O helvético (ou herético?) “drama dos minaretes” e algumas reacções europeias….

Os suíços – insaciáveis adeptos de referendos – em Nov. 2009 votaram a proibição de construção de novos minaretes.
A razão profunda desta iniciativa promovida e acariciada pela Direita (a União Democrática do Centro que integra o Governo Helvético) e secundada por movimentos populistas e anti-europeus, é um apelo despropositado a uma eventual preservação da identidade católica.
É, ao fim e ao cabo, um grave atropelo à Constituição Federal Helvética, actualmente em vigor, que consagra e garante a " liberdade de credo e de consciência ", e um penoso retrocesso à “Constituição de Ticino”, i. e., ao séc XIX, em que, entre outras disposições de subserviência à ICAR, reconhece que : "Igreja Católica Apostólica Romana e a Igreja Evangélica Reformada tem um estatuto de direito público "….
Na Suíça – imagine-se – existem actualmente 4 (quatro!) minaretes …
E sobre a “força” da identidade, ao que julgo religiosa, o Censo realizado em 2000, pela Swiss Federal Statistical Office, revelou que a religião desempenha um papel "importante" para apenas 16% dos suíços.
E a partir daqui é fácil compreender as motivações do “referendo dos minaretes” – a islamofobia.

Qual foi o impacto europeu desta "iniciativa" suíça?

- Um festim para a Direita europeia mais retrógada: nacionalista, neofascista, populista, anti-europeia, etc.

As “ondas de choque” rapidamente chegaram à Bélgica onde a Extrema-Direita flamenga do partido Vlaams Belang, actualmente liderada por Filip Dewinter - congratulou-se com o resultado, e propôs, também, realizá-lo em Bruxelas. Na Holanda, Geer Wilder líder do Freedom Party, mostrou-se adepto desta medida. Na verdade, para um político que compara o Alcorão com o Mein Kampf, todas as transposições são possíveis.
Depois, vem a França onde a Frente Nacional partido ulltra-nacionalista e protofascista, pela voz de Marine Le Pen (Vice-presidente por consanguinidade com o fundador), apelou aos povos europeus que adoptem a posição suíça, nos seguintes termos: “As elites devem ajudar a ultrapassar os medos e apoiar as esperanças dos povos europeus que, sem oposição à liberdade religiosa, rejeitam símbolos ostentação forçada por grupos político- religiosos muçulmanos " (tradução livre).
Na essência, um quase-apelo a novas cruzadas…
Em Itália, um ex-ministro da Justiça do Governo de Sílvio Berlusconi, Roberto Castelli, declarou: “ chegou a hora de colocar uma cruz sobre o tricolor italiano"...
E com esta última aleivosia será pedir muito que deixem a Europa descansar de assédios nacionalistas e religiosos, que mais não representam do que um rudimentar e tosco ataque à consolidação nos Estados europeus, de uma ampla e livre opção pela laicidade?

Na verdade, pretende-se vender na UE que o Islamismo será o oposto da identidade europeia. Antes mesmo de essa suposta “identidade europeia” ser uma realidade, palpável.
Alguns debates mostram que subitamente este problema preocupa diversos países europeus, por diferentes motivos. Sejam eles os minaretes, as burkas e a própria construção de mesquitas (com ou sem minaretes!). Recentemente, um texto oriundo da Liga do Norte (Itália) inseria a seguinte máxima: “Nós não queremos morrer islâmicos”… . A vil e abjecta exploração do medo …

No entanto, a questão islâmica passou ao lado dos debates políticos a quando da última campanha, de 2009, para a eleição de deputados ao Parlamento Europeu. O debate circunscreveu-se às divergências acerca da candidatura da Turquia à UE…
Entretanto, esquecemos que o Islamismo poderá ser, neste momento, a segunda religião praticada na Europa... ("praticada", ressalvo).

Comentários

Caro e-pa
Concordo, em principio, consigo, isto eh, concordo com a liberdade de culto, desde que essa liberdade
nao perturbe a das outras pessoas. Mas em relacao aos minaretes (tal como a torres de igrejas catolicas) poe-se uma questao estetico-urbanistica. Em nenhum pais civizado se pode construir o que se quiser, sobretudo nos centros historicos das cidades. Enfim, usando a terminologia nacional, qualquer construcao tem de respeitar o PDM.
E-Pá:

Tal como AHP tenho dúvidas sobre o direito à competição prosélita das diversas crenças para a conquista do poder.

Estou à vontade por ter condenado o referendo e o seu resultado com base no facto de os direitos individuais não deverem ser referendáveis.

Os livros sagrados dos 3 monoteísmos são suficientemente violentos (particularmente o AT) para que os seus prosélitos mereçam vigilância.
e-pá! disse…
Este comentário foi removido pelo autor.
e-pá! disse…
Caro AHP e CE:

Não foram questões arquitectónicas ou urbanísticas que motivaram o referendo.

Foi, para meu desassossego, slogans do tipo: "Não podemos construir Igrejas cristãs na Arábia Saudita"....
Aqui, sim, movem-se ocultas e indisfarçáveis competições prosélitas!

Ou, se quisermos, um argumento coxo arremessado a partir de uma Europa estruturalmente laica, onde a liberdade religiosa deve ser uma garantia para qualquer cidadão (europeu ou migrante) que viva no seu espaço (comunitário).
Não podemos criar normas ou condicionamentos para as minorias (étnicas, religiosas, sexuais, etc.) que não aceitamos para as maiorias.
.
Francisco Maltez disse…
sou a favor da construção de minaretes em toda a europa SEM QUALQUER RESTRIÇÃO! mas já agora só apoio esta medida quando os países arabes deixarem construir uma igreja que seja nos países deles.

PS: sou ateu!

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