quarta-feira, julho 31, 2013

O zero e o absoluto

Quando uma maioria absoluta precisa de se submeter a uma moção de confiança a si própria, apesar da cumplicidade absoluta do presidente da República, é porque a acossa a dúvida absoluta sobre a confiança que merece.

O País ficou absolutamente mais inquieto e com a absoluta certeza de que esta maioria, cuja coesão tende para o zero absoluto, é absolutamente inapta para salvar o País, mas está absolutamente determinada em conduzi-lo para um absoluto e irrevogável desastre.


A ministra das Finanças e a verdade

Maria Luís Albuquerque tem o condão de se autoconvencer e mostrou ser muito melhor a moldar os factos ao que diz do que a persuadir os deputados da razão que lhe falta.

Ontem, na A.R., com a segurança habitual, parecia aquele condutor que, na autoestrada ia em sentido contrário e que, tendo ouvido pela rádio que um condutor circulava pela via errada, concluiu que não era apenas um. Eram todos os outros.

terça-feira, julho 30, 2013

António Barreto – a pitonisa da pior direita


António Barreto, ilustre sociólogo, medíocre cidadão e execrável político, culpa "todos os partidos" pela "ameaça terrível de bancarrota".

Dada a inconstância que pautou a sua vida política, desde o malabarismo que o excluiu do PS, o oportunismo que o afastou do PCP e a vergonha que o coibiu de ser candidato à Câmara do Porto, pelo PSD/CDS, António Barreto refugiou-se no regaço da direita e, sem deixar de fingir que era de esquerda, converteu-se na vuvuzela reacionária da pior direita.

Há indivíduos assim. Até gente honrada lhe cita o nome, enquanto os incautos o ouvem como se fosse um pensador virtuoso e um político que se pautasse pela independência. Depois de ser o comentador avençado da direita, com laivos de imparcialidade, acabou como empregado de um merceeiro holandês, exonerando a coerência, a ética e o pudor republicano.

O sofrível político de quem Mário Soares, na sua pior fase, fez ministro da Agricultura, é o exemplo que os pais devem apontar aos filhos como vergonha a que estes os devem poupar.


O aumento do horário na Função Pública

Gostava de saber o impacto da medida na economia nacional. Se não foi a melhoria do serviço público e o mais fácil acesso da população às repartições, a maior celeridade na resolução dos problemas dos utentes e um benefício claro para os portugueses, trata-se de mais uma prepotência da direita e de um ato de vingança de quem trouxe os traumas pessoais para as decisões políticas contra os servidores da Função Pública.

Há medidas cujo alcance é facilmente compreensível e outras, como esta, cuja obsessão parece residir em sentimentos persecutórios de quem diz defender a família e, no fundo, apenas pretende amputar o tempo de convívio entre os seus membros.

Perante a esquizofrenia legislativa de quem parece mover-se pela obstinada vingança a tudo o que lembre o 25 de Abril, uma paranoia contra os direitos de quem trabalha, uma vindicta contra a democracia e um ódio turvo à Constituição, cabe a todos os cidadãos a resposta a esta deriva totalitária metodicamente executada pelas forças que tomaram os partidos da direita, primeiro, e o Governo, depois.

Basta.


Na morte de mais um militar democrata


Acabo de receber a notícia do falecimento do major-general Alberto da Luz Augusto. Terminou a carreira militar como 2.º Comandante-Geral da GNR. Era um honrado militar que frequentou o Liceu Nacional da Guarda do 1.º ao 7.º ano. Frequentou a Escola do Exército e formou-se em engenharia.

Ao amigo e antigo colega de turma relembro-o com saudade. É mais um democrata que parte.

segunda-feira, julho 29, 2013

O papa Francisco defende a “laicidade do Estado"


O papa Francisco surpreendeu claramente ao defender o Estado secular: "a coexistência pacífica entre as diferentes religiões fica beneficiada pelo estado secular, que, sem assumir como própria, nenhuma posição confessional, respeita e valoriza a presença do fator religioso na sociedade ".

Como se conciliam tais palavras, que admito sinceras, com o que se passa em Portugal:

- Isenções de impostos de que beneficia a Igreja católica Apostólica Romana (ICAR);
- Pagamento pelo Estado dos capelães militares, hospitalares e prisionais;
- Existência de uma disciplina de EMRC;
- Contratação de professores da EMRC, livremente nomeados e exonerados por bispos;
- Presença de cavalos, músicos e militares nas procissões e em outros espetáculos pios;
- Profusão da iconografia católica nas paredes dos edifícios públicos;
- Presença de sotainas em cerimónias do Estado;
- Designação pia de hospitais quando não há uma só Igreja com nome de políticos;
- Com restrições orçamentais, uma embaixada exclusiva para o bairro do Vaticano;
- Etc., etc., etc..

Lá vamos, cantando e rindo. Levados, levados, sim. Pela voz de som tremendo. Das tubas, clamor sem fim”…


Para que os portugueses possam aperceber-se ‘do que a casa gasta’ coloca-se à disposição dos leitores 2 perorações, do mesmo espécimen, sobre ‘UNIÃO NACIONAL’, separadas por pouco mais de 2 anos:

I

O presidente do PSD entende que a ideia de haver a necessidade de se «fabricar em Portugal uma espécie de união nacional é uma perversão ainda para mais a ser evocada num dia como este».

«A união nacional não é desejada em Portugal nem pelos que têm memória da que já existiu nem daqueles que, com prudência, aprendem lições do passado», acrescentou Pedro Passos Coelho.

Abril de 2011 - link.

II

"Desde que tenhamos os pés assentes na terra e sejamos realistas – quer dizer, não comecemos a estabelecer objectivos que estão manifestamente para além daquilo que as condições nos permitem –, então é possível vencer e ultrapassar obstáculos e conseguir um clima de união nacional, não é de unidade nacional, é de união nacional, que permita essa convergência", disse Passos Coelho, discursando em Pombal na sessão solene de abertura das Festas do Bodo.

Julho de 2013 - link

***
Nota: Se o 'novo' (vice)primeiro-ministro não põe cobro a estes desmandos o Governo arrisca-se a não sobreviver até ao fim da ‘sealy season', privando-nos do inegualável espectáculo do Pontal.

Sem outros comentários…

O irrevogável Portas, a ética e a dissimulação

Durante dois anos, além de colocar gente de confiança no aparelho do Estado, Paulo Portas andou pelo Governo com um pé dentro e outro fora, até ao pedido de demissão irrevogável. Sujeitou o PR ao deprimente ato de posse da nova ministra das Finanças de um Governo extinto, com os ministros do CDS em parte incerta.

Com o chapéu de vice-primeiro-ministro e o controlo do Governo onde a permanência do PM e da referida ministra tornavam eticamente insustentável a sua, reduzida a mera dissimulação, voltou ao local do crime onde, de novo, pôs os pés. Todos.


Passos Coelho, o povo e a União Nacional

Minguando-lhe inteligência para criar o partido único, força para o manter e cultura para lhe traçar um programa, Passos Coelho pensou em restaurar a «União Nacional» com a cumplicidade do PS, desesperado por não poder dispensar a democracia e o PS.

Gostaria de ter o consentimento do eleitorado, enquanto não pode prescindir dele, sendo a bênção do PR a única condição segura. Não podendo mudar o povo, com Cavaco cada vez mais desacreditado, resta ao PM o empurrão caridoso que o lance no caixote do lixo da História. Nem os ministros o respeitam, divididos entre o apoio a Portas e a Cavaco.


O Governo cometeu erros, a que não são alheias a incompetência e a maldade. Quis um país ao seu serviço em vez de o servir; serviu-se da democracia em vez de a defender; e, tendo começado por abolir os feriados identitários do povo, preparava-se para mudar o povo quando este só já pensa em mudar de Governo. 

domingo, julho 28, 2013

Madeira, fundações e o bailhinho do ‘deixar passar a brincadeira’…


Depois da saga à volta da ocultação do ‘buraco’ orçamental da Madeira link, Alberto João Jardim contínua, com espertezas saloias, a dar cabo da paciência dos portugueses.

Trata-se agora da FSDM (Fundação Social Democrata da Madeira) que é proprietária da herdade (um termo um pouco estranho na linguagem madeirense) do Chão da Lagoa que terá recebido - nos anos recentes - do Programa de Desenvolvimento Rural da RAM (PRODERAM) mais de 1 milhão de euros link .

Podem ser esgrimidos todo o tipo de argumentos para justificar uma eventual acção meritória desta Fundação privada - que entretanto ganhou estatuto de pessoa colectiva de utilidade pública com as inerentes regalias fiscais - mas não é possível iludir a sua inserção nas actividades promocionais e propagandísticas das estruturas regionais de um partido político nacional sem, desse modo, insultar a inteligência dos portugueses (madeirenses incluídos).

A actual herdade designada do “Chão da Lagoa” (antiga herdade da Achada Grande) é uma considerável área (considerada a dimensão territorial da Madeira) na zona limítrofe a norte do concelho do Funchal que, depois de diversas vicissitudes, envolvendo a Caixa Económica do Funchal, o BANIF e Joe Berardo (não o cidadão mas a sua Fundação), integra actualmente - e para não enfrentar sobressaltos vindos de Lisboa (são proibidos por lei os ‘partidos regionais’) - o vasto património da Fundação Social Democrata da Madeira. Trata-se de uma Fundação que está a ser investigada pelo Ministério Público encontrando-se o inquérito bloqueado (há cerca de 2 anos) pelo não levantamento da imunidade a AJ Jardim.

É actualmente o ‘poiso estival das romagens do PSD Madeira’, um dos “santuários do ‘jardinismo’”, que o utiliza para promover e festejar um tipo 'popularucho' de arraial partidário. É, também, o rústico mas mediático palco que AJJ usa (e abusa), em jeito litúrgico,  para proferir as suas diatribes anuais (contra as políticas originárias do ‘Continente’), onde fustiga intermitentemente a direcção nacional partidária (que foge de aí estar representada) e se alimenta (oportunisticamente) a chama de um 'separatismo' (ondulante, anacrónico e chantagista).
Grosso modo, a postura de AJJ em relação á ‘Festa do Chão da Lagoa’ - que decorre hoje - é muito próxima daqueles ‘festeiros’ que animavam e subsidiavam as festas paroquiais para ‘alegrar o povo e esquecer a vicissitudes do dia-a-dia', com a pequena, mas substancial, diferença que os arranjos de rua e os enfeites são – neste caso - suportados (pelo menos parcialmente), não pelo 'popular benemérito’, mas à pala de financiamentos públicos (portugueses e europeus).

Tem sido isto que a UE e o OGE tem – como é referido no Jornal Público link - subsidiado com se fosse uma brincadeira (daquelas que se ‘deixam passar’ como canta o folclore madeirense no seu 'bailhinho'). Só que já se 'passaram' demasiadas alarvidades.

Há uma pomba num ninho de facões?

O papa Francisco defende a “laicidade do Estado"


Depois de insistir sobre a "responsabilidade social" dos governantes, o chefe da Igreja católica surpreendeu claramente ao defender o Estado secular: "a coexistência pacífica entre as diferentes religiões fica beneficiada pelo estado secular, que, sem assumir como própria, nenhuma posição confessional, respeita e valoriza a presença do fator religioso na sociedade ".

sábado, julho 27, 2013

EGIPTO: Reflexões sobre o golpe de 3 de Julho…

Ontem, novos e violentos confrontos assolaram o Egipto provocando muitas vítimas e lançando o País numa perturbadora confusão que se intensificou desde que um golpe militar interrompeu mais uma ‘deriva islâmica’ no Norte de África. link
Independentemente de aspectos formais relativos à ‘normal’ eleição de Morsi, enquanto candidato da Irmandade Muçulmana pelo Partido Justiça e Liberdade e que revelaram, mais uma vez e cedo, a capacidade de perverter à posteriori a essência democrática que procura a sua legitimação no voto e num programa político o que o processo em curso nos revelou foi o início de uma deriva para um ‘regime islâmico’ (onde a Democracia é a primeira das vítimas).

O exercício que se impõe fazer é compreender o que parecendo comezinho poderá estar por detrás da actual situação a influenciar os mais recentes acontecimentos.

Na verdade, a Irmandade Muçulmana apareceu ‘suavemente’ na ‘revolta egípcia’ que depôs Mubarak pretenso ‘sucessor’ do pan-arabismo Baas que inspirou Nasser. A queda de Mubarak que ficou a dever-se às manifestações de revolta públicas, aparentemente sem nítida direcção política, mas poderosas e impressionantes no capítulo da potencialidade de movimentação política. Concomitantemente, o vitorioso desfecho da rua provocou profundas dissensões no aparelho militar que não conseguiu impor aos 'revoltosos da praça de Tharir' uma solução congeminada entre os altos comandos e o deposto Mubarak – o Conselho Supremo das Forças Armadas.
De facto, as Forças Armadas, ‘obrigadas’ pelas circunstâncias a alinhar num projecto complexo e confuso de democratização do Egipto ficaram, depois do último acto eleitoral ganho por Mohamed Morsi, numa posição desconfortável. E cedo começaram as intrigas, as retaliações e as movimentações contra a estrutura militar dirigente e contra os tribunais.

A Irmandade Muçulmana terá a nítida percepção de que precisa de começar por domesticar para depois ‘comandar’ - segundo as suas leis - o maior exército de África (muito próximo do meio milhão de efectivos). A acção política visível da Irmandade Muçulmana assenta no largo conceito de ‘assistencialismo islâmico’ que é suportado pela manutenção e desenvolvimento de uma intrincada rede de assistência social, educativa e sanitária aparentemente ‘neutra’ mas politicamente comandada por princípios religiosos (inflexíveis e dogmáticos) que não demoram muito tempo a revelar-se. Esta ‘rede assistencialista’, enquanto a Irmandade esteve interdita de actuar na sociedade egípcia (tempo de Mubarak e antecessores), foi sub-repticiamente ganhando força (conseguiram como ‘independentes’ 20% dos votos nas eleições de 2005) e esta organização cresceu (e sobreviveu) à custa de dinheiros árabes e dos seus militantes tornado possível cobrir – na clandestinidade - uma significativa parcela da população (provavelmente muito acima dos 20% eleitoralmente revelados em 2005).
A extensão dessa rede dando-lhe uma dimensão nacional e um estatuto universalista necessário para ‘sossegar’ os fiéis islâmicos (crentes na providência divina) e outros (coptas, p. exemplo) arrasta consigo sérios problemas de sustentabilidade financeira.

E, então, coloca-se uma questão crucial: onde arranjar esse dinheiro?
- Obviamente que a ‘solução’ passa pelas Forças Armadas egípcias.

Esta imensa corporação domina vastas e estratégicas áreas económicas como foi recentemente revelado pela Wikileaks. São um exemplo único de um ‘Exército/Empresa’ capaz de ‘representar’ cerca de 50% do PIB egípcio. Trata-se de uma enorme holding fortemente armada. Estas ‘qualidades’ colocaram as Forças Armadas na mira da Irmandade Muçulmana tornando indispensável o seu controlo para sustentar, financiar e levar a bom porto a acção político-religiosa.

Resumindo: a Irmandade Muçulmana já vencedora no campo eleitoral aparece interessada no controlo hegemónico da economia egípcia instrumento necessário para financiar as suas políticas. As Forças Armadas tratando-se de um grande empório económico não se deixam expropriar porque ficam sem garantias quanto à sobrevivência e à manutenção do status quo (privilégios e mordomias) da corporação militar.

Daí o golpe de 3 de Julho que aparece à luz do dia liderado pelas FA e apoiado por forças estranhas a este diferendo: a oposição liberal e laica, onde a heterogeneidade campeia.

O desfecho é, também, previsível: Num país maioritariamente islâmico (sunita) um dia haverá um acordo, uma partilha que encaixe no mesmo barco as Forças Armadas e os movimentos islâmicos que se acoitaram na sombra da Irmandade.

E quem será excluído?
- Os liberais e as correntes laicas que agora aparecem ao lado dos militares sem controlar os seus desígnios.

A História tem destas particularidades. Nem sempre os lutadores, uma vez vitoriosos, conseguem distribuir a vitória por todos e permanecer no terreno a liderar as mudanças qualitativas que protagonizaram.

Há sempre ‘alguns’ que, apesar de gostarem de actuar na sombra, aparecem a apropriar-se, a expropriar… a (re)tirar dividendos.

Para onde vai o S.N.S.?

A crescente transferência dos serviços sociais para domínios do chamado sector social – Misericórdias e IPSSs – ocupados pela Igreja católica, revela a irreprimível tendência de substituir a solidariedade pela caridade e de reduzir direitos humanos à vontade divina, discricionariamente administrada pelos bispos católicos.

O desmantelamento do Estado social leva ao regresso do poder clerical e ao retorno do status quo salazarista. À medida que a salvação da alma se torna cada vez mais uma não preocupação, as necessidades do corpo são progressivamente confiadas aos prosélitos da fé.

Não admira a ovação dispensada aos governantes que gravitam em torno de Cavaco, e a este, quando foram, em bando, prestar vassalagem ao novo patriarca de Lisboa.

Os portugueses perdem um módico de segurança e dignidade, que era função do Estado assegurar, e são entregues como mercadoria pia ao arbítrio das sacristias e a instituições privilegiadas pelos detentores do poder político.

A religião católica deixou de ser um assunto particular que cabe ao Estado respeitar, tal como todas as outras associações legais, e passa a parte integrante, sem se saber onde começa o poder das sotainas e termina o dos agentes do Estado.

Vamos por mau caminho. Querem impor-nos o Céu fazendo-nos descer ao Inferno.

sexta-feira, julho 26, 2013

Maria Luís Albuquerque e a ‘nova’ charada política…

A situação da actual ministra das Finanças tornou-se politicamente insustentável link.

De nada vale esgrimir razões à volta de conceitos semânticos. Desde a afirmação de que ‘nada’ sobre este assunto constava na transmissão de problemas em 2011 entre o governo cessante e o recém-empossado XIX GC à revelação do conteúdo de e-mails trocados ente Pedro Felício e Maria Luís Albuquerque estamos perante uma interminável charada. Na realidade não sabemos onde a anterior Secretária de Estado guardou as informações que então recebeu. Provavelmente não foi na pasta de documentos de transição ( a que se agarra para sobreviver politicamente) mas na de ‘assuntos pendentes’.
E pendente ficou este assunto quase 2 anos com os seus custos associados.

