O 'faraónico' discurso da Guarda...


Discurso do Presidente da República na Sessão Solene das Comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas - Guarda, 10 de Junho de 2014

 “…Os Portugueses têm direito a esperar que as principais forças políticas e as suas lideranças adotem uma atitude e uma cultura em que o superior interesse nacional seja colocado acima dos interesses partidários. Que sejam capazes de ultrapassar as divergências do tempo curto dos ciclos políticos e eleitorais e compreendam que Portugal enfrenta desafios que nos remetem para um tempo longo, para um horizonte alargado que ultrapassa os mandatos dos governantes.
Os desafios que temos diante de nós, de todos nós, só podem ser vencidos através de uma cultura de compromisso. Adiar por mais tempo um entendimento partidário de médio prazo sobre uma trajetória de sustentabilidade da dívida pública e sobre as reformas indispensáveis ao reforço da competitividade da economia é um risco pelo qual os Portugueses poderão vir a pagar um preço muito elevado.
O tempo de diálogo que se estende agora até à discussão do próximo Orçamento do Estado será o mais indicado para que as forças políticas caminhem no sentido da concretização do direito à esperança dos Portugueses, numa perspetiva temporal mais ampla, situada para além de vicissitudes partidárias ou de calendários eleitorais. É essa a responsabilidade das forças partidárias”… link.

Trata-se de uma prosa política totalmente coincidente (perfeitamente sobreponível) com a arenga da maioria governamental desde a derrota nas eleições autárquicas. 
Trata-se, fundamentalmente, de tentar condicionar o próximo mandato governamental que decorrerá dos resultados das eleições legislativas que ocorrerão no próximo ano. O Presidente sabe mas prefere iludir que os próximos tempos não são de diálogo. No imediato, tudo aquilo que vai ocorrer “até à discussão do próximo Orçamento do Estado…” não é o tempo mais indicado para que as forças políticas caminhem no sentido da concretização de consensos ou de acordos … O sonho do 'cavaquismo' seria regressar à Quinta da Coelha e tudo permanecer imutável (sem alternativas).

Quem publicamente acha que o Governo tem o ‘direito’ de solicitar aclarações’ ao Tribunal Constitucional deveria ter a hombridade de fazer chegar esse mesmo ímpeto clarificador ao suporte representativo das actuais forças (e lideranças) partidárias. Só existe uma maneira de o fazer: convocar eleições antecipadas. Esse é como sabemos um tabu para Cavaco Silva. Todos nós conhecemos no que desembocam os seus recorrentes tabus. De resto, não se percebe como grande parte das medidas de ‘ajustamento’ decorreram sob o manto da maioria governamental (PSD e CDS) que dispensou solenemente (e autoritariamente) qualquer contributo e diálogo da(s) oposição(ões) e subitamente daqui para a frente (quando se anuncia tempos de ‘esperança’) essa ‘coligação’ tornou-se pequena, estreita e incapaz. Indisfarçável é a noção (de Cavaco Silva) de que o terreno lhe foge debaixo dos pés e o Presidente, que se tornou no 'abono de família' da actual maioria, pretende, desesperadamente, adiar o futuro numa mescla de compromissos antecipados o que significa dissociar a ‘liberdade’ da ‘esperança’.
 
O discurso da Guarda foi uma utópica elegia à eternização da Direita no Poder.  Pretendia que os futuros Governos teriam de viver assombrados pelas soluções impostas pela actual maioria governamental. Não são esses os ventos da História. 
Como dizia Diderot: “A paixão quer que tudo seja eterno, mas a natureza impõe que tudo acabe." 

Foi ‘isso’ que o discurso da Guarda mais uma vez confirmou: a 'paixão' de Cavaco Silva pela actual maioria não lhe permite arbitrar a ‘vontade nacional’ nos tempos próximos, nem alimentar a abusiva pretensão de condicionar Portugal para futuro.
O ilusionismo pode fazer saltar coelhos da cartola mas não assegura a eternidade. Nem os faraós, que foram  em vida tratados como deuses, conseguiram esse feito...

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