Conferência "anti-G20": um trágico falhanço…

Realizou-se, nos passados dias 24 a 26 de Junho, em Nova York, no âmbito da ONU, a “Conferência das Nações Unidas sobre a Crise Económica e Financeira e os seus efeitos sobre o Desenvolvimento”.

A contribuição de todos os governos mundiais foi considerada essencial para “encontrar respostas urgentes, contundentes e coerentes com a gravidade da crise sistémica global que a Humanidade está a enfrentar”.
A convocatória denuncia que as respostas até agora equacionadas através do G7 ou do G20 e das Instituições Financeiras privadas, públicas e/ou multilaterais, preocupam-se em “salvar o sistema”, nas costas dos povos e dos Países que, desde o início da recessão económico-financeira, vêm pagando, exponencialmente, os indetermináveis (infindáveis) custos da crise.

Para conseguir soluções globais é indispensável unir forças que nasçam de uma participação global. É preciso instituir o respeito pela audição da voz de todos os membros e conferir-lhe uma equidade participativa, melhor, comparticipativa.

Daí, advêm a importância desta Conferência, neste preciso momento, para a comunidade internacional. Nem se pede muito...
Exige-se que a ONU ocupe o seu lugar, não se demita dos seus grandes desígnios, promovendo consensos que respondam à salvaguarda dos direitos humanos e ambientais.
Por último reitera-se o pedido de incluir – para além dos Governos - os movimentos e organizações sociais neste tipo de espaços: para além da gravidade económica existe nos bastidores uma gravíssima crise civilizacional.
As Organizações e os Países responsáveis pela convocatória da Conferência exigem que a resolução da crise não passe pela incidência de maiores sacrificios das nações mais pobres, porque estas não foram as responsáveis pela situação actual, mas as principais vítimas:
“Os governos, as instituições financeiras internacionais e os interesses privados responsáveis pela crise deveriam oferecer uma compensação adequada pelos prejuízos causados, incluindo a reparação de danos e o resgate do passivo acumulado(ecológico, histórico, social e económico) que o Norte coleccionou ao longo de gerações e é devedor aos povos do Sul”.
A ONU deve iniciar um porfiado trabalho até conseguir o desenvolvimento de uma plataforma ou um código comum de financiamento soberano, democrático e responsável que inclua não somente os Estados membros, mas também organizações da sociedade civil.

A proposta de declaração final da Conferência sintetiza uma consenso mundial sobre a crise, em termos de uma inusitada abertura e cujo realismo e a noção da responsabilidade, é impressionante.
Fala de um ”funcionamento inadequado da economia global", caracterizado por fragilidades sistémicas e desequilíbrios, da ” excessiva confiança na capacidade de auto-regulação dos mercados", de uma ”insuficiente ênfase num desenvolvimento humano equitativo” e no “comportamento irresponsável dos agentes económicos”.

Mais, solicitou-se à ONU que obtenha a flexibilidade suficiente para impor medidas contra cíclicas na resposta à crise e, portanto, exorta-se ao FMI que elimine os seus condicionalismos. Nunca se tinha ousado sugerir - a partir da Assembleia das Nações Unidas - instruções tão detalhadas ao FMI e ao Banco Mundial, incluindo que se elimine a nefasta tradição de ser um europeu a presidir ao primeiro organismo e um norte-americano ao segundo. Propõe-se um sistema “transparente e baseado no mérito” na eleição dos executivos destas instituições, sem exclusão de regiões, nem de género.

Apesar da importância da Conferência, grande número de representantes dos 192 países representados na ONU, não compareceram.
Os mais interessados foram os Países da América Central e do Sul.
São regiões onde crescem economias emergentes que têm uma imperiosa necessidade em defender-se da voracidade do "neo-liberalismo".
E estão fartos e cansados de dar para este peditório...

O G 7, o G7+1, ou o G20, a Wall Street, etc., continuarão a dominar o Mundo… enquanto os Países pobres não tiverem voz, nem forem capazes de impor mudanças.

Mas a impaciência cresce, transborda já que os povos consideram a actual depressão económico-financeira, uma "crise civilizacional". Como sabemos as crises civilizacionais são derrocadas do “status quo” que ocorrem pela decadência, esgotamento de alternativas ou pela força.

Dificilmente o diálogo civilizacional resolveu as profundas crises históricas, culturais, religiosas, sociais ou económicas. Os seus instrumentos de trabalho não abragem tão pesadas heranças. O diálogo civilizacional é, quase sempre, a porta de entrada para se compreender os problemas e procurar consensos. Uma ferramenta para promover a pacificação social.

Roma, i.e., o Império Romano, foi um excepcional exemplo como estas crises que dizem respeito ao imperialismo e a conceitos hegemónicos.
A hegemonia económica e financeira do Mundo ou grandes áreas do Planeta, está na fase de “contar espingardas”, já que ao lado das tradicionais potências financeiras, surgem, em polos diferentes do Mundo - China, Índia, Brasil,... -, as economias emergentes que não aceitam as actuais regras, nem reconhecem os actuais "Impérios".
As profundas mudanças são fruto, de incontroláveis sobressaltos históricos e não passam pelos areópagos internacionais. “Estouram” na rua!
Na "Conferência das Nações Unidas sobre a Crise Económica e Financeira e os seus efeitos sobre o Desenvolvimento" não houve qualquer abertura para obter, ou trabalhar no futuro, com vista a “construir” um consenso que estude e aborde, com honestidade, os intoleráveis, e cada vez mais profundos, desequilíbrios entre Nações pobres e ricas.

O que, para o Mundo, é um mau sinal!

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