Da Galiza a Hakkari, dos bispos espanhóis aos mullahs turcos

Da Galiza, situada na ponta noroeste da Europa, até Hakkari, a província do extremo da Turquia, no sudeste da Anatólia, o proselitismo religioso percorre a Europa e a Ásia na sanha demente contra a modernidade e os direitos humanos.

A Conferência Episcopal Espanhola (CEE) insiste no desmantelamento da legislação do PSOE sobre o direito de família. O casamento entre pessoas do mesmo sexo e o direito à adoção, a Interrupção Voluntária da Gravidez e o divórcio estão em risco de alterações profundas. Os avanços legislativos esbarram nas sotainas, com os báculos brandidos por bispos onde brilha mais a mitra que ostentam do que a cabeça que a suporta.

O franquismo regressa através dos infiltrados no PP com os aliados de sempre, bispos que não desistem de expor o anelão ao ósculo subserviente de devotos e reacionários.

Na Turquia, perante a indulgência dos países democráticos, o PM, Tayyip Erdoğan, vai corroendo a herança de Kemal Atatürk. O estado secular, sem religião oficial, com uma constituição que consagra a liberdade religiosa e de consciência, altera-se. A “república constitucional democrática, secular e unitária” está refém do PM e dos mullahs que o apoiam.

A Europa e os EUA, na defesa da democracia formal, estimularam a purga aos juízes e militares que cuidavam da laicidade imposta pela Constituição. Protegeram o PM, um devoto cuja mulher não larga o niqab com que esconde o focinho, e ignoraram a odiosa declaração de compreensão pelo assassinato de juízes que subscreveram o acórdão que legitimou a proibição do niqab nas universidades que sobrepunham a ciência e a cultura às orações e homilias. O PM turco disse que percebia a raiva das pessoas que viam limitada a expressão da sua religiosidade, não lhe merecendo a mínima solidariedade a jurisprudência e o martírio dos juízes do tribunal supremo, na defesa da laicidade.

A Europa está a descurar a laicidade em nome da caça ao voto pio e a esquerda deixa à extrema-direita, racista e xenófoba, o monopólio do combate ideológico, permitindo que a neutralidade do laicismo se transforme em proselitismo concorrente, como acontece já em França, num desvario islamofóbico de matriz católica.

Erdoğan começou por afastar os defensores da laicidade e facilita agora a reislamização  que conduz à sharia. Enquanto as pequenas leis limitam as carícias públicas trocadas por namorados e restringem a venda e o consumo de álcool, os talibãs fomentam a explosão do fascismo islâmico e a liquidação da herança de Atatürk.

Os europeus, imbecis, vão recitando o breviário do multiculturalismo e aconchegam-se às sotainas.

Comentários

Manuel Galvão disse…
Réplicas do sismo que foi a queda do muro de Berlim...

Os partidos "socialistas em liberdade" têm os dias contados. Já não fazem falta para atenuar as diferenças entre os direitos das classes trabalhadoras de Este e Oeste.
Com esta deriva islamista num país que era um exemplo de laicidade, parece-me que tem de ficar totalmente posta de parte a ideia de deixar entrar a Turquia na União Europeia (se bem que esta já não é o que era, nem muito menos o que queríamos que fosse...).
MHP:

Subscrevo o seu comentário assim como acho pertinente, e motivo de reflexão, o comentário de Manuel Galvão.
e-pá! disse…
Erdogan conseguiu - até aqui - levar a água ao seu moinho 'desmontando' (paulatinamente) o Estado laico fundado por Atatürk.
Desde depurações nas Forças Armadas a assassinatos de juízes tudo foi possível ou possibilitado. Desde o uso de véus nas Escolas e Universidade à insípida 'lei seca' tudo parecia correr bem até que a corrupção do betão e da construção civil o traiu.
É assim: os fanáticos 'tropeçam' onde menos se espera.
No meio do desastre encetou uma fuga para a frente e na terra da mesquita azul apareceu a prometer uma nova e gigantesca mesquita sobre o Bósforo...
O conflito entre liberalismo e islamismo mostrou-se insanável. Uma situação a seguir de perto...
sxzoeyjbrhg disse…
"There is now a menace which is called Twitter," Recep Tayyip Erdogan said. "The best examples of lies can be found there. To me, social media is the worst menace to society."

http://www.tntmagazine.com/news/world/turkish-prime-minister-recep-erdogan-blames-social-media-for-anti-government-protests

Ao contrário do que diz Erdogan, as redes sociais são a maior ameaça a governos autoritários como os desta besta de PM.

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