O "pudor" institucional e o "vazio" ideológico...


Bernard Madoff foi condenado!

Ao ter conhecimento da pesada sentença teve a consciencia de não poder deixar de afirmar:
“Deixo um legado de vergonha”…
Este tardio "arrependimento", vindo do miolo do mundo financeiro, não resolve os problemas dos espoliados pela sua nefasta acção, mas é uma contrição ética.
É um caso que transitou em julgado e pouco há para recordar.

Mas, deverá servir de exemplo, de paradigma, para fundamentar as futuras mudanças do modus operandi das instituições financeiras, em todo o Mundo.
Na verdade, a noção que perpassa é que tudo continua na mesma. Estamos, passe a comparação, à espera que a tempestade passe…

Vem isto a propósito da polémica sobre eventuais declarações de Cavaco e Silva sobre o processo BCP e da credibilização do sistema bancário português.
As declarações atribuídas ao PR sustentavam que a acusação do MP a antigos administradores do BCP vota a “trazer ao de cima” as questões de “transparência e ética” que motivaram a actual crise. Acrescentou: “ estes dois princípios foram violados”.

A coincidência temporal das declarações de Cavaco com a acusação do MP a ex-administradores do BCP não me parecem relevantes.

O que acharia apropriado teria sido que o PR, de modo intemporal e sem objecto especificado rejeitasse as políticas neoliberais de desregulação do dito “mercado livre”. Que o PR, independentemente, do BCP, do BNP ou do BPP tivesse renegado as doutrinas de Milton Friedman.

Os casos concretos ou eventuais lapsos institucionais não sobressaiem no seu percurso político.
Mas uma declaração doutrinária do PR, sobre as causas genéricas desta crise, isso sim, seria, “ruidoso” na condução dessa política.
Condenações de maus procedimentos éticos, feitas de modo avulso e esporádico, não definem um pensamento.
E os portugueses, nesta difícil tarefa de suportar e tentar ultrapassar a crise, precisavam de compreender o pensamento e o posicionamento do PR.
Na desgraça a neutralidade é intolerável. Aqueles que assistem ao largo a uma violenta peleja, acabam muitas vezes envolvidos nela. E aleijam-se!
E, em que medida estaria disponível para se empenhar numa profícua “cooperação estratégica” para mudar as regras e os procedimentos do mundo financeiro nacional (pelo menos).

O que o PR disse na peugada do caso BPN, impressionou Marcelo Rebelo de Sousa.
Mas o que tem evitado dizer sobre a política monetária e financeira – nomeadamente sobre os offshores, os paraísos fiscais e os mecanismos de regulação e fiscalização das bolsas - é uma inquietante lacuna. Um silêncio ensurdecedor!

Perde, não pelo que disse, mas pelo que - até agora de modo explicito - não tem dito.

Comentários

E-Pá:

Obrigado pelos dois últimos posts.

Excelentes. Na mouche e na ferida de uma direita sem memória e sem vergonha.

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