Já a ministra ficou prisioneira de outras situações:

1.) da misericordiosa e infinita compreensão dos portugueses;

2.) e da insensatez de um Presidente da República que alega – e acredita - ter recebido de Passos Coelho expressas garantias sobre a nomeada.

Poderá nesta charada existir um amplo consenso. Todos fomos enganados à excepção de Passos Coelho que se dedica a promover casos dúbios. E tal actividade não se circunscreve às Finanças. Os Negócios Estrangeiros são outra face da mesma moeda ficando restrito aos Negócios (através do Banco Português dos ditos).

O ‘novo ciclo’ deste Governo prossegue com a conspurcação do ambiente político. Este o assunto que ameaça ocupar a centralidade do debate da moção de confiança. A discussão da governabilidade do País dará lugar às mais ignóbeis chicanas políticas. Por este caminho não há ‘salvação nacional’, ou qualquer outra.

Os partidos agradecem e conferem títulos académicos


Os fiéis defuntos e os cadernos eleitorais (Crónica)

Quando as doces catequistas da minha infância me iniciaram no ódio aos hereges, ateus, maçons, comunistas e judeus, ensinaram-me igualmente a rezar pelos fiéis defuntos.

Cedo me tornei o melhor aluno da catequese, qualidade a que não seriam alheias as três refeições diárias e o inevitável lanche de que não beneficiavam os meus colegas que iam descalços à catequese e se referiam às barrigadas de fome, nos dias piores.

Talvez por isso, eu era mais sensível aos horrores do Inferno, ao abandono das almas do Purgatório, às delícias do Paraíso e a outras lucubrações metafísicas. A fome e o frio de outros garotos tornavam-nos indiferentes. Não entendia a necessidade da missa para os defuntos que já gozassem o Paraíso ou para quem penasse no Inferno, dada a ausência de trânsito entre os dois destinos, mas as catequistas diziam que, na dúvida, devíamos rezar por todos. E todos rezávamos, eu e os que, descalços e com fome, tiritavam nas pedras da igreja, entre o altar e o transepto, nas noites frias de inverno.

Sempre pensei, apesar de ser em novembro e no dia 2 a missa que lhes era consagrada, que fiéis defuntos fossem os mortos irrecuperáveis, os que não trocavam a defunção por uma ressurreição, salvo no dia de Juízo Final, quando no Vale de Josafat, regressado à Terra, viesse Cristo julgar os vivos e os mortos, como o credo romano ensinava.

Mais tarde, quando acompanhava a minha mãe aos atos eleitorais, passei a ter uma outra interpretação dos fiéis defuntos, julgando que eram aqueles mortos que, sem abdicarem da defunção, eram convocados pelo presidente da mesa eleitoral para votarem na lista da União Nacional quando, à leitura do nome o presidente da mesa se benzia enquanto o secretário introduzia o respetivo voto na urna. Eram, de facto, defuntos fiéis a Salazar. Nem a morte os impedia do cumprimento do dever cívico na única lista a sufrágio.

Depois dos catorze anos, perdido o medo do Inferno e o interesse pelo Paraíso, alheado da fé e da liturgia, deixei de pensar nos fiéis defuntos, mesmo quando a opção ateísta se impôs. Só voltei a pensar nos fiéis defuntos, há poucos anos, quando soube do interesse autárquico por eles.

Os fiéis defuntos adicionam 5% do ordenado do PR ao de vários edis e deles dependem as dotações orçamentais das juntas de freguesia e o nível do salário dos seus elementos. Sem a sua persistente permanência nos cadernos eleitorais, e nos censos populacionais, eram muitos os que só tinham a perder e apenas beneficiava o erário público que, por ser público, serve para benefício privado.

Os fiéis defuntos merecem que as associações autárquicas lhes mandem rezar a missa.

quinta-feira, julho 25, 2013

Lançar foguetes (antes do tempo). Quem vai apanhar as canas? …


O Governo pretende transmitir aos portugueses a ideia que, após esta rocambolesca remodelação apadrinhada pelo Presidente da República, vai mudar de políticas. Chama a esta mudança um ‘novo ciclo’. O ciclo do investimento, do crescimento económico e do combate ao desemprego. Trata-se de mais um malabarismo político, muito a propósito, para enfrentar as próximas eleições autárquicas.

O Governo, na verdade, não tem espaço de manobra nem deu qualquer indício que pretende alterar o trajecto político que encetou há 2 anos. É um executivo marcado por atitudes adictas em relação à austeridade, ao empobrecimento. Ora sabemos que estes comportamentos não conduzem a nenhum ‘outro’ ciclo. Não tem coragem para penitenciar-se e reconhecer que lançou o País num abismo já que nada de bom – e muito menos o crescimento económico - nasce de uma recessão calculista e prolongada. Este o erro capital do ‘ajustamento’ que abraçou cedo e mostrou inúmeras e dramáticas 'inconformidades', incontestavelmente relacionadas com a ferocidade das políticas de austeridade praticadas que induziram a espiral recessiva onde estamos mergulhados. Confrontado com a dramática realidade, o Governo, insistiu ( redobrou) na receita.

As alterações no elenco governativo, uma consequência da marcha para o abismo, têm sido em larga escala sobrevalorizadas. O enfoque na pasta da Economia é antes de mais uma aposta no escuro, para não dizer mais um logro.
O actual ministro – como aliás o anterior – não tem qualquer experiência governativa. Vem de um sector empresarial muito particular onde a concorrência é sui generis e muito limitada. A prática num sector quase monopolista não se aplica à grande diversidade empresarial do País, onde a própria doutrina liberal (não se espera outra atitude de Pires de Lima) se entronca na igualdade e multiplicidade de oportunidades que, como deve ser reconhecido, não existe no circunscrito 'império' onde de movimente a indústria cervejeira e de refrigerantes.

Na verdade, experiência de gestão empresarial não desemboca necessariamente numa boa acção política. Sem querer entrar em pormenores técnicos – não me divorcio da minha qualidade de leigo na matéria – julgo que a grande barreira a enfrentar é o ambiente que formata as políticas públicas (mesmo que subsidiárias de propósitos ‘não-intervencionistas’). O aparelho de Estado habita num ancestral clima contaminado por uma morosa e pesada burocracia devoradora de intenções e indutora de frustrações difícil de ladear e que a dita ‘experiência empresarial’ não contempla.

É, portanto, demasiado prematuro para tecer loas.

Finalmente, temos Governo...


Eu bem avisei...

Eu bem avisei…

Será com estas palavras que este  PR justificará a convocação de eleições antecipadas quando o Governo ora remodelado cair contra a sua vontade, interesse e compromissos.

Com o Governo em que Portas substituiu Passos Coelho, nas decisões, não cairá a ética porque só cai o que está de pé, não se dissolverá o sentido de Estado porque já estava no estado líquido, não se arruinará a idoneidade porque estava omissa, apenas cairá a máscara de quem invocou princípios, rumo e projetos.

Coelho a fazer de PM desligou o sentido de Estado, o valor da palavra e um módico de patriotismo, acabando a humilhar, ainda mais, o PR, obrigando-o a encenar a posse da ministra das Finanças de um Governo que tinha o funeral marcado pelo líder do CDS.

Agora, com Paulo Portas como padrinho deste conjunto vazio, que simula um Governo, substitui-se o correio eletrónico pelo avião, para ir receber ordens a Berlim e adiou-se o funeral, mas não se reanimou o morto. Portas não é um taxidermista de um cadáver, é o coveiro do país que aguarda a apoteose da tragédia para sair pela direita baixa.

Os figurantes que assistiram à posse foram os suspeitos do costume. Nem os empossados acreditaram no oxigénio que Portas lhes garantiu. Só o PR, desassossegado com a reforma exígua que recebe, não enxergou que o doente terminal estava em respiração assistida e as metástases invadiam aquele conjunto de ministros unidos por sólidos rancores e inconfessáveis interesses.

Dentro de alguns meses, Cavaco, qual gato-pingado, reunirá o Conselho de Estado, para pedir conselhos e anunciar o óbito, e convocará para Belém os partidos que fazem parte do fúnebre ritual das exéquias na morte anunciada do Governo a que acabou de dar posse.

Eu bem avisei… Será a altura para um gesto heroico, para a derradeira marca de resgate da vil tristeza do seu segundo mandato – um haraquíri em direto, pela TV, no canal que os seus protegidos quiseram encerrar.

Ponte Europa / Sorumbático

quarta-feira, julho 24, 2013

O Governo passou na inspeção

Um povo que se resigna em silêncio não é um povo resignado, é uma população sitiada pelo medo, desesperada com o presente e aterrorizada com o futuro.

Os Portugueses, que consomem doses maciças do périplo papal pelo Rio de Janeiro e se extasiam com a cria real britânica, não atingiram o nirvana, estão em catalepsia.

Não sei se é a abulia dos portugueses, a incompetência dos governantes, ou ambas, que nos conduzem para o abismo. Sei que a dor tem um limite, que a paciência se esgota e o sofrimento conduz à morte ou à revolta. Até hoje nenhum povo fez haraquíri.


terça-feira, julho 23, 2013

Momento zen de segunda_22_07_2013


João César das Neves (JCN) na homilia desta segunda-feira, certamente sobrecarregado de pecados, regressou aos temas da moral da sua Igreja e à interpretação da vontade do Deus do Papa Francisco, embora desconheça a interpretação do atual mandatário.

