Jaime Gralheiro, dramaturgo, advogado, escritor e antifascista

Conheci Jaime Gralheiro no início da década de 70 do século passado nas andanças da política, em Lisboa. Foi ele que me apresentou ao Zé Barata, professor de teatro na U. C., em 1973, quando, por razões profissionais,  me transferi para Coimbra.

Em 1975 fiz, com ele e A. J. Dias de Almeida, a campanha política da CDE no distrito da Guarda, em que ele era o cabeça de lista. Separámo-nos politicamente e nunca mais rompemos os laços de quem não transforma diferenças em divergências. Encontrei-o de novo no Jornal do Fundão, onde, durante dois anos, tive o privilégio de publicar umas crónicas nos mesmos números onde o notável dramaturgo exercia a sua pedagogia cívica. Ambos tivemos Fernando Paulouro, como diretor, e Oscar Mascarenhas como chefe de redação, dois jornalistas de mão cheia, duas penas notáveis e dois cidadãos exemplares.

Em 2008 foi sócio fundador da Associação Ateísta Portuguesa e costumava honrar-nos com a sua presença nos almoços de aniversário.

Partiu o amigo, dramaturgo, antifascista, intelectual, escritor e cidadão curtido nas lutas contra a ditadura. Travou ontemo seu último combate mas deixou as sementes de um dos últimos homens ecléticos do nosso tempo, um intelectual multifacetado.

Jaime Gralheiro é uma referência de beirão que dedicou a vida aos seus ideais. Como advogado foi especialista na legislação dos baldios, o tema que serviria a Aquilino para um livro notável, «Quando os Lobos Uivam».

A vida de Jaime Gralheiro enriqueceu o património intelectual, cívico e ético das Beiras e do País. O seu corpo encontra-se no cineteatro de S. Pedro do Sul que tem o seu nome.

Ele não parte, nós é que vamos indo ao seu encontro. Até sempre, Jaime Gralheiro.

Comentários

e-pá! disse…
Tive oportunidade de conhecer Jaime Gralheiro, durante os tempos quentes de 1975, altura em que o TEUC decidiu levar à cena a sua excelente e oportuna peça 'Arraia Miúda'.
Esse esporádico convívio foi uma feliz oportunidade para 'descobrir' mais um beirão culto (Aquilino Ribeiro e Vergílio Ferreira foi outras impressionante descobertas 'beirãs'...), empenhado na construção de um Portugal justo com esperança e futuro.
Trata-se de um homem que merece outras homenagens para além do recente e justo baptismo do cineteatro de S. Pedro do Sul que, felizmente, ocorreu durante a sua vida.
Nunca estamos preparados para as inevitáveis perdas de seres que ocupam a nossa memória ou a nossa ampla 'esfera afectiva' (onde a arte e a política também 'residem')...
Fica, no entanto, a alegria residual de ter um dia fruído a oportunidade, o ensejo e a honra do seu convívio.
A magana da grande foice é como a raposa manhosa, leva sempre a galinha mais gorda. Merecia um tiro na testa.
Abraço, Barroco!

Mensagens populares deste blogue

A ânsia do poder e o oportunismo mórbido

Nigéria – O Islão é pacífico…

Macron e a ‘primeira-dama': uma ‘majestática’ deriva …