Texto de um amigo sobre Otelo

Hoje, dia 22 de Abril, tive a grata satisfação do meu herói aqui referido me ter telefonado, dizendo que tinha descoberto este texto na net e me queria agradecer pessoalmente as palavras a Ele dirigidas, pedindo-me apenas uma pequena correcção cronológica no texto. Eu que sou tão pequenino, eu que sou apenas uma centelha do pó das estrelas universal senti-me grande, porque um grande homem ligou a um pequeno texto e teve a necessidade de ligar ao seu desconhecido autor a agradecer-lhe. Sinto-me…Um misto de coisas…Afinal os heróis podem ter rosto humano e ligarem a nós, seres que a história nunca referirá a não ser se por um raro acaso portentoso fizermos parte dela.
Obrigado meu Herói, e se já te admirava, mais admirei ainda por um telefonema que teve todo o significado do mundo para mim
Miguel Gomes

EU E O OTELO

Na madrugada do dia 25 de Abril de 1974 alguns militares puseram em marcha uma Revolução que acabou pacificamente com perto de 50 anos de ditadura em Portugal. A maior parte destes militares eram idealistas de esquerda que queriam para a nação uma nova era de prosperidade e de paz, no rescaldo da guerra colonial que durou entre 1961-1974.
Com o tempo a ala menos esquerdista da politica acabou por, em eleições livres e democráticas, assumir um poder que nunca mais deixou, sendo que os governos desde então foram rotativamente assumidos pelo Partido Socialista (mas de orientação mais ao centro…) e o Partido Social Democrata (algo liberais mas situados no espectro direitista).
Apesar do sonho ter sido desfeito, os militares aceitaram o resultado das eleições, deixando o povo assumir o comando dos seus destinos e reclamando para si o lugar na história de terem estabelecido uma democracia e não de terem assumido e não largado mais as rédeas do poder.
Foi uma Revolução exemplar, praticamente sem derramamento de sangue, foi um exemplo para a Europa e o mundo de uma transição pacifica duma forma de poder autocrático para uma democracia plena que com o tempo se voltou para a União Europeia e se integrou exemplarmente no espírito dela.
Desde sempre que fui um admirador desta Revolução exemplar. Hoje, quando estava a fazer umas horas de voluntariado numa Associação que preserva a memória da Revolução num espólio cada vez mais rico de documentos e testemunhos quer escritos quer orais, cruzei-me pela segunda vez com o cérebro da revolução de Abril. Chama-se Otelo Saraiva de Carvalho que na madrugada do dia 25 de Abril de 1974 foi ele quem comandou e coordenou as operações e dirigiu as diferentes unidades militares que fizeram cair o poder fascista.
Homem controverso, envolveu-se na política mas nunca foi eleito para cargo nenhum, sendo no entanto um dos ícones da Revolução que eu admirei desde que me lembro de quem sou. Quando decorriam as eleições presidenciais de 1976 a que ele se candidatou, cruzei-me com ele no sul de Portugal onde ele andava a fazer campanha. Claro, eu tinha apenas 5 anos e sabia apenas que era uma espécie de um herói que vi bem perto de mim e ao qual sorri e acenei, incentivado pelos meus pais. Com o tempo aprendi e li o que foi a Revolução e a admiração inicial incutida pelos familiares passou a ser autêntica, genuína, fruto da leitura e do espírito que cultivei desde então.
Hoje, a televisão foi ao Centro, e avisaram-me que o Otelo lá estaria, sendo pois inevitável que o fosse conhecer pessoalmente, mas ele chegou demasiado cedo, estando eu na cozinha a beber um café e a fumar um cigarro quando ouvi a sua voz personalizada à entrada. Acalmei-me, acabei de fumar, pus-me direito e dirigi-me ao meu herói com vontade de o cumprimentar e, se pudesse, lhe dar algumas palavritas…Já sabia que ele era uma pessoa extremamente acessível, mas a sua disponibilidade espantou-me. Apresentei-me como admirador seu e como colaborador itinerante daquele Centro, pedindo-lhe que me esclarecesse algumas dúvidas e mitos da revolução que as minhas leituras e fontes não o tinham conseguido fazer, sendo que de imediato (e no meio de uma enorme azafama de jornalistas e técnicos a cruzarem-se connosco) ele me contou aspectos inéditos da Revolução e da personalidade de alguns dos intervenientes. Salvo erro a conversa durou apenas 15 minutos, mas fiquei orgulhoso por terem sido uns “15 minutos meus, com o meu herói”, homem polémico (mas qual é o herói que não o é…), mas bom, com um bom fundo como o vi quando o olhei bem olhos nos olhos, quando ele me tratou como um igual, sendo Ele uma pessoa que ficou na história, e eu, apenas um pedacinho da essência pó das estrelas que está a tentar ter o seu pequeno lugar no mundo…Segundo me diz a minha mãe, a seguir ao nascimento meu e do meu irmão, o 25 de Abril foi o dia mais feliz da sua vida, e por isso, pela democracia alcançada, pela liberdade em que vivemos, estarei eternamente grato àqueles militares e em especial àquele homem que personifica um espírito cada vez mais raro. No final, sai mais cedo do Centro para ir para casa ver a emissão em directo, perto dos meus a quem a Revolução diz tanto. Cumprimentei toda a gente como é meu hábito e fui ter com o Otelo, apertando-lhe a mão como se o fizesse a um amigo, a um igual, pois somos iguais no sonho de vermos o nosso Portugal prosperar e viver os dias tranquilos que felizmente vivemos, senti-me perto do meu Herói, e enquanto lhe apertava a mão e o olhava nos olhos, desejei vê-lo mais vezes e agradeci-lhe a maravilhosa madrugada de há 33 anos em que ele comandou um grupo de homens simples mas temerários que nos tiraram das trevas e nos levaram para a luz de vivermos em democracia e sem medo, sobretudo de expressarmos as nossas ideias e livre pensamento sem temer que nos prendessem. Nunca mais esquecerei este dia que até foi o dia de anos do meu querido irmão, porque, pela primeira vez na vida conheci pessoalmente um Herói, afinal tão humano como nós e com o qual identifico parte da minha personalidade, não tanto por politiquices mas pela forma simples e sonhadora de estarmos na vida e de tentarmos fazer dessa vida uma bela oportunidade de sermos felizes e realizados, de sermos autênticos, genuínos e não camuflados em receios de sermos criticados. Para mim o Otelo é assim, e é por isso que o sempre admirarei livre e não dogmaticamente, como se admiram os heróis que transformaram as nossas vidas e dos nossos descendentes para sempre.

