A guerra colonial e o 10 de junho

Não merecia Camões a pungente cerimónia pública da nossa decadência. Não mereciam os portugueses que Cavaco ignorasse o drama do País e, esquecido das condecorações que ia despachar, perorasse sobre agricultura e pescas. Não mereciam os combatentes da guerra colonial, obrigados a lutar na guerra injusta, perversa e do lado errado, que a sua representação fosse confiada a uma profissional da caridade. Não merecia Portugal que o atual PR imitasse tão perfeitamente Américo Tomás nem que o PM fosse o pior que a Pátria teve desde Pina Manique. Não merecia o 25 de Abril que o 28 de maio revivesse a lúgubre encenação salazarista. Nem Elvas merecia quem recebeu com vaias embora à altura do que os visados mereceram.

Só os condecorados, em especial o historiador Rui Ramos e o sindicalista João Proença, não eram um erro de casting. Merecem o presidente que têm e a venera que receberam. O ex-ministro de Cavaco que foi a Elvas debitar a redação do dia e os desesperados que guardaram as velhas boinas, sonhando com o império impossível, para marcharam com passo trocado, como sempre fizeram ao longo da vida, também estiveram bem na louca liturgia que Sampaio quis transformar e que Cavaco reconduziu à tradição fascista.


O 10 de junho já era a data que dividia a esquerda e a direita mas, com os atuais atores, corre o risco de tornar-se a fronteira que separa fascistas e democratas.     

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