Espanha - A agonia da ETA
O assassinato de dois guardas-civis espanhóis, em França, e a rápida captura de dois dos três terroristas que perpetraram o crime, revela o carácter cada vez mais anacrónico e o isolamento que atingem a sinistra organização.Vão longe os tempos em que a morte do primeiro-ministro Carrero Blanco foi saudada como um acto heróico contra uma das mais sangrentas e cruéis ditaduras do século XX. Então o chefe do governo ilegal e criminoso era um almirante fascista e a maioria dos seus ministros do Opus Dei. Hoje, a Espanha é uma democracia tolerante e próspera onde a violência é a nódoa que goteja sangue das mãos dos que rejeitaram a oportunidade histórica de sair do crime com dignidade.
Desde 20 de Dezembro de 1973 mudou a Espanha, o mundo e a benevolência com que a ETA era encarada. Hoje já não é uma organização com objectivos, planos e sonhos, é uma associação de malfeitores que, perdidas as referências, apenas sabe matar.
Há quem nunca aprenda com os próprios erros. A ETA é um exemplo eloquente. O seu futuro está nas mãos da polícia e aos seus membros só resta o cárcere ou o cemitério.
Comentários
Desde a prevalência da língua – resiste há 6.000 (ou 18.000?) anos – sendo a única sobrevivente na Europa à “razia” da cultura indo-europeia, até à sistemática metodologia de “tratamento” do poder central espanhol da questão basca, pela repressão e violência, tudo “justifica” a instalada querela pela autonomia, pelo nacionalismo.
A concepção “Euskadi” de Arana y Goii (fundador do PNV) depois do País Basco ter sido violentado por Castela na sua identidade após as guerras carlistas (séc. XIX), de secessão (?), é uma doutrina extremamente nacionalista , que hoje teríamos dificuldade em subscrever.
Só na II República o País Basco vê surgir um quadro de autonomia e há um incremento acentuado do nacionalismo.
A guerra civil espanhola foi fatal e levou às maiores iniquidades. O País Basco apoiou em grande maioria o lado republicano e sofreu todas as humilhações.
O massacre de Guernica é, hoje, um símbolo universal (não só basco) da repressão.
Mas Franco privou os bascos de tudo, desenvolvendo níveis de repressão policial intoleráveis e atacou-os no “coração” do nacionalismo: a proibição do ensino da língua nas escolas.
Simultaneamente, o caudilho incrementa uma industrialização apressada e “táctica” desta região. É a “nova invasão” espanhola. Esta política de desenvolvimento alimentada pelo poder económico e financeiro de Madrid, alterou sociologicamente a nação basca, desertificando os campos e dando origem a um poderoso e organizado operariado, que apesar de todas as restrições manteve a língua, e foi uma permanente fonte de contestação do poder centralizador castelhano.
A ETA nasce, neste contexto, em 1959, e só mais tarde inicia as acções violentas contra o franquismo.
É nesta situação que o País, em 1975, se encontra. A morte de Franco e o desabar falangista, cria novas condições para o combate político. A ETA não as aproveita apesar de dispor de novos instrumentos institucionais de luta pela autonomia e ter cessado a repressão linguística.
Assim, hoje, vamos duas regiões com o denominador comum em termos de passado de luta autonómica e destinos diferentes – o País Basco e a Catalunha.
O pós-franquismo modificou o clima social e político em Espanha. Bilbau não acreditou.
Hoje temos uma ETA em crise, sem saída que tem arrastado um povo para o declínio económico, com o desenvolvimento a ser enxotado pela instabilidade política e social. Um novo ciclo adivinha-se: o regresso às ocupações tradicionais, i. e., à pastorícia e à pesca.
Agora, uma coisa é certa: o nacionalismo não morreu. Vive nas terras bascas e tem raízes históricas, sociais e culturais que justificam plenamente a sua existência.
Os partidos políticos são indispensáveis à nação basca para encontrar os caminhos do futuro no campo democrático.
Não criar um clima de histeria anti-basca será – a par do combate à continuação da violência – as regras de ouro que o Governo Central deverá observar.
Porque de facto é difícil voltar a 1975 e aproveitar a oportunidade histórