"O MELHOR POVO DO MUNDO"

Os portugueses, em geral, têm inúmeras virtudes. Muitos há, porém, que têm também grandes e nocivos defeitos. Custa-me dizê-lo, mas há verdades amargas e incómodas que têm de ser ditas. Sobretudo no momento atual, em que vivemos sob a pata de um governo que é exímio em explorar esses defeitos em seu proveito.

Refiro-me, por exemplo, ao conformismo, a uma certa curteza de vistas, e à inveja.

Muitos trabalhadores que ganham o salário mínimo, que o governo não deixa aumentar nem sequer para compensar a inflação, conformam-se com a sua situação, a ponto de considerarem que essa é a situação normal e que os que ganham um pouco mais são uns privilegiados. E têm inveja. Mas não têm inveja dos banqueiros que ganham obscenos milhões. Têm inveja do vizinho do lado que ganha 600 euros. E em vez de se revoltarem contra o governo que não deixa que o seu salário aumente, revoltam-se contra o vizinho e acham muito bem que o governo lhe carregue nos impostos.

Por sua vez, este que ganha 600 euros, rodeado de vizinhos que só ganham o salário mínimo ou estão desempregados, considera-se rico e irmana-se com os Espírito Santos e os Ulrichs, pensando – e votando - como eles.

Depois há o trabalhador por conta de outrem que vive essencialmente do seu salário, mas tem uma leirita de terra onde cultiva, com enorme trabalho, umas batatas que lhe saem quase tão caras como se as comprasse no supermercado. Mas é proprietário, torna-se acérrimo defensor da propriedade privada, pensando e votando como um latifundiário alentejano.

Numa coisa, porém, toda esta gente está de acordo: em vociferar contra os desempregados que recebem o seu magro subsídio e, acima de tudo, contra os que auferem o rendimento mínimo, considerando-os a causa de todos os males do País.

Só assim se compreende que a direita ganhe eleições e nas sondagens não desça tanto como seria de esperar tendo em conta as suas desastradas e desastrosas políticas.

Assim se compreende também que o Gaspar diga que “os portugueses são o melhor povo do mundo”.

É triste, mas é verdade.

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