O PS, a bola e o recreio...


O PS está a dar uma imagem indigente e confusa (fiquemos por aqui) da sua democracia interna e no que diz respeito à capacidade autónoma de superar problemas. 
Não é confortável analisar problemas internos dos partidos nomeadamente quando a opção é (ou foi) não militar em organizações desse tipo (essenciais à Democracia, acrescente-se).
Todavia, a evolução da crise interna do PS está a ser – deliberadamente - empurrada para fora do âmbito partidário e, neste momento, aposta no envolvimento de um alargado de pessoas, classificadas como ‘simpatizantes’, convocadas para interferir na clarificação da liderança. Não se trata de ‘Estados Gerais’ ou fóruns similares onde recurso ao contributo da sociedade civil para desenvolver programas de acção partidários e para ‘afinar’ opções doutrinárias (previamente enquadradas, definidas e aceites) que tem sido usado com o propósito de preparar programas de Governo. Trata-se, isso sim, de endossar à sociedade civil a resolução de problemas organizativos num momento em que a luta pela conquista do poder começa a aquecer os motores e a desconfiança (a desmotivação) é endémica. Uma vez resolvido o problema existirá sempre o risco de a sociedade civil ser enxotada para as margens do processo político-partidário.

O facto de os portugueses terem hoje a nítida percepção de que os actuais dirigentes partidários blindaram estatutariamente os seus cargos não abona em favor da transparência organizativa e funcional que deveria ser uma característica primordial dos partidos políticos. Na verdade, a mesma equipa dirigente que resolveu acorrer ao exterior para resolver problemas é a mesma que armadilhou e congelou soluções internas.
Esta ‘anomalia’ que tenta consolidar nos seus cargos os dirigentes e bloqueia qualquer tipo de clarificação ou de mudança em momentos políticos cruciais ou extraordinários (e este será um deles) foi aparentemente ultrapassada pelos acontecimentos mas, na realidade, permanece inscrita nas regras do PS e pronta para ser invocada no futuro.

O recurso a ‘primárias’ para resolver o impasse apareceu como uma ‘saída democrática’ na tentativa de superar (contornar) uma profunda crise interna, absolutamente subsidiária de divergências estratégicas (subjacentes mas não explicitadas), que se tornaram iniludíveis desde as últimas eleições europeias.

O alargamento dessas primárias a ‘simpatizantes’ mostra como no bloqueio interno existente se pode enxertar uma perigosa armadilha. Primeiro, são os dirigentes e militantes que deverão através de propostas ideológicas e objectivos programáticos conquistar simpatizantes para as políticas democraticamente definidas no interior do partido que aliciem votos em posteriores em actos eleitorais e não o contrário, isto é, de uma amálgama de interesses antecipada e confusamente sufragados em ambiente ‘aberto’ e daí nascerem uns controversos executantes. Na realidade, a actual direcção de António José Seguro foi eleita pelos militantes socialistas (em directas circunscritas ao PS) e não se percebe por que razão o escrutínio acerca da sua actuação e consistência da sua liderança tenha necessidade de uma avaliação ‘alargada’. Isto é, para eleger basta a ‘prata da casa’ mas quando se trata de escrutinar a actuação da actual direcção, enquanto oposição a um Governo desastroso, incompetente e incapaz de governar Portugal, situação que pode abranger uma eventual a demissão, torna-se necessário alargar a consulta aos ‘simpatizantes’.
Mais ou menos isto: para eleger uma maioria simples mas para demitir uma maioria ‘qualificada’. Os portugueses interpretam esta solução como ‘batota’. Tanto mais que os actuais dirigentes não aparecem publicamente a reconhecer a armadilha criada à volta de um inconcebível bloqueio estatutário (que não caiu do céu), nem se apressam a corrigi-lo para futuro.