JCN aponta o ano de 2006 como a data em que Portugal foi conduzido «ao extremo desmiolado na regulamentação familiar», dando como exemplos «a lei da reprodução artificial», seguida da «banalização do divórcio», «educação sexual laxista» e, rangendo os dentes, as leis do «casamento entre pessoas do mesmo sexo» e a da «mudança do sexo».

A estas leis chama JCN, na devota crispação, «o triunfo súbito do fundamentalismo extremista», com que «a sociedade assustada adotou a posição cómoda e irresponsável de tolerar a libertinagem». Nota-se-lhe o corpo dorido, com fratura exposta e a sangrar por dentro, quando confessa que «As forças de defesa da família, em particular a Igreja Católica, suportaram derrota atrás de derrota fragorosa».

Para o bem-aventurado «Portugal tornou-se um paraíso mundial de comportamentos desviantes e perversos», justificando « o colapso do casamento, ausência de fertilidade, envelhecimento galopante, multiplicação de patologias sociais». Faz chorar as pedras quando lastima que «em 2011 os casamentos foram só mais 34% que os divórcios» e ameaça que «sorveremos a infâmia até à última gota». Segundo JCN, especialista em água benta, incenso e moral familiar, «a escalada não abranda, atingindo já os temas de requinte, como a co-adoção por casais do mesmo sexo». «A espiral devoradora exige-o, como exigirá as vergonhas seguintes» – garante o bem-aventurado.


Finalmente, antes das orações do dia, termina em tom profético com um assomo de otimismo: «Resta-nos o consolo de o futuro vir a aprender com os nossos horrores».

segunda-feira, julho 22, 2013

O tiro de arranque para nova crise na governação?


Portas não se sobrepõe à ministra das Finanças nas relações com a troika”…

De visita a Vila de Rei (Castelo Branco), o primeiro-ministro do 1º. ciclo governativo [ainda em exercício], Passos Coelho, foi adiantando pequenos pormenores sobre a remodelação governamental que será anunciada brevemente ao País no seguimento da comunicação do Sr. Presidente da República do dia 21 passado. Um desses pormenores refere-se às competências a atribuir ao novo vice-primeiro-ministro que - como adivinhamos - não chegou a este 'inovador' cargo (talhado à medida da dimensão da crise) fruto das negociações de partilha de poder entre os 2 parceiros da coligação que suporta o Governo. Chega aí – ficamos hoje a saber - por delegação de competências do primeiro-ministro. Esqueceu-se de esclarecer se essa delegação foi voluntária ou coerciva. O tempo o dirá.

Mas a ponta do véu começou a ser levantada. O início de uma marcha atrás do PSD começou mesmo antes do ‘novo’ Governo tomar posse. Portas foi apresentado ao País, no auge da crise, como sendo o futuro membro do Governo responsável pela coordenação económica e o supervisor das relações de Portugal com a 'troika’. Hoje, depois das declarações de Vila de Rei, começou a vaguear, no interior da coligação, o espectro de uma ressaca partidária decorrente dos 'arranjos' circunstanciais, impostos pela crise política e cujos resultados não serão 'felizes'. Paulo Portas vai ter, afirmou Passos Coelho: “um papel nas relações com a 'troika' enquanto vice-primeiro-ministro, mas sem se sobrepor às ‘competências próprias’ da ministra de Estado e das Finanças, Maria Luís Albuquerque”.

Estamos - está a trupe governante - já num paulatino regresso aos parâmetros que despoletaram a crise. É que no futuro Governo, já percebemos, tudo vai ser ‘revogável’ até que aconteça a sua 'irrevogável' e estrondosa queda. Terão sido estas as ‘garantias’ apresentadas em Belém, que as aceitou...

E assim vai o meu país...

Não querendo o PR punir os prevaricadores, que arruinaram a coligação, o Governo e o País, quis levar a julgamento o PS. Não querendo o PS partilhar as culpas, por não ter estado sequer no local do crime, o PR acabou por se submeter à vontade dos réus e surgiu de novo a abençoar a renovação dos votos nupciais do casal desavindo e, à falta de voluntários, assinou outra vez como padrinho.


Quem perde é quem explica

Podem os comentadores avençados, da coligação e de Belém, repetir cinco, dez, cem ou mil vezes, que a culpa do espetáculo degradante a que Gaspar e Paulo Portas sujeitaram o Governo, cabe a Seguro;

pode o PR declarar as mais pias intenções no acordo a que quis amarrar o PS para salvar a própria face e o descrédito do seu Governo;

podem os líderes do PSD e do CDS jurar que a rutura da coligação foi uma mera ilusão.

Nada, absolutamente nada, pode esconder o conteúdo da carta de Gaspar, a penitenciar-se da falência da sua política e a acusar de falta de liderança o Governo,

e a de Paulo Portas a solicitar a demissão irrevogável, em obediência à sua consciência, para evitar o ato de dissimulação que a continuação no Governo significaria, depois de ter atingido o limite das suas forças, a favor da estabilidade, e de considerar que, após a inaceitável nomeação da nova ministra das Finanças, “não era politicamente sustentável, nem pessoalmente exigível” a sua permanência no Governo.

Só o PR, traído e enxovalhado, após dois anos de ama-seca do seu Governo, julgou que sujeitar o País à espera de um acordo impossível, podia trazer-lhe alguma benzina para as nódoas que Portas esparramou no seu fato de Presidente.

Ficou mais desprestigiado o PR, mais desacreditado o Governo, mais fragilizado o País e mais negro o seu futuro, com a gratuita espera a que Cavaco o sujeitou, acabando por tomar a decisão que sempre quis, tornando-se o único responsável pelos danos no clima económico, político e social causados por tal demora.

Nunca um Governo, uma maioria e um presidente valeram tão pouco, sustentados numa aritmética cuja soma corresponde a parcelas a que o tempo e os erros reduziram o valor.  

domingo, julho 21, 2013

O PR, a embrulhada das alternativas e a opção pela deriva…

A frase proferida foi: “…considero que a melhor solução alternativa é a continuação em funções do atual Governo, com garantias reforçadas de coesão e solidez da coligação partidária até ao final da legislatura”… link
Magistral! A solução alternativa é a que já existe. A ‘melhor solução’ é a receita política que provocou uma lamentável, vergonhosa e inacreditável crise política.

As ‘garantias’ em que agora acredita e que, segundo se entende, não existiriam a 10 de Julho, voltaram depois de se aconselhar com uma cagarra nas ilhas Desertas. Na comunicação de 10 de Julho afirmou: “…os Portugueses devem estar conscientes de que nenhuma dessas soluções [que classificou como alternativas jurídico-constitucionais] dará as mesmas garantias de estabilidade que permitam olhar o futuro com confiança igual à da proposta que acabo de apresentarlink [o malogrado compromisso de ‘salvação nacional’].

A Direita é mesmo assim: ou não admite alternativas ou quando a realidade faz com que tropece com necessidade delas é para mais tarde dizer que tudo permanece como está. O instinto 'conservador' em todo o seu esplendor.

A parte mais enigmática para não dizer caricata do discurso de hoje foi: “Por último, quero afirmar aos Portugueses que, se o atual Governo se mantém em plenitude de funções, o Presidente da República nunca abdicará de nenhum dos poderes que a Constituição lhe atribui” … link Ficamos a saber que o Presidente permanece em funções. Não sabemos se no exercício das suas funções. São coisas parecidas mas não iguais. O tempo o esclarecerá. Provavelmente mais cedo do que o previsto.

Hoje, terá sido inaugurado um novo ciclo: o da deriva política, financeira, económica e social.

É preciso topete…

Ver Mota Soares a acusar o PS de ter rompido unilateralmente um acordo que só trazia a salvação da coligação que Gaspar, primeiro, e Portas, de forma irrevogável, se tinham encarregado de desfazer, com o brinde suplementar de branquear a reputação do PR, foi um espetáculo circense onde se adivinhavam, nos bastidores, músicos, contorcionistas, palhaços e malabaristas na companhia de animais amestrados.


Naquele engano de alma, ledo e cego, que a Fortuna não deixa durar muito…

As ‘negociações’ / 'conversas' interpartidárias para o falhado ‘pacto de salvação nacional’ começam a ter alguns desenvolvimentos e à sua volta aparecem súbitas e interessantes 'revelações' / 'soluções'.

Se não vejamos a proposta apresentada pelo PS nas reuniões que decorreram um exploratório e penoso percurso de hipotética ‘salvação nacional’:

1.4.4. Criação do Banco de Fomento

A criação desta instituição financeira – com licença bancária – deve permitir a articulação com as demais entidades bancárias, utilizando um leque abrangente de soluções, desde o financiamento, à emissão de garantias, à exploração do negócio de seguros de crédito, entre outros produtos financeiros.

O desenvolvimento de um Fundo Financeiro para o Desenvolvimento de Recursos Endógenos (agro-alimentares, florestais, mar e serviços desenvolvidos a partir do factor terra) foi uma das propostas apresentadas pelo PS que deve ter prosseguimento. O desenvolvimento do perímetro de rega do Alqueva é só um elemento ilustrativo desta aposta”.

Aparece, de imediato, o BCE (na realidade o 'pai' de todos os nossos credores) a indicar a bom caminho - aquele que conduz ao 'sucesso':
…BCE oferece mais estímulo ao crédito às PME link.

