Espanha – o render da guarda do rei-pai e da rainha-mãe

Felipe de Borbón e a sua consorte  Letizia Ortiz serão em breve, respetivamente o rei e a rainha de Espanha. Talvez os últimos, apesar da honrosa linhagem da futura rainha.

A abdicação do rei-pai e, por inerência, a passagem a rainha-mãe da indulgente esposa, transmite por herança uterina ao filho varão o fausto e o poder simbólico que, num país laico, vai passar por uma catedral com borrifos de água benta de um  hissope brandido vigorosamente por um cardeal da Igreja católica.

Franco, que se cumpliciou com o Opus Dei, que o iluminou, deixou à Espanha o regime que nunca foi sufragado, e que terá de expirar de uma só vez, porque as monarquias não estão sujeitas a votações periódicas e democráticas.

O direito divino é o anacronismo que a inércia e as cumplicidades suspeitas  perpetuam. Talvez por isso, hoje , em Madrid, e um pouco por toda a Espanha, desfraldaram-se bandeiras da República. Não foi a semente a germinar, foi o fruto maduro de quem não se conforma com poderes não escrutinados, de quem não distingue os glúteos de uma rainha das nádegas de uma camponesa, de quem não vê na anatomia de um útero real as diferenças do órgão em que qualquer mãe gera um filho.

Viva a República.

Comentários

e-pá! disse…
No desabar do franquismo Santiago Carrillo (ex-secretário Geral do PCE) denominou o ainda rei como Juan Carlos, o Breve. A previsão de Carrillo não se verificou e a casa de Bourbon 'reinou', nesta fase de construção do regime democrático pós-franquista, durante 39 anos muito à custa da popularidade do rei granjeada na altura do 'putsch das casernas' que teve como protagonista visível Tejero de Molina mas que envolvia altas patentes militares fiéis ao 'Movimento' (falangista).
A partir daí criou-se, à volta do rei de Espanha, uma aura de facilitador da unidade e integridade de Espanha (um Estado com múltiplas Nações).
Na verdade, a monarquia espanhola movimentou-se na corda bamba das contradições nacionalistas mas, na actualidade, a 'questão catalã', questiona a qualidade e a validade desta intermediação dinástica.
Na realidade, as casas reais europeias surgem cada vez mais como resquícios de um anacrónico feudalismo e mais recentemente subsidiárias dos malogrados impérios europeus que tanto sangue e morte espalharam pela Europa.
Os 'Impérios' mudaram e, hoje, deixaram de estar sediados nos tradicionais e majestáticos palácios das 'grandes famílias' de 'sangue azul'. No presente, a soberania e consequentemente os novos 'soberanos' estão dependentes de Davos e das itinerâncias euro-americanas de um secreto e misterioso club nascido em no pós-II Guerra (1956) que trocou as faustosas antecâmaras reais pelo modesto Hotel de Bilderberg...

Assim, a atitude do rei de Espanha não é propriamente uma abdicação mas, antes, a imagem da resignação perante 'outros senhores' que efectivamente comandam Mundo.
Este é mais um pequeno e irrelevante episódio que ilustra o triste fim das 'velhas monarquias europeias' mas é também uma ameaça para as 'novas repúblicas'...
O problema entre Monarquia, República e Império remonta à antiga Roma e nunca foi completamente resolvido.
Este comentário é um excelente post.

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