A experiência europeia de ‘primárias’ partidárias alargadas é incipiente e controversa. Três exemplos – o francês, o italiano e o grego – não permitem ainda conclusões quer quanto à sua eficácia quer quanto aos resultados pretendidos (a credibilização da actividade partidária perante os cidadãos eleitores). 
O exemplo francês em pleno desenvolvimento mostra que a ‘escolha’ das primárias (François Hollande) foi um verdadeiro desastre e o actual Presidente da República não colhe, passados 2 anos, qualquer apoio popular. É difícil saber se, há 3 anos (Outubro de 2011), os socialistas franceses e os seus ‘simpatizantes’  fizeram uma boa escolha. Provavelmente, hoje, muitos socialistas gauleses perguntam se Martine Aubry não serviria melhor os interesses partidários e nacionais. A escolha ‘alargada’ não é per si a garantia de boas escolhas ou de bons resultados.
O modelo italiano é diferente. Tem uma tradição mais longa (2007), mais ardilosa e à primeira vista responsabiliza em maior grau os dirigentes partidários. A esquerda italiana encontra-se praticamente 'federada' no Partido Democrático (PD) onde coabitam espectros que vão de democratas-cristãos, republicanos, sociais-democratas, socialistas até aos comunistas e 'isso' faz alguma diferença. As directas nascem desta alargada fusão e da dificuldade dos diferentes aparelhos partidários controlarem um leque tão vasto de militantes. Mais tarde entraram numa espécie de rotina permitindo que Matteo Renzi (actual primeiro-ministro) não hesitasse em fazer uma aliança prévia com a Direita (de Berlusconi) para apear o ex-primeiro-ministro Enrico Letta (também do PD). Renzi não se contentou em subscrever um acordo de Governo tout court incluindo, também, aspectos controversos  de reforma constitucional. O 'modelo italiano' está muito distante das actuais directas do PS já que pressuporia o esclarecimento prévio das alianças para o futuro, i. e.,  um assunto tabu no seio do PS (para A. J. Seguro e A. Costa).
A versão grega merece poucos comentários. Reduziu o PASOK a uma expressão eleitoral residual não mobilizando os cidadãos gregos nem corrigindo o desfasamento com a sociedade civil para com os partidos do 'arco da governação' grega.
Em incubação está, também, uma experiência com o PSOE para colmatar dificuldades bem evidenciadas nas últimas eleições europeias onde, apesar de escassa margem, foi derrotado pelo PP. 
As directas abertas aos simpatizantes surgem, portanto, como uma espécie de panaceia para legitimar escolhas internas e combater as desconfianças dos eleitores em relação aos aparelhos partidários (que não abandonaram o controlo deste novo método). Não há recuo suficiente para defendê-las tão desaforadamente.

Finalmente, para não nos alongarmos e sintetizar a questão reduzindo-a a um esboço (quase um desenho) a situação que se vive presentemente no interior do PS é passível de uma explicação pretensamente didáctica, como se faz naquelas histórias pacientemente urdidas para contar às criancinhas. 
Assim:
Era uma vez um menino que, com a equipa que ‘seleccionou’, está a treinar, no recreio, com uma bola. Chuta à baliza mas não consegue marcar golos. Parece que joga a ‘feijões’.
Eis que então, aparece um outro menino, com outra equipa, manifestando o ensejo e a vontade de disputar um jogo a valer. 
O primeiro menino constrangido parece aceitar o desafio mas avisa que – segundo as ‘regras’ - a vitória na disputa só será reconhecida se o resultado for uma abada. 
No momento de iniciar o jogo treme, recua, invoca que já estava a jogar há muito tempo e detém o ‘privilégio’ de arbitrar. Não satisfeito resolve, então, convocar a assistência das bancadas para participar no jogo. 
Todos sabemos o que vai acontecer nessas circunstâncias: uma batalha campal!
 
Esta a armadilha e a situação de bagunça que está a tomar conta do PS nestes tempos muito duros e pouco recreativos... .

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