Dia Mundial de Luta contra a SIDA [2]

O Dia Mundial de Luta contra a SIDA é, em regra, a altura de fazer o balanço deste importante problema de Saúde Pública. Avaliam-se resultados, dissecam-se estratégias, nomeadamente, no que diz respeito à prevenção, faz-se a mise au point dos avanços terapêuticos e perspectivam-se – em todas estas vertentes - acções futuras.

Há, contudo, um fenómeno que - pelo menos nos países desenvolvidos em que os portadores de infecção HIV tem acesso fácil às inovações terapêuticas - veio perturbar o quadro nosológico desta sindrome.
Hoje, a SIDA tem outra conotação, quanto à evolução e prognóstico. Deixou de ser uma doença fatal para se transformar num quadro clínico de evolução crónica e o prognóstico – desde a introdução dos anti-retrovirais - passou de muito reservado a bom [se o diagnóstico for efectuado antes de existirem graves danos no sistema imunitário].

Esta a grande alteração de fundo que poderá condicionar todo a estratégia preventiva. Será, por assim dizer, uma nova porta aberta para o laxismo, despertando a tentação de baixar as guardas da prevenção.
Provavelmente, desde que asseguradas condições humanitárias de não segregação e de confidencialidade, a prevenção deverá, num futuro próximo, evoluir do estádio de sensibilização, informação e da intervenção sobre modelos comportamentais, para os rastreios, na população com comportamentos de risco ou, mesmo, universais [uma questão em aberto].
A favor desta paulatina evolução, consideremos que, em 2009, os portugueses terão realizado 1 milhão de testes de rastreio da infecção HIV. link

Mas sem dúvida que, no contexto desta sindroma, surgiu – recentemente - uma paradoxal mudança que “infectou” esta efeméride [Dia Mundial da Luta contra a SIDA].
As recentes declarações de Bento XVI a Peter Seewald no livro “Licht deWelt Der Papst, die Kirche und die Zeichen der Zeit“ [“Luz do Mundo - O Papa, a Igreja e os Sinais dos Tempos”] , um título que “pecará” por alguma imodéstia [está já disponível em Portugal], e confrontam o chefe da ICAR com múltiplas contradições [algumas seculares] inerentes ao cargo que Joseph Ratzinger actualmente ocupa.

Terá sido a 1ª. vez que um papa usou a palavra “preservativo”. Embora, esta inesperada abertura tivesse condicionado seu uso “a certos casos”, quebrou o “tabu vaticanista” que, diga-se em abono da verdade, esparsas figuras da hierarquia católica já o vinham fazendo há alguns anos.
O papa, finalmente, reconheceu – utilizando os meandros e as cautelas retóricas habituais do Vaticano - que o preservativo deveria ser utilizado “para reduzir os riscos de contaminação pelo vírus HIV/SIDA”. E, com alguma dificuldade, conseguiu ir mais além: deu o exemplo uma prostituta que, ao usar o preservativo para se proteger, estaria dando "o primeiro passo para uma moralização"
Bento XVI tentou, deste modo, reabilitar uma devastadora imagem que colou à Igreja Católica e que foi transmitida ao Mundo, em Março de 2009, em plena visita aos Camarões e a Angola, quando afirmou que, este método de prevenção, não era a resposta contra a SIDA e podia mesmo agravar o problema…
Finalmente, a ICAR parece ter tomado consciência da gravidade deste problema. Na verdade, será difícil – com os meios de comunicação social hoje disponíveis - viver enclausurado no Vaticano e ignorar que, cada dia, há mais 7000 novos[as] infectados[as] no Mundo.
Quando Bento XVI – como sucedeu no ano passado – peregrina pela África sub-sahariana não pode deixar de ter a consciência que, nesse espaço geográfico, vivem 22 milhões de pessoas infectadas pelo HIV. Isto é, pronunciar-se contra o uso do preservativo em África onde habitam 70% dos homens, mulheres e crianças infectadas pelo HIV, logo, onde existe uma situação, na prática, pandémica, para além de ser um fundamentalismo doutrinário é, em termos sociais, chocante – para não dizer escandaloso.
Esta posição de Bento XVI em África indignou o dito “Mundo Ocidental”, onde a ICAR pretende assentar os seus alicerces.
Bento XI sabe que nestas paragens [África sub-sahariana] só um reduzido número de pessoas têm acesso às terapêuticas retro-virais, pelo que a taxa de sobrevida de um infectado poderá ser inferior a 1 ano. Ao condenar o uso preservativo como arma preventiva contra a SIDA passa à situação de cúmplice de um silencioso genocídio [gerado por problemas de natureza económica e, portanto, de acesso aos cuidados médicos necessários].
Felizmente que, à revelia dos ditames dogmáticos do Vaticano, em África, muitas organizações de intervenção social ligadas à Igreja Católica, há muito tempo, colaboram com as autoridades sanitárias na prevenção da SIDA, distribuindo preservativos…

O preservativo é um elemento fulcral no combate à propagação da infecção do HIV. Todavia, a ICAR abriu uma janela que necessariamente a arrastará para outras tomadas de posição.
O combate à SIDA não se circunscreve à admissão complacente do uso de preservativo “em certos casos”. Bento XVI terá – mais cedo do que o conservadorismo pré-conciliar pensa – de ir mais longe e tomar posição sobre temas correlacionáveis com este problema. Isto é, sobre a contracepção e a saúde sexual e reprodutiva.

Será esta imperiosidade de mudança [mais do que uma "consciência"] que tem causado nos cristãos muitos engulhos e que, p. exº., levou a conferência episcopal espanhola, pela voz do bispo Martínez Camino, a rejeitar que o preservativo possa ser utilizado pelos católicos, “seja em que circunstância for”. link

Enfim, a SIDA poderá levar, no seio da ICAR, a mais um confronto entre a adaptação forçada [e forçosa] ditada por estratégias de sobrevivência e o ultra conservadorismo retrógrado agarrado a soluções dogmáticas, na essência, anti-sociais, ou mais grave, anti-humanas.

O Dia de Luta contra a SIDA é [será?], também, para a ICAR, à margem das mundanas questões epidemiológicas que nos devem preocupar a todos, a oportunidade para uma profunda [e já retardatária] reflexão...

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