral do momento político e económico – que não existissem diferenças nas soluções a propor aos portugueses.
Não há alternativas. A estratégia socialista morreu. Fica o desgaste de 4 anos e meio de governação.

Sócrates, ao entrar nos "terrenos" onde, o PSD, sempre o quis encurralar, deu, ontem, mais um tiro no pé.

Acrescentar uma quimérica “internacionalização” ao apoio preferencial às PME’s para resolver a crise, sendo uma solução económica aparentemente liberal, é como adicionar água do Luso a um vinho avinagrado.
Continuará avinagrado… e um pouco mais diluído. Mas, na mesma, intragável!

Comentários

O pior que o Governo pode fazer daqui até às eleições é hesitar e tergiversar.
polytikan disse…
preso por ter cão, e preso por não ter.
- se não apoia as pme, é porque está cego. se as apoia, então é eleitoralismo!
- se permite candidaturas paralelas, é porque tem falta de quadros; se as proíbe, então é eleitoralismo!
- se acelera as grandes obras, comete "crime de lesa-pátria"; se as difere para depois das eleições, então é eleitoralismo.

sócrates quer conquistar o eleitorado para renovar a maioria. estranho seria se ficasse cego e surdo depois das europeias. percebeu a lição. dá a mão à palmatória. reconhece razão a algumas críticas da oposição.
estranho seria se não o fizesse.
bom seria que a oposição também reconhecesse algumas críticas do governo, mas parece de repente possessa de toda a verdade e do saber absoluto.
que o povo nos livre disso!

Mensagens populares deste blogue

O Sr. Duarte Pio e o opúsculo

Coimbra - Igreja de Santa Cruz, 11-04-2017