Tradução:
O BCE está a dizer que o crédito para o estímulo da Economia deve ser intermediado pela banca comercial.
Nada é possível fazer que possa eventualmente prejudicar os interesses da banca. Este parece ser o caso de um Banco de Fomento em discussão há cerca de 1 ano e que, desde o consulado de Vítor Gaspar, tem sido sistematicamente ‘congelado’ (numa cínica posição de obstrução).

O negócio é este: Os bancos irão buscar capitais ao BCE à taxa de referência de 0.5% e vamos esperar sentados para ver a que juros endossam – se na realidade o fizerem - às PME.
Estes são os passos prévios para o plano de continência do 2º. (suave) resgate em adiantado estado de incubação.

Trata-se de [mais] um negócio 'tipo robot’: simples, barato e dá milhões (à banca).

Cavaco Silva nas Selvagens

Quando Cavaco, no rincão onde é mais elevado o seu índice de popularidade, felicitou o português residente, por ter exterminado os ratos e os coelhos, quis fazer humor ou manifestou um estado de alma?

O rato (Largo) e o coelho (espécie de PM) eram uma obsessão na insólita excursão que fez no tempo político errado.

sábado, julho 20, 2013

UM GOVERNO DE MALFEITORES RELAPSOS

Já se sabia que o atual governo é uma associação de malfeitores que governa à margem da lei. Entre muitas outras malfeitorias, nos últimos dois anos apresentou dois orçamentos recheados de medidas violadoras da Constituição.

Porém, agora que o cabecilha – o sinistro Gaspar – se demitiu e que o Presidente da República apelou a que reintegrassem o quadro democrático, dialogando com o PS, esperava-se que arrepiassem caminho. Mas não. Continuam na mesma senda delituosa.

Com efeito, na própria proposta de “entendimento” que apresentaram ao PS tiveram o descaramento de incluir esta coisa espantosa:

“1.8 – Se alguma medida resultante do PAEF for alvo de declaração de inconstitucionalidade pelo Tribunal Constitucional, os partidos signatários comprometem-se, junto do Governo, a apoiar as medidas substitutivas ou apresentar alternativas com igual valor e qualidade, a validar na avaliação regular subsequente.”

Quer dizer: já estão a preparar-se para apresentar um terceiro orçamento inconstitucional, ou pelo menos admitem a hipótese de o fazer. Isto é, preparam-se para reincidir na mesma intrujice que fizeram este ano: apresentam um orçamento com medidas tão gravosas que esbarram na Constituição; declarada, como não podia deixar de ser, a inconstitucionalidade, substituem essas medidas por outras que produzam os mesmos danosos efeitos, mas atribuindo ao Tribunal Constitucional a responsabilidade de tais medidas.

Trampolineiros! E queriam eles que o PS colaborasse na trafulhice!

Bem fez o PS em mandá-los “àquela parte”!

"JUSTIÇA" ISLÂMICA

Uma jovem norueguesa foi violada no Dubai. Apresentou queixa. Mas ela é que foi condenada!!!

http://www.jn.pt/PaginaInicial/Mundo/Interior.aspx?content_id=3332309

‘Crónica de uma Morte Anunciada’…



O anúncio de ruptura das negociações à volta de um ‘compromisso de salvação nacionallink (para usar a terminologia do PR) agrava uma turbulenta fase política despoletada com a demissão do ministro Vítor Gaspar, acompanhada no dia seguinte pelo ‘irrevogável’ abandono de Paulo Portas, que deixaram o Governo sem pé.

A intervenção do Presidente da República nesta ‘grave crise’ (as palavras vieram de Belém) teve o condão de não clarificar a situação política. Antes pelo contrário, introduziram novos vectores de perturbação em todo este processo. Mau grado isso e dado que a comunicação do PR ao país no dia 10 de Julho continha, no seguimento de uma exaustiva preocupação justificativa para a não convocação de eleições antecipadas, uma proposta de compromisso entre os signatários do Plano de Assistência Económica e Financeira com vista a viabilizar um novo ciclo programa de Governo que fosse capaz de concluir esse Plano até 30 de Junho de 2014.

Hoje - e após a ruptura - foi possível conhecer as propostas que o PS link e o PSD link levaram a estas negociações. Por assim dizer a discussão chegou à rua.

Os documentos merecem um estudo sério e aturado porque contêm muitas vertentes mas é possível fazer um exercício rápido quanto a um dos 3 pilares que o PR delimitou para um possível compromisso. Trata-se da antecipação das eleições legislativas.

O PSD (pág. 8 do documento) condiciona a marcação de eleições a uma ‘data que não prejudique o pleno regresso ao financiamento de mercado’ e aperta de tal maneira o cerco à volta do OGE de 2015 que acaba por atirar as eleições lá para 2015 (o que praticamente as faz coincidir com o términos da actual legislatura). Isto é, ‘destrói’ o primeiro pilar do compromisso a conseguir.

O PS (pág. 3) insiste na fixação de um calendário rígido e defende a "antecipação da antecipação" das eleições propondo que as mesmas se realizem em simultâneo com as europeias (Maio de 2014). Justifica este passo com o calendário de apresentação e aprovação do Orçamento de Estado de 2015. Isto é, considera a realização de eleições uma emergência (partidária, estratégica e nacional).

Claro que estas 2 posições antagónicas revelam como o ‘compromisso de salvação nacional’ ao pretender protelar o óbvio – a resolução da actual crise política só se consegue através de nova consulta popular – acabou por, no meio destas conversações, secundarizar o instrumento político fundamental para a resolução da crise. É legitimo pensar que uma das partes não quis compreender que um ‘face lifting' governamental tão superficial e ‘cosmético’ pode satisfazer a maioria parlamentar mas não consegue remover as tremendas dificuldades geradas e acumuladas cá dentro (nomeadamente os rebates partidários) e terá enveredado por desbaratar muitas parcelas de idoneidade lá fora.

Embora os próximos dias sejam determinantes para a saída da crise que se agiganta,  ao Presidente da República pouco mais espaço restará do que convocar o Conselho de Estado e dar seguimento ao processo constitucional aplicável: a dissolução da AR e a convocação de eleições antecipadas.

Como na obra de Gabriel García Márquez (Crónica de uma Morte Anunciada) a fatalidade tem a capacidade de tornar inglórios e invisíveis os esforços para prevenir o inevitável…

O PR, a golpada e o beco

A iniciativa de Cavaco, de adiar a decisão que constitucionalmente lhe cabia, depois da demissão do ministro das Finanças e do irrevogável pedido de demissão de Portas, só contribuiu para deixar apodrecer a situação política para que contribuiu com o seu apoio indefetível à coligação e, depois, agravou, com o envenenado convite ao PS, para salvar a face e o Governo.

Ao PR, no respeito pela CRP, só restava uma solução quando o ministro de Estado e das Finanças se penitenciou publicamente pelo falhanço da sua política, que foi a política do Governo, e pôs em causa a falta de liderança, sublinhada com o estrondo da demissão de Paulo Portas. O desenlace da coligação só tinha uma saída democrática – a marcação imediata de eleições legislativas que, por economia, convinha juntar às autárquicas.

Todavia, com a ética e o sentido de Estado exonerados das funções de Estado, podia o PR aceitar a remodelação de Paulo Portas, menos interessado na honra do que no poder, e ter dado posse ao conjunto de ministros e secretários de Estado que deixavam o poder nas mãos do pouco confiável Portas. No entanto, era uma saída constitucional que, ainda agora, é juridicamente inatacável apesar da debilidade política.

Cavaco tomou, na opinião de Eanes, homem sério a quem o país deve muito, mas que a idade, o matrimónio e o Opus Dei tornaram vulnerável, uma decisão «ousada e correta». É pena que as decisões ousadas de Cavaco não sejam corretas e as corretas, se acaso as toma, não são certamente ousadas.

Cavaco tornou-se culpado pelo apodrecimento da situação política, económica e social do País. Não interessa o que cada um gostaria que ele fizesse, cabe-lhe sair do beco em que meteu o País e responder pela leviandade com que procurou um acordo impossível.


Aurárquicas em Oeiras

As eleições disputam-se dentro do PSD, entre um polícia e um presidiário. De um lado está Moita Flores, reformado da PJ, com o prazo de validade autárquica esgotado em Santarém,  se o TC permitir as candidaturas itinerantes.

De um lado está o aparelho público do PSD a apoiar Moita Flores, do outro o aparelho clandestino dos «isaltados» que não trocam Isaltino por Flores.

Um está preso à decisão do Tribunal Constitucional e o outro na prisão da Carregueira, donde dirige o movimento «Isaltino – Oeiras mais à frente», com Paulo Vistas a liderar a lista à Câmara e Isaltino – o legítimo –, à Assembleia Municipal.

Resta saber se Isaltino vai cumprir a pena na Assembleia Municipal ou se esta vai reunir à prisão da Carregueira.


sexta-feira, julho 19, 2013

O PS E O "COMPROMISSO DE SALVAÇÃO NACIONAL"

Contrariamente a muito boa gente, acho que o PS andou bem ao aceitar entrar nas negociações propostas pelo Presidente da República - que Cavaco, apesar de tudo, infelizmente ainda é. É que se o não fizesse toda a gente (isto é: todos os políticos desde o centro ou mesmo do centro-esquerda até à extrema direita, mas também grande parte dos portugueses não políticos que, infelizmente, ainda se deixam levar na conversa presidencial) diriam que a Nação não se salvou porque o PS não quis colaborar na sua salvação, pôs os interesses do partido acima dos do País, e blá-blá-blá.