Miguel Gomes

Comentários

Anónimo disse…
estamos a falar do Otelo bombista que teve preso e deixaram-no vir-se embora? Aquele que queria fuzilamentos no Campo Pequeno? Aquele que queria dividir Portugal pelo ''paralelo de Rio Maior''?
Por amor de Deus, era o que mais faltava agora fazer.se a exaltação do terrorismo. Ao ponto que isto chegou
Anónimo disse…
André Pereira, poupe-nos à duplicação de posts que faz aqui e no seu blog pessoal. Sei que é uma forma de autopromoção, mas ha limites. Como leitor do ponte europa fico extremamente desiludido com esta tremenda falta de qualidade.
Anónimo disse…
Quando a geração de Abril se afastar finalmente , o pais poderá livremente avnçar, sem complexos nem histerias.
cm
e-pá! disse…
Avançar para onde?
Agora, já não é Otelo, é toda a geração de Abril.
Não há pachorra para tanto dislate...
Anónimo disse…
Sim, a geração do medo!
A geração com medo da mudança. Os que constatemente evocam Otelo, Salgueiro Maia, Vasco Gonçalvez, enre outros. o Prec foi uma epoca aurea para esta geração, entre greves e passagens administrativas pouco havia para fazer.
Entretanto a Europa evoluio, sem preconceitos do passado nem medo do futuro. Portugal evoluio muito mal economicamente e estagnou politica e socialmente.
é essa geração que eu quero que se retire para dar lugar aqueles que não tem medos nem complexos. Ou então que tenha a sensatez de enterrar o passado feito de PRECS e herois corruptos ou bombistas.
ChicoMartins
Anónimo disse…
Otelo, ó Esperança? Haja bergonha
e-pá! disse…
CM:

"Ou então que tenha a sensatez de enterrar o passado feito de PRECS e herois corruptos ou bombistas."

Finalmente percebi. Avançar é enterrar.
Excelente programa, ou, "pogrom"?
Anónimo disse…
Se não fosse o Otelo, Salgueiro Maia e outros homens de Abril, o pessoal não mandava umas "bocas" aqui, nem em parte nenhuma...

Lembram-se como era, em 24 de Abril ?
Tudo de bico calado, a PIDE andava sempre por perto.

