AAP - A ICAR e os Ateus


Resposta da Associação Ateísta Portuguesa (AAP) às diatribes do virtuoso bispo emérito de Coimbra, João Alves

A ICAR e os Ateus *

Na sequência do artigo publicado no Diário de Coimbra (DC), em 14 de Junho, pelo Bispo Emérito D. João Alves, sob o título « A Igreja Católica e os Ateus: do desgosto à solicitude», vem a Associação Ateísta Portuguesa (AAP), pelas referências de que foi alvo, esclarecer o seguinte:
1 - Em Junho de 2008, sob o título «Elementos para o diálogo entre cristãos e ateus» o Sr. Bispo, a pro-pósito da criação da AAP, referiu-se no DC ao problema do ateísmo convicto de ser a sua Igreja a solução.

2 – A AAP sugeriu-lhe, em resposta, que não partisse do pressuposto de que o ateísmo é um problema nem que a religião do Sr. Bispo é a solução. Sugerimos-lhe, então, dialogar em campo neutro, aceitando que todos podemos errar em matérias de facto, admitindo o direito de cada um aos seus juízos de valor e avaliando cada posição à luz dos seus méritos e não pelo que especulamos acerca do Além, mas o repto ficou sem resposta durante um ano.

3 – No artigo ora referido «A Igreja católica e os Ateus: do desgosto à solicitude», o virtuoso bispo reincide no ataque aos ateus, dissimulado pela piedade, capaz de derreter o coração dos devotos. Ser-viu-lhe de pretexto o almoço de confraternização realizado em Coimbra, na sede da diocese de que foi longos anos titular, almoço com que um grupo de ateus quis celebrar o primeiro aniversário da criação da Associação Ateísta Portuguesa (AAP).

4 – A alegada simpatia «para com as pessoas com dificuldades em acreditarem em Deus ou que se dizem ateus» é desmentida pela compreensão de D. João Alves pelo ayatollah Khomeini e pela fatwa contra Salman Rushdie que o condenava à morte por delito de opinião (( V/ Diário de Coimbra de 18 de Março de 2001, pág. 5). A resposta à insólita solidariedade, medieval e intolerável, mereceu nas páginas honradas do Diário de Coimbra a repulsa do signatário deste texto, há oito anos.

5 – Para apreciar a piedade que a Igreja católica dedica aos ateus não é preciso recordar a Inquisição, basta evocar a peregrinação a Fátima de 13 de Maio de 2008, «contra o ateísmo», não a favor da fé.

6 – A AAP não duvida do desgosto que o ateísmo provoca no bispo emérito de Coimbra mas tem fun-dadas dúvidas, quanto à solicitude, sabendo que os ateus foram e continuam excomungados por uma embirração papal que não é preocupante em países democráticos.

7 – O Sr. Bispo continua, como há um ano, a fazer longas citações da encíclica “Gaudium et Spes” , convicto de que a encíclica de Paulo VI é uma fonte de prova inquestionável e aconselha a AAP a «aprofundar o estudo e reflexão do problema de Deus” que é o objectivo da teologia, a única ciência sem método nem objecto e um exclusivo dos crentes.

8 – O resumo do texto conciliar feito por D. João Alves para uso da Associação Ateísta Portuguesa onde, desta vez, teve o pudor de omitir que «…o ateísmo deve ser contado entre os fenómenos mais graves do nosso tempo…», corre o risco de ser tão útil para os ateus quanto o resumo do livro «A Desilusão de Deus», de Richard Dawkins, feito pela AAP para uso da Conferência Episcopal.

9 – Concordamos com Sr. Bispo quando afirma que a «Igreja Católica está firme e continua a ter influência razoável na sociedade portuguesa», excessiva a nosso ver, com mais de dois milhões de cristãos que todos os fins-de-semana vão à missa, ou seja, invoca a fidelidade de 20% dos portugueses para legitimar os privilégios de que goza a sua Igreja e as exigências em que reincide.

10 – Finalmente, a AAP regista a afirmação com que termina o seu artigo e que «…mostra com clareza que a Igreja respeita e compreende os sem fé em Deus e sem religião, desde que seriamente estudem estes problemas em busca da verdade». Caso contrário, imaginamos a solicitude com que trataria os ateus se a fé fosse obrigatória.

Apresentamos a V. Ex.ª, Senhor Director, as nossas cordiais saudações.
Associação Ateísta Portuguesa – Odivelas, 18 de Junho de 2009

* Diário de Coimbra, hoje

Comentários

Mano 69 disse…
Estou ansioso pelos comentários do Sr. Carrancho e associados.
Julio Carrancho disse…
“Em busca da verdade”, ora essa! Se o próprio Jesus MENTIU a Pilatos quando este lhe perguntou em forma de exclamação retórica “O que é a verdade!”, e virando costas ao cristo deixou a sala de julgamento! É que quando perguntou a Jesus se ele era o rei dos judeus, Jesus pronunciou DUAS mentiras que ficariam por séculos revistadas nos evangelhos. A primeira, afirmou que o reino dele não era deste mundo. Se o reino dele não era deste mundo, por que diabo veio cá pregá-lo?!!... Andou três anos lá pela Palestina insinuando que estava perto a chegada do dito reino de Deus, mas dois mil anos depois ainda não chegou! A segunda, disse ao governador que ele [Jesus] era uma testemunha da verdade, quando antes teria afirmado aos discípulos “Eu sou a verdade”! Ali seria apenas uma testemunha da dita!
Duas mentiras pelo preço de uma como nas feiras.
Agora, se o dito bispo de Coimbra pensa que sabe mais da Bíblia do que qualquer outro estudante, é pela presunção de ter poder político em um país dominado pela superstição de Roma!!
e-pá! disse…
A alegada simpatia ... «para com as pessoas com dificuldades em acreditarem em Deus ou que se dizem ateus».

O modelo de construção da argumentação do Sr. Bispo João Alves é petensamente astucioso.
Usa o estratagema de não reconhecer implicitamente a materialidade da existencia de pessoas (homens e mulheres) que não integrem a comunidade religiosa.
Não consegue reconhecer os agnósticos marcando-os com o ferrete de os considerarem pessoas com dificuldades de gerir convicções e as suas antiteses.

Quanto aos ateus, retira-lhes praticamente a sua condição humana, colocando-os entre as formas dissolutas profeiformes de, aqui e além, podem ter contornos dos humanóides.

É nesses estados de devassidão cognitiva que essas mentes libertinas tomam a liberdade de se afirmarem o imponderável (para o Sr. Bispo) e "que se dizem ateus".

A alegada simpatia do emérito prelado, julgo que já afastado do seu múnus quotidiano, não passa de uma forma de aversão do tipo fóbico e, a perda de respeito pela liberdade de qualquer humano crer, ou não, em deuses, não passa de um preconceito idiossincrático daquele que foi, em Coimbra, um duradouro, mas transitório, prelado.

Saiba V, Reverência que, entre os muitos não crentes, existem ateus.
E não "que se dizem ateus".

Insigne emérito (na ICAR não existem aposentados):
A par do seu Mundo existe um outro, o laico.
E, a repulsa por uma concepção universalista do Homem, pela parte de vossa reverência, mostra, um crente, rodeado de dificuldades, em aceitar a descrença no que é leigo, secular e profano...
Que não gosta, nem serve os seus desígnios, mas existe!

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