Dito isto, entendo que o PS não pode fazer qualquer coligação, aliança, acordo ou seja lá o que for com o PSD e o CDS, que estão a levar o País à ruína com o seu projeto neoliberal e governam contra o Povo e contra a Pátria, a favor dos credores agiotas e da alta finança.

Não pretendo com isto dizer que o PS devesse aceder a entrar nas negociações só a fingir. Não: o PS, nas negociações, apresenta as suas propostas; teoricamente o acordo seria possível: era questão de o PSD e o CDS abdicarem do seu programa e se disporem a seguir uma política diametralmente oposta à que têm seguido. É evidente que na prática isso é impossível, e portanto não haverá acordo. Mas ninguém poderá dizer que o PS não tentou.

Frustradas as negociações, terá o PS de saber explicar ao povo por que é que elas se frustraram.

Baixa política…


O presidente do PSD protagonizou no Conselho Nacional mais uma jogada de baixa política link. Quando, frente à comunicação social expressamente convocada para o efeito, teceu considerações sobre a ronda de conversações em curso acerca da proposta do Presidente da República do dia 10 de Julho que, ao que se julga, por acordo inter-partidário, estavam a decorrer sem o tal megafone que Paulo Portas referiu na AR (quando da discussão da moção de censura dos Verdes).

Mais, mostrou-se um verdadeiro mistificador ao referir que a incerteza que o País vive decorre da demora das negociações escondendo que as causas da actual crise política residem no (público) desentendimento da maioria governamental (CDS/PSD). E nesse ensejo não teve rebuço em invocar – mais uma vez – o sentimento dos mercados, numa interpretação que acha ser única e acertada. A antecipação de eleições não é um problema para Passos Coelho mas o dirigente do PSD julga saber que os mercados não gostarão do veredicto popular antecipado pelo que o mesmo não se deve realizar agora, daqui a 1 ano ou, se calhar, no fim da legislatura.

Finalmente, tentou pressionar o PS, mais uma vez distorcendo o passado, referindo que quando estava na Oposição viabilizou PEC’s, Orçamentos e até aumentos de impostos (sobre os quais na altura fez a rábula de pedir desculpas públicas). Esqueceu-se do que o PS já viabilizou nestes últimos 2 anos e passou ao lado do ‘chumbo’ do PEC IV.

De facto, o desespero deve ser muito grande. O recurso às ‘narrativas’ mais espúrias e inconsistentes mostra que entramos num período político do ‘vale tudo’. Que é o mais recente condimento deste partido para tentar prosseguir, por todos os meios, a desastrosa governação em que está apostado.

Sobre as declarações proferidas no Conselho Nacional do PSD, tornadas públicas por decisão deste órgão, nada mais podemos esperar do que o bloqueio dessas negociações em curso. Amanhã, Passos Coelho, deverá - usando a 'baixa política' - vir a terreiro culpar o PS pela não obtenção do tal 'compromisso de salvação nacional'.
Já nada, vindo da boca desse manipulador, espanta os portugueses...

Assim não há diálogo possível


Estas afirmações são ética e politicamente inaceitáveis. Estão ao nível das convicções de Bernardino Soares sobre a democracia da Coreia do Norte.

Sob o fio da navalha

Depois da moção de confiança apresentada pelo partido «Os verdes», sob o pseudónimo de moção de censura, não mudaram os cenários, mas alteraram-se as condições para as conversações que decorrem entre o PS, PSD e CDS.

O PSD rejubilou com a retumbante vitória obtida pela aritmética de uma maioria que se desfez. O CDS mal se ouviu, a digerir a vergonha do ziguezagueante líder que já perdeu o pudor e o eleitorado. O PS, entalado com a moção que, segundo Jerónimo de Sousa, era contra ele, salvou a honra votando sem hesitações e de acordo com o que tem dito. O PCP e o BE cumpriram a liturgia com compostura.

Não sei avaliar as consequências económicas da decisão, ou ausência dela, que vai sair das conversações dos três partidos a quem o PR, desesperado, exigiu que o salvassem. Fê-lo quando viu o barco do seu Governo a meter água e, só então, convidou o PS para o naufrágio, excluindo o PCP e o BE, como se tivessem lepra.

De algumas coisas estou certo depois de ter visto o ar fúnebre de Paulo Portas na AR, o medo, vindo das Selvagens, na face do PR e ouvido um discurso público, de improviso, num registo surrealista, de Passos Coelho a dirigir-se aos conselheiros do PSD, sem ter percebido o ato de contrição e o ataque à sua liderança no testamento de Vítor Gaspar.

Cedo se saberá se é o suicídio de Seguro que se anuncia ou o funeral do Governo que se encomenda. Na segunda hipótese o PR terá de explicar ao País o que o levou a adiar a certidão de óbito ou a negar a remodelação conduzida por Paulo Portas.

quinta-feira, julho 18, 2013

Uma censórica argolada…



A apresentação da moção de censura pelo Partido ‘Os Verdes’ foi, desde o início e tendo em consideração o actual momento político que o País vive, uma argolada.

A intervenção presidencial (não vamos classificá-la) tinha colocado a actual maioria a braços com o problema de apresentar uma moção de confiança e pela via parlamentar afrontar o Presidente da República. Coisa que a moção de censura apresentada veio inopinadamente resolver. Foi ouvir - de imediato -  Passos Coelho a saudá-la na momento da sua apresentação verbal como ‘muito bem-vindalink e, hoje, Paulo Portas, na Assembleia da República, afirmar que ‘censura que não censura, confialink.

Claro que as coisas não são bem assim. Uma coisa é defender-se de um ‘ataque’, outra coisa será ter a coragem de encetar uma manobra ofensiva. Todavia, a confusão instalada tem possibilidades de temporariamente perdurar.

Não estamos em época de impetuosos amadorismos quando se jogam – em todas as frentes – passos decisivos para o futuro do País. E o timing – e não a substância – que levou à apresentação da moção de censura foi, politicamente, uma argolada.

A Direita que sabe bem como está acabou por receber com alguma euforia a oportunidade de como sucede com os condenados à morte em que os ‘executores’ lhes oferecem uma lauta refeição. Que por norma é a última!
O exemplo histórico destes procedimentos entronca-se da célebre ‘última ceia’ cuja montagem reproduzimos na figura.
(Nota: um dos apóstolos - V. Gaspar - já desertou, sendo substituído por uma ‘apóstola’ que ainda não figura no boneco).

De facto, nem as condenações à morte são coisas recomendáveis nem as euforias fúnebres aceitáveis. Fiquemos por aqui.

Lembrar o padre António Vieira


António Vieira (Lisboa, 6 de fevereiro de 1608 — Salvador (Bahia), 18 de julho de 1697) foi um religioso, filósofo, escritor e orador português da Companhia de Jesus.

(Homenagem do Ponte Europa, no dia da sua morte, ao mais alto paladino da língua portuguesa)

‘Negociações’: em Lisboa ou em Frankfurt?



O ‘compromisso de salvação nacional’ proposto pelo Presidente da República e neste momento em discussão pelos partidos, que se auto-denominam do ‘arco do poder’, é politicamente uma hipótese remota e no aspecto prático uma magistral impossibilidade já que para não entrar em especulações políticas, começa por não decorrer no local apropriado.

O ‘isco’ de eleições a partir de Junho 2014 pode servir estratégias políticas imediatistas mas nada acrescenta à situação real do País. Pelo contrário a espera de um ano será fatal para Portugal e só serve o status quo que se intenta perpetuar deste o início do Plano de Assistência Financeira prolongando ad eternum o regime de protectorado (embora possam nominalmente mudar os ‘protectores’).

O cerne da questão que ‘justificará’ as actuais desavenças políticas (no 'arco do poder') é o brutal corte nas funções do Estado que arrancaram com o montante de 4.700 M€ e não sabemos onde vão terminar (ver quadro). A gravidade emerge de esta nova vertente da escalada do 'resgate' atinge de modo implacável as funções redistributivas e moderadoras que o Estado Social desempenha. Em termos alegóricos é o mesmo que amputar uma perna a um qualquer mortal e surgir na esquina próxima exigindo que o mesmo corra uma maratona e fique bem classificado.
Foi isso que este Governo pela calada negociou com a troika, numa dessas avaliações ‘regulares’ e apareceu manhosamente a falar aos portugueses como sendo a ‘refundação do memorando de entendimento'. Para acertar tal saída ignorou os partidos da Oposição, o mesmo é dizer, um grande número de portugueses e portuguesas. Este ‘compromisso’ acontece na altura do rei na barriga e dos velhos tempos da soberba neoliberal da dupla Vítor Gaspar/Passos Coelho. Desfeito (ou descredibilizado) o tandem, vítima do processo errático que abraçou e dos seus erros, tornou-se imperioso envolver o PS na comprometedora solução e pelo caminho argumentar com situações de excepção como vem sendo fastidioso, falamos do ‘estado de emergência’, do interesse comum e de patriotismo, etc... 

Na realidade a política deixou de contar e as bases ideológicas que, neste 'processo de ajustamento’, deveriam escorar as decisões económicas e financeiras são sistematicamente ocultadas à volta de imperiosas inevitabilidades de situações, repetidamente classificadas como ‘sem alternativas’. Todos os dias tropeçamos com 'factos consumados'. Um grande número de políticos portugueses, com especial acutilância para os que integram a tão celebrada maioria governamental, digladiam-se, no dia-a-dia, para aparecerem, aos olhos dos portugueses e da Europa, como uns lídimos intérpretes da ‘vontade’ dos credores, entretanto ‘transformados’ numa entidade de contornos nebulosos mas capaz de ditar ‘ordens’ nos bastidores. Os políticos transformaram-se em ventríloquos dos inomináveis credores.

Uma situação absolutamente armadilhada e impregnada de uma overdose de hipocrisia e dissimulação. De facto, os ‘nossos credores’ que num passado recente (início da 'crise da dívida') eram constituídos por instituições bancárias europeias, gestores de activos e fundos soberanos de diversos países. Actualmente (os credores) residem quase exclusivamente por cá. Já assim sucedia em 2011, quando os maiores credores da nossa dívida soberana eram a Caixa Geral de Depósitos, o BCP e o BPI link. Nestes 2 anos de ‘ajustamento’ o processo de transferência tem sido contínuo e acelerado. Hoje, a nossa dívida pública repousa em grande medida nos cofres dos bancos nacionais que, paulatinamente, a têm comprado, com o apoio e cumplicidade do BCE, nos ditos 'mercados'. De facto, se excluirmos o Banco Central Europeu, perante o qual a banca nacional está altamente endividada, dois dos elementos mais visíveis e ‘actuantes’ da troika (FMI e UE) representam somente 18% do total da dívida pública portuguesa link. Trata-se, portanto, de uma espécie de ‘golden share’.

Resumindo para abreviar caminho:
As difíceis, desgastantes e inglórias negociações que os partidos do ‘arco do poder’ estão a protagonizar encerram vários erros. A maioria deles políticos. Não vamos enumerá-los. Existe, contudo, um deles que está bem visível e é de fácil resolução. As negociações não estão a decorrer na sede própria. Para concertar de modo directo e frontal as respostas com os credores o diálogo deveria estar decorrer num 5º andar da Avenida da República (sede da Associação Portuguesa de Bancos). Deste modo dispensavam-se inoportunos e arrogantes ‘intermediários’. Os negociadores veriam a cara dos credores e ouviriam em primeira mão as exigências, os planos, as metas, os processos, os prazos, etc.
Ou se quisermos ir ao fundo da questão e estivermos dispostos a abandonar questões de nacionalismo atávico os encontros deveriam ter lugar em Frankfurt onde, na realidade, se entroncam todos os caminhos. Tudo o resto é secundário, i. e., uma manobra de diversão que só encarece o ‘resgate’ (possível). De facto, há muito que deixamos de falar no necessário. Do estritamente necessário. Existiu uma 'coligação' (de interesses?) que quis ir além. Neste momento está aquém. E por aí deve ficar.

A situação política e a excursão do PR às Ilhas Selvagens

Dizer que Cavaco Silva não tem o perfil para PR é um truísmo banal tautologicamente demonstrado. Apontar-lhe a débil formação democrática e as insuficiências culturais é uma reincidência gratuita. O que é importante, aliado ao que se conhece do seu passado e, sobretudo, ao que se desconhece, é analisar a situação política a que conduziu o País.

É surpreendente a excursão às Ilhas Selvagens enquanto a situação política apodrece e a solução não pode surgir do quadro que ele próprio complicou. Deixemos aos psicólogos a análise comportamental do timoneiro do naufrágio nacional que acelerou.

Na confusa e hermética comunicação ao País emudeceu os partidos da coligação que apadrinhou no segundo mandato, depois de um discurso de vitória, em que exonerou o sentido de Estado, para exprimir o ódio e ressentimento que nutria pelo líder do PS.

Face ao descalabro a que, com a sua cumplicidade, o Governo conduziu Portugal,  quis comprometer o PS na delirante proposta em que humilha Paulo Portas, após o pedido de demissão irrevogável, obrigando-o a voltar ao Governo, convicto de que seria primeiro-ministro de facto; humilha Passos Coelho ao ignorar a remodelação que lhe apresentou; humilha o Governo fingindo não ter lido o documento importantíssimo – a carta em que o ministro Gaspar se demite afirmando o fracasso da sua política e a falta de liderança do Governo –, documento que desfaz a coligação e dá o pretexto a Portas para a traição que preparara, enquanto encenou a caricata posse de uma nova ministra das Finanças. E humilha o País, com um Governo a prazo, sem capacidade para cumprir a legislatura, o que apressa a sua desintegração e o desacredita perante as instâncias internacionais.

Tudo o que o PR podia fazer mal, fez pior e da pior maneira, ilustrando a lei de Murphy.

Cavaco conseguiu sozinho pôr em causa a liderança do PS, PSD e CDS enquanto o PCP começa a pensar substituir Jerónimo de Sousa que não se conteve a exibir  a sua prótese eleitoral – Os Verdes –, como instrumento para a infeliz moção de censura ao Governo.

Num país com o Governo e a maioria desfeitos, sem um PR respeitado, só faltava a este, no seu estertor, instabilizar os partidos e abrir neles a sucessão para novos líderes. Seria excelente se as condições políticas, económicas e sociais fossem outras.

Que melhor altura para ir às Ilhas Selvagens interpretar a mensagem das cagarras?

Ponte Europa / Sorumbático

quarta-feira, julho 17, 2013

As negociações PS/PSD/CDS

Todos querem o acordo de Seguro com o PSD e o CDS

O PSD e o CDS precisam do acordo para se salvarem (desconheço se isso salva o País). Cavaco precisa do acordo para salvar a face na trapalhada em que nos meteu. O PCP e o BE precisam do acordo para poderem continuar a acusar o PS de se aliar à direita.

E, finalmente, o PS precisa do acordo para substituir Seguro.


A VIAGEM DO FARAÓ - Do Allgarve aos ilhéus de Fora

(do Allgarve, ilhas Selvagens, ilhotas Palheiros do Mar e da Terra e ilhéus de Fora)

Num velho país a norte de África habitava num palácio sem marquises, um faraó e a sua faraoa e, apesar de lhe faltar o apreço e o brilho dos seus antecessores, era o sexto faraó da 3.ª dinastia, iniciada com dois faraós provisórios, depois da Revolução contra faraós vitalícios.

Este faraó andava sempre com a sua faraoa e tinha grande admiração pelos sacerdotes e uma enorme devoção aos deuses, não faltando aos sacrifícios em sua honra. Quando o Grande Sacerdote do norte foi nomeado Grande Sacerdote do sul, por graça do Sumo Sacerdote Universal, assistiu ao ritual de consagração com os mais eminentes membros da classe do saiote branco, nomarcas e, um pouco atrás, os vizires.

Todos foram aclamados por membros do povo contratados antes da cerimónia litúrgica.

Talvez castigo de Hórus, os dois últimos anos, que um escriba coevo descreveu, foram de verdadeiras pragas. Esvaziaram-se os já debilitados celeiros, os homens ficaram sem trabalho e as dracmas sumiram-se em paraísos fiscais após várias tropelias de membros do saiote branco e nomarcas, alguns do círculo íntimo do faraó.

O velho país continuou a apelar a empréstimos de agiotas estrangeiros e a ficar cada vez mais empenhado, com o povo desesperado e com fome, quando o grande vizir cobrador de impostos se demitiu, escreveu em papiro público que não sabia administrar os bens e que os vizires seus colegas não se entendiam nem tinham quem pusesse mão neles. Foi então que, num outro papiro, um ambicioso vizir, encarregado de negócios com outros reinos, se despediu, enquanto o faraó transformava uma pequena vizir em nova grande vizir cobradora de impostos, perante o gáudio popular por tão insólita encenação.

O reino, por invejas e inépcia dos governadores, entrou em putrefação acelerada após a saída do Grande Cobrador de Impostos. O faraó, habituado ao silêncio e a sinais que só os sacerdotes adivinhavam, fez um discurso na língua nativa e ninguém o percebeu, mas não faltaram tradutores avençados a dizer que falou muito bem. O caos instalou-se.

No Palácio das Reuniões uma mulher da baixa nobreza, referida nos papiros da época por Heloísa Apolónia, ameaçou com uma moção de censura os vizires do faraó. Este, enxofrado com o despautério, para não a ouvir, decidiu viajar para ilhas remotas onde não fosse contestado e dormir na Selvagem Grande, certamente para ter no currículo a palavra «grande» enquanto o país se dividiu entre os que desejavam que lá ficasse e os que não queriam que regressasse.

Gizé, ano 74 d.c. (depois de cavaco)

O Escriba a) (assinatura indecifrável)

terça-feira, julho 16, 2013

O exílio (...selvagem!)