Há muita memória curta no meu país.
jagudi disse…
O Chico Martins, cujos disparates é penoso comentar, é um cabeça rapada. Por fora e por dentro. É um fascista vulgar e alienado, persistente e pateta, que envergonha a irmandade dos nazis, porque nem essa condição assume.
Está à espera de que a 'geração de Abril' se afaste finalmente, para fazer o país avançar.
Falará ele dos militares que têm hoje 60 anos, e que há 25 estão remetidos ao silêncio?
Falará dos políticos civis que há 30 anos nos governam? Das dezenas de ministros do CDS, das centenas do PPD, ou do PS?
Falará de tantos deputados que há muito fazem questão de manifestar desprezo pelos cravos vermelhos de Abril?
Esses não evocam Salgueiro Maia, nem o Vasco, nem o Otelo! Mas são, pelos vistos, 'a geração do medo',que com os seus governos impediu que Portugal progredisse.
Se ele espera que se retire a 'geração' que nos tem governado, (que são várias do CDS, do PPD e do PS), o palerma só pode ser nazi, já que 'perigoso esquerdista' não parece ser.
E vem aqui bolsar idiotices, porque a tanto se lhe resume o pensamento.
Anónimo disse…
Jagudi,
Mais uma vez os seus comentários são reveladores do medo a que me referia. Basta eu escrever que desde 1974 ninguem governou sem complexos do fascismo e sem a gabarolice da luta anti-fascista, para vir alguem atiçado a chamar.me fascista ou Nazi.
Tal e qual como no trotskista periodo do PREC.
Jagudi, acorde da catalepsia em que está e repare que o PREC já passou. Não ha que ter medo. Vamos olhar para o futuro e enfrenta-lo com pragmatismo. Sem esses complexos ideologicos.
ChicoMartins
Anónimo disse…
Otelo Comunista, Fuzileiro e Bombista,
Eras do Copcon, agora és materialita.

Otelo saraiva puseste bombas em Portugal,
Com isso foste rapidamente promovido de brigadeiro a general..

Otelo saraiva condidataste.te e perdeste.
Não foi uma foram duas as vezes que te fodeste.

Foste dentro por seres terrorista.
Merecias ter lá ficado mais tempo ó separatista.

Querias dividir o pais entre norte e sul
Devias-te estar a imaginar em Cabul...

Foi arquivado o caso FP, tásse mesmo a ver porque.....
e-pá! disse…
CM:

Qualquer ente saudável prefere um governo, mesmo que tolhido por "complexos", do que aquele que vai na sua cabeça, isto é, de bastão na mão!
Aí, além, de não termos desenvolvimento, arcamos com porrada e engolimos o medo.
Cantar desafinadas loas aos tempos da "velha senhora", ou tentar cloná-los para o futuro, não!
A ditadura entrou em caquexia, caíu da cadeira e morreu, sem deixar descendência.
Feneceu, e sobre os seus escombros, nasce o 25 de Abril. Seja realista, não adopte posições negacionistas da história. Convença-se que o 25 de Abril aconteceu mesmo ou ainda acaba como o Ahmadinejad em relação ao holocaustro.

