DINOSSAUROS SALAZARISTAS

DINOSSAUROS SALAZARISTAS



1 – ADRIANO MOREIRA



Ao pegar hoje, à hora de jantar, no Diário de Coimbra, logo fui atraído por uma chamada na 1ª página com os seguintes dizeres: “Adriano Moreira deu lição de ciência política – Casino Figueira – p. 13”.

Apesar de achar um casino um lugar pouco apropriado para lições de ciência política, logo me precipitei sobre a p. 13, ávido de beber a ciência do professor.

O título, em grandes parangonas, causou-me uma certa desilusão: “África e o Mar podem ajudar a desenvolver Portugal”. Não é que não seja verdade, mas não era preciso ir ao casino da Figueira, com tanta pompa e circunstância, para a ouvir: qualquer político a diz, e creio que até M. de La Palisse seria capaz de o dizer.

Bom, mas vamos à notícia. Tratava-se uma “tertúlia” moderada por Fátima Campos Ferreira intitulada “125 minutos com...”. Segundo o/a jornalista, a lição não foi apenas de ciência política, mas também de “portuguesismo”. Nela, Adriano Moreira reconheceu que “o poder não pode estar todo nas mãos de um homem”. Aí rejubilei: pensei que o orador ia finalmente fazer o seu mea culpa por ter sido colaborador próximo do ditador Salazar e reconhecer que a democracia era um sistema preferível.

Mas a continuação da notícia logo desfez essa minha mirífica ilusão. O homem estava a referir-se ao tempo presente e a piada tinha todo o ar de ser dirigida a... José Sócrates!

Nessa altura fiquei na dúvida se se tratava realmente do Prof, Adriano Moreira ou de algum motorista de táxi com o mesmo nome (com todo o respeito pelos motoristas de táxi).

Mas não, era mesmo ele, “jurista, político e professor universitário, que assumiu cargos públicos desde jovem, tendo sido figura destacada do Estado Novo no âmbito da política colonial, foi ministro do Ultramar, [...] Depois do 25 de Abril, tornou-se uma das personalidades de referência do CDS e parlamentar respeitado, escreveu várias obras e retirou-se da vida política em 1995. [...] Falou da sua vida [...] assim como do seu relacionamento com Oliveira Salazar, que elegeu como o melhor estadista do século XX explicando as suas razões. Mas também milhares de portugueses o tinham feito num programa da RTP, em que o classificaram como o português mais notável de todos os tempos, concluiu.”

Quer dizer: o sujeito não passa de um farsante, que andou a fazer equilibrismo político desde o 25 de Abril, começando por se intitular “centrista”, eufemismo sob o qual na altura se encobria a extrema-direita. Depois, disse-se “democrata cristão”, mas vê-se agora a que democracia cristã se referia: era à do antigo CADC, onde Salazar e Cerejeira se formaram e que esses mesmos biltres aplicaram em Portugal durante mais de 40 anos. Mas só agora, depois da carnavalesca eleição da RTP, e num casino, é que teve a coragem de revelar aquilo que nunca deixou de ser: um salazarista empedernido e irrecuperável.

Comentários

André Pereira disse…
Uma vergonha para quem o afirmou e para a direita que ele representa. Passaram 35 anos, mas não aprendem nada. É dar-lhes um bocadinho de palco, um pequenina vitória e eles lá voltam, como pavões, a proferir imprupérios contra a democracia e os portugueses que ainda hoje sofrem por viver na sociedade menos escolarizada, mais desigual e mais pseudo-elitista da Europa. O horizonte da nossa direita é irremediavelmente o sul, olhar para modelos de vida claramente desiguais, menos humanos e menos livres. Nós preferimos olhar para leste, para a nossa Europa, para as luzes, a civilização e a democracia política, económica e social. Valha a liberdade de pensamento e de expressão ao Sr. prof. Moreira...
Num dos últimos programas dos Prós e Contras, depois de uma lição de catedrático, deixou no ar um apelo subliminar ao golpe de Estado.

Não fui o único a notar.

Como diz um amigo meu: Um estalinista pode tornar-se democrata mas um fascista, nunca.
polytikan disse…
o senhor deve estar a atingir a sua fase zen. metade dos neurónios já terão ido desta para melhor. restam os das recordações do "mundo português", do grande pai de todos Salazar, e a nostalgia do fascismo: que bom era ter mulheres domésticas e criados dóceis e em abundância - a eles pertence o reino dos céus...

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