Após colocar o País em estado de alvoroço com o seu discurso de 10 de Julho o Presidente da República resolveu ‘excursionar soberania’ pelas Ilhas Selvagens link adoptando uma atitude política cujo desempenho na plataforma continental (ibérica) está suspensa.
Por cá ficam partidos do 'arco' em parco dialogar sobre um confuso projecto salvífico, um governo em estado vegetativo e a AR a discutir mais uma moção de censura. Ao que é de supor ficará incomunicável, isto é, fora do alcance da rede de comunicações regulares.
Não é a primeira vez que Cavaco Silva se exila quando 'lhe apertam os calos’. Será didáctico e premente citar (de cor) que há uns bons anos, quando exercia funções de primeiro-ministro e a agenda política o importunava, por exemplo, com a discussão de ‘Portugal e o Futuro’, sob a batuta do então presidente Mário Soares ou, então, estando já em laboriosa fermentação o tabu da sua primeira candidatura presidencial (falhada), fugiu para o Pulo do Lobo (viria a ter um blog de apoio com esta designação), baptizando essa excursão como uma viagem ao ‘Portugal profundo’. Também aí – pelo menos nesse tempo – passou o dia incomunicável.
Trata-se, podemos suspeitar, de efémeros mas relapsos 'exílios'. E, também supomos, que ‘selvagens’, dadas as condicionantes paisagísticas e ambientais onde se refugia …

Portugal a caminho do naufrágio

Quando um presidente, dito de todos os portugueses, decidiu convocar alguns partidos, para não assumir as responsabilidades que lhe cabiam, provou à saciedade, o respeito que lhe merecem os portugueses que votaram nos partidos que excluiu.

Não bastava um governo disfuncional e uma oposição em que três partidos parecem ter um estranho mimetismo com os do Governo. Não chegava a crise profunda que exige a rápida clarificação. Não foi suficiente a confissão de fracasso do ministro das Finanças.

Temos ainda um PR que, para esconder a incapacidade de decisão, recorre a manobras dilatórias, cria datas para dissolver a A.R. e ignorou a remodelação que lhe foi proposta, como se o Governo dependesse dele e não do Parlamento.

Vivemos um ciclo de esquizofrenia política, com os decisores a comportarem-se como a orquestra do Titanic.

CONVITE - CASA DA CULTURA, 17 DE JULHO, ÀS 18 HORAS

segunda-feira, julho 15, 2013

Homenagem ao meu amigo Zé dalmeida

74.º aniversário

A guerra colonial e os traumas dos filhos dos retornados

Seria indigno não compreender e ser solidário com as vítimas da descolonização, com as pessoas que perderam haveres, referências e até familiares, mas temos de reconhecer que Portugal foi generoso no acolhimento dos portugueses que as vicissitudes da vida devolveram à procedência em condições, por vezes, dramáticas.

Não julgamos os que lá se portaram de forma indigna com os povos cuja legitimidade à autodeterminação é indiscutível. Não negamos o direito ao acolhimento e à felicidade a quem da vida teve um quinhão amargo. Não podemos explicar tudo, a quem os traumas impedem uma visão do processo histórico, porque o ressentimento os impede.

Ainda hoje há quem pense que as colónias eram «nossas» (deles), como se algumas, em algum lado, tivessem sido subtraídas à legitimidade da autodeterminação.

Injusta, inútil e criminosa foi a decisão de prolongar durante 13 anos e uma larga dezena de milhar de jovens, mortos, e várias de estropiados, a guerra que a História condenou.

Quem, numa das três frentes, fez a guerra que a obstinação salazarista impôs, sabe que a saída teria de ser traumática, sem um exército que continuasse a obedecer às ordens da cadeia de comando entretanto desfeita.

Passados quase quarenta anos, não podemos permitir que os filhos dos que incendiaram as sedes dos partidos de esquerda, no verão quente de 1975, despertem para a vingança e ressentimento contra as instituições democráticas numa represália tardia de quem nada compreendeu da História.

A democracia foi uma conquista difícil que teremos de defender dos ímpetos totalitários e dos ódios transmitidos geneticamente pelos que abandonaram um país colonizado para refazerem a vida na generosidade de uma pátria que se abriu ao seu regresso e lhes deu a esperança de um novo recomeço.

Os devolvidos das ex-colónias, no atual Governo, em vias de extinção, são a amostra do que pode o ressentimento quando encontra cúmplices e habitat capazes de acordarem o ódio adormecido durante uma geração.

Árbitro à moda de Boliqueime

Com formação feita no Estado Novo e a carreira numa espécie de permanente azedume contra os partidos, Cavaco Silva foi o mais expedito exemplar do político antipolíticos. Bastou-lhe a rodagem de um carro novo, a cumplicidade dos jovens turcos do PSD e a omissão do seu passado, para chegar a líder partidário.

Depois foi o que se sabe e o que não se diz, a ocupação dos mais altos cargos do Estado e os negócios nos intervalos, os períodos em que se finge morto e as intermitências em que desembesta e mata, sempre com um olho em si próprio e outro no cigano, como soe dizer-se.

Depois de ter chumbado para árbitro num concurso com Jorge Sampaio, acabou por ser aprovado, por debilidade da concorrência, e reincidir no segundo mandato, com a mais exígua votação de sempre.

Foi aí que o homem revelou a grandeza da vingança com o raivoso discurso de vitória, a peixeirada com que promulgou o Estatuto dos Açores, o discurso do último 25 de Abril, a data que lhe altera o ph gástrico, até chegar à imprudência de deixar o País à deriva.

Incapaz de fazer o que devia, perante a morte prematura do seu Governo e o espetáculo público da desintegração pela via epistolar, entendeu o árbitro marcar um campeonato em que escolheu os clubes, convocou os jogadores e distribui-lhes os lugares, sem falar com o inepto a quem tinha dado posse, há dois anos, como capitão da equipe.

Insatisfeito com o lugar de treinador, o árbitro exigiu a um clube que ignorou, perseguiu e ostracizou, que servisse de massagista. Parece uma tarefa excessiva para quem não foi capaz de explicar um simples caso de escutas inventadas. Foi um pequeno passo na sua história de vida e uma grande caminhada para o abismo em que precipitou Portugal.

domingo, julho 14, 2013

A ratoeira…

Depois do discurso do Presidente da República do dia 10 de Julho link a situação política ficou ainda mais complexa, o ambiente social mais tenso e o País adiado.

Ao que tudo indicia começaram os contactos preliminares para uma negociação a três (CDS/PSD/PS), sob os ‘altos’ auspícios de Belém. Do que observamos no passado será muito difícil acertar agulhas para o período transitório indicado pelo Presidente da República que, segundo revelou, termina em Junho de 2014.

Um dia depois tivemos os primeiros indícios das ‘enormes’ dificuldades. No debate sob o ‘estado da Nação’ o primeiro-ministro apareceu a tentar apropriar-se da agenda política que foi proposta pelo Presidente da República há 3 dias. O entendimento que foi solicitado aos 3 partidos do chamado ‘arco da governação’ (uma concepção espúria) mas, de imediato, Passos Coelho aparece a tentar ‘capitalizar’ o protagonismo em nome do Governo. Não se sabe quando, ou se algum dia, existirá um acordo. Tal não impediu que o primeiro-ministro aparecesse no Parlamento a ‘convocar’ o PS para uma reunião conjunta entre o Governo e a troika já para a próxima semana link. Trata-se de mais uma imaturidade política ou então de uma rasteira. O Presidente da República não deverá permitir que tal aconteça. As negociações entre Portugal e a troika só podem (e devem) decorrer após a celebração em Portugal de um roteiro político que defina este período de transição. O que está longe de ser conseguido. A realizar-se a reunião sugerida por Passos Coelho poderia surgir a caricata, mas trágica, situação de a troika aparecer ‘conjugada’ ao Governo para frustrar qualquer tipo de renegociação do plano de assistência financeira. O que no futuro permitiria ao Governo aparecer a realçar – como o tem feito ao longo dos últimos 2 anos - que o memorando não é (re)negociável. E estes são os contornos de uma eventual armadilha que começa com a desenhar-se e passa por uma permanente confusão entre partidos, Governo e presidência da República.
Aliás, o facto de o primeiro-ministro ao aparecer no Parlamento a anunciar que deseja cumprir a totalidade da legislatura mostra em que medida fingiu não ouvir a declaração do PR ou que tudo fará para não largar o poder. Estamos portanto numa situação em que impera o ‘vale tudo’.

Existe, entretanto, uma parte do discurso do Presidente da República que tem sido menos valorizada. Quando se anuncia que “… um acordo desta natureza não se reveste de grande complexidade técnica e poderá ser alcançado com alguma celeridade, podendo recorrer-se a uma personalidade de reconhecido prestígio que promova e facilite o diálogolink… estamos a enveredar por soluções já experimentadas na Grécia e Itália com resultados conhecidos. Politicamente não resolveram nada (agravaram as saídas políticas), adiaram os problemas financeiros e não ‘tranquilizaram’ os mercados (um dos objectivos major da ‘solução’) . Acresce ainda que o anúncio de um “facilitismo técnico”, como julga Cavaco Silva, pode transformar-se numa ratoeira para a democracia na medida em que coloca a natural complexidade política de 'acordos de regime' como um banal, volúvel e simplista ‘exercício' de boa vontade ou de 'salvação'.
Esta premissa que não tem estado em cima da mesa pode relevar-se fatal para os que, de modo incauto, se disponibilizem para aceitar - sem condições políticas prévias - diálogos que se tornaram 'absurdos' (porque baseados em gravosos factos consumados) e ainda para os que, com ligeireza, '' não queiram ficar mal na fotografia.
Nada do que se está a passar em Portugal é simples e linear e muito menos deve ser encarado como se tratasse de algo de pequena monta. Todos sabemos que ‘há mais ratos do que ratoeiras’ mas, apesar disso, seria melhor (para o País) evitar estas últimas.