CM,
perca o "medo" de ter ideias, de defender uma ideologia. É que o Mundo move-se por aí.
Não passe é a vida a esconder-se e a iludir as ideias. Assuma o que é antes de apontar o que os outros não são ou, porventura, podem ser.
O pragmatismo não é mais do que a nudez de ideias.
E um deserto de ideias leva à histeria...
jagudi disse…
Chico Martins
Vamos lá deixar de fugir com o rabo à seringa!
'O PREC já passou', e ainda bem. Melhor teria sido não haver PREC nenhum, e a evolução do país ter-se verificado mais cedo e sem agitações. Como em Espanha, por exemplo.
Os seus amigos fascistas é que o não permitiram. Porque o Portugal dos seus amigos fascistas era aquele triste país, em que dois terços dos portugueses não tinham quaisquer direitos de cidadania, para que o terço restante pudesse viver à tripa forra. É preciso apresentar exemplos disso?
Nesse sentido, abençoado 25 de Abril, abençoado Maia e quantos nos resgataram.
Desde então viveu-se em liberdade, os portugueses votaram, escolheram, elegeram o que acharam melhor. E os resultados são aquilo que o seu país conseguiu produzir.
Não são satisfatórios?! Nem admira, com o passado que trazem às costas.
Agora V. quer mudar de geração, para dar lugar àqueles que não têm medo da mudança, nem complexos de fascismo, nem gabarolices de luta antifascista. Que geração é essa sua, que fará renascer o país sem hesitações? É alguma trupe de vanguardistas ultra-liberais? Vai privatizar a PSP? Vai vender os porta-aviões dos Açores para pôr as contas em ordem? Vai privatizar os serviços médicos e de justiça?
Ou é uma nova cambada de fascistas como os da última ninhada, que fizeram deste país um pária triste, entre os povos civilizados a que deveria pertencer?
Vão acabar com as eleições? Vão pôr outra vez dois terços a pão e água? Vão expulsar os emigrantes? Vão abandonar a Europa, e voltam a evangelizar cafres? Vão tornar os serviços de saúde um exclusivo dos ricos? Vão meter na cadeia as putas das mulheres que fazem abortos no vão de escada? Vão reduzir o ensino à 3ª classe? Vão reconstruir os bairros de barracas? Vão obrigar os funcionários a jurar que nunca foram comunistas, nem inimigos da Pátria. Vão retirar o voto às mulheres? Vão proibir as enfermeiras de casar? Vão berrar outra vez que Angola é nossa? Vão repetir-nos que o ponto mais alto da nossa risonha Pátria é o pico do Ramelau, na parte leste da ilha de Timor?
Se é isso, diga-o duma vez, que toda a gente o percebe, embora seja ridículo. Porque essa fórmula já foi ensaiada, e deu os resultados que se viram.
E o Salgueiro Maia já não voltará, coitado. Porém, é melhor não fiar demasiado.
Anónimo disse…
Homens que procuraram a justiça e foram heróis da mais linda revolução de todos os tempos.
Homens que não condenaram os fascistas salazarentos, e se aperceberam mais tarde que continuava a injustiça, porque muitos continuaram o seu dia-a-dia imbecil e incompetente.
Um dos heróis de Abril, o Maia foi-se embora. O Otelo tentou ajustar o que considerou os defeitos de Abril. Mas foi tarde de mais.
Amanhã, é um grande Aniversário dum pequeno País, que poderia ser grande, não fossem os pequenos políticos e juízes, servis como lacaios, para com os poderosos, como o eram antes de Abril, e que é necessário corromper se um pobre necessita de algum serviço.
Mentalidades adquiridas nos tempos cinzentos, que não desaparecem com a instauração da democracia.
São muitos dos que falam de mérito, de competência, porque tiveram sorte, se fossem julgados pelas capacidades de que falam, muito pobres seriam.
Mas são e serão tão pobres da única riqueza que vale a pena tentando arrasar a imagem de Portugal com o seu espírito avassalador.
Finalmente, amanhã é um grande Aniversario, porque foram Grandes os homens, nesse dia, com as suas Esperanças, com os seus desejos e com a sua tolerância, inesquecíveis de exemplaridade.
Com a sua pequenez de Zé-povinho, muitos não respeitam o País, ao falarem como o fazem dos heróis que lhe deram finalmente o único poder de libertarem azias sem censura.
Um grande País é composto por grandes homens, grandes momentos, não por pessoas sem memória, sem reflexão, individualistas e sem respeito.
Se essas bestas fossem capazes de compreender os fundamentais dum Otelo, dum Maia, observariam um respeitoso silêncio, perante um dos momentos históricos, que fazem a grandeza de Portugal.
To Soares disse…
Realmente anda tudo louco...um assassino passa a heroi...o que havemos de fazer??? Rir mas rir ás gargalhadas!!!
Anónimo disse…
e que dizer do outro que foi "eleito" , quanta tortura,quantos tarrafais?
Anónimo disse…
Jaguadi,

''Que geração é essa sua, que fará renascer o país sem hesitações? É alguma trupe de vanguardistas ultra-liberais? Vai privatizar a PSP? Vai vender os porta-aviões dos Açores para pôr as contas em ordem? Vai privatizar os serviços médicos e de justiça?''

Sim a quase tudo. Estado só com um papel regulador (autoridades de concorrencia, etc), de defesa e ordem , justiça e nada mais.
è para isso que ele serve e é a unica coisa que sabe fazer bem. Todo o resto os privados têm competencias para o fazer de forma a que toda a gente ganhe.

ChicoMartins
Camisa Azul disse…
Ao contrário do bombista Otelo o major Salgueiro Maia, morreu desiludido com a fantochada que se montou. Se o PREC foi mau o, período que se lhe segui não foi pior.
Agora com o governo do SR. Sócrates até as poucas coisas boas estão ser deitadas abaixo.
Eu vejo é o povo na miséria e o grande capital a encher a barriga, a esquerda é a guarda avançada do sistema, reúne os descontentes e fá-los crer que estão a lutar por algo, mas sem nunca por em causa o sistema.É esse o papel que lhe reserva o capital.
Anónimo disse…
Exaltar-se um terrorista de nome Otelo. Que devia estar era engavetado. O indivíduo que assina o post sabe o que foram as FP-25?
De facto dá ideia que neste blog há cada vez mais recalcamentos e menos ideias válidas...

Luís
Anónimo disse…
Chico Martins não sabe o que diz... não tem nem 1/5 da coragem que Salgueiro Maia e todos os outros capitães de abril tiveram no dia de hoje! Por isso, não coloque na mesma frase medo com Salgueiro Maia e capitães de Abril!

Como portuguesa, orgulhosa daqueles que estavam dispostos a dar a vida no 25 de Abril pela minha liberdade de hoje, não lhe consigo admitir que diga tanto disparate! A única coisa que me deixa feliz, é ter a noção de que faz parte de uma minoria, muito, muito pequena...!

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