A actual crise política e ignóbeis momentos de traição...

O actual momento político está suspenso à volta de desesperadas negociações entre Passos Coelho e Paulo Portas – os ainda líderes dos partidos que integram a coligação governativa – com vista a 'salvarem a pele' (deles e dos agrupamentos partidários) link.

Desde 2ª. feira, com a demissão do Ministro das Finanças link, que o País começou a viver politicamente no ‘reino’ do absurdo se na verdade a situação não fosse mais profunda e gravíssima em termos de identidade (europeia e nacional). Aliás, já vivia antes neste estado só que a dissimulação, sabemo-lo agora, foi calculistamente tentada e posta em prática. Toda a retórica desenvolvida pela Direita à volta dos 'resgates', dos ‘ajustamentos’, das ‘refundações’ revela-se, neste momento, hipócrita, oca e vazia. Mais do que isso: uma vil traição.

A sequência de factos políticos que esta situação desencadeou não consegue iludir essa ignomínia e o clima de traição que o tempo se encarregou inexoravelmente de desmascarar. A surda revolta que lavra pelo País contra ‘os políticos’ só poderá conduzir ao descalabro e ao fim do actual regime. Pouco importa o que Portas e Passos Coelho estão a discutir neste momento. O que está na mesa não é a ‘second life’ da maioria governamental mas outra coisa mais vasta: a sobrevivência do regime (democrático e representativo).
Este povo que tem um trajecto histórico longo e rico não pode deixar de recordar, nesta aflição, um personagem histórico do passado: Miguel de Vasconcelos. Os ‘espúrios’ políticos da maioria aparecem aos olhos do povo com esta carga histórica e política relevando-se uns fantoches validos de Berlim (como Vasconcelos foi do Conde de Olivares, representante da dominação filipina). Os negociadores de hoje deveriam também pesar o triste destino de Miguel Vasconcelos: morto, defenestrado acabou lambido pelos cães nas pedras da calçada. Os que miseravelmente tentaram governar este País, em nome dos especuladores, enfeitando a situação com toadas culpabilizantes de um passado recente e de uma abjecta subserviência deveriam pôr a vista na imagem que reproduzimos e ilustra este comentário.  Mas a visão ignominiosa de um profundo divórcio do ‘interesse nacional’ – um conceito vasto mas neste momento apropriado – sobrepõe-se a todos os resultados que possam estar a ser ‘reconstruídos’ por Portas e Passos Coelho.
As discussões públicas de inúmeros comentadores, durante estas difíceis horas, não se afastaram de uma análise contabilística e oportunista que oscila entre a eminência de um 2º. ‘resgate’ e a dramática saída da zona Euro. Como se não existisse um País, um povo e uma entidade. Existe muita gente a bater-se por 'soluções negociadas’ e ‘saídas airosas’ em nome de ilusória estabilidade que a realidade assassinou. Só que não há ‘negócio’ que salve o País de uma selvática simonia que nos inunda – protagonizada pelos vendedores de favores e ilusões e dos traficantes de poderes – mas, na verdade, destruidores da nossa soberania. A traição - não conotada com a actual coligação mas com o País - não pode ser tolerada como fazendo parte de uma estratégia política. E o inadmissível é que parece estar a sê-lo. Muito em breve seremos vítimas desta aparente ‘tolerância democrática’.
São ‘anti-patrióticas’ todas as contabilidades, todas as manobras de bastidor que estão a ser feitas como são extremamente perigosos todos os falsos consensos que estão a ser tentados.

A democracia tem custos directos e indirectos. Neste momento – difícil mas determinante - a preservação do regime passa necessariamente pela consulta popular. Independentemente dos custos futuros que a partir dessa definição, cada vez mais clara para os portugueses, tenham de ser colectivamente assumidos. Parece-nos incrível que Belém não tenha esta percepção e se contente em ficar prisioneiro de noctívagas conversações em S. Bento. Trair é mais fácil do que defender o interesse nacional. Mais: sabemos que a continuidade do exercício do poder baseado nesta pérfida concepção é uma imperdoável aleivosia política porque é capaz de desagregar o País. Cavaco Silva sendo um homem de constantes avisos esqueceu-se de mandar publicar o fundamental aviso da dissolução da AR e da convocação de eleições submetendo os portugueses às rábulas políticas de uma coligação de Direita que tudo fará para fugir ao veredicto popular. Nas próximas horas será levada a Belém mais uma 'história da carochinha'. Os portugueses esperam que Cavaco tenha crescido o suficiente para acreditar no que deve e não no que deseja. 

O País ignora as reuniões de S. Bento mas tem os olhos voltados para Belém. Se daí não vier nada de concreto e decisivo tudo ficará entregue ao livre arbítrio e aos jogos de poder palacianos. Esta será [mais] uma ignóbil traição. Na verdade, sabemos que para uma traição se consume poderá ser necessário conjugar múltiplos colaboradores, cúmplices, serventuários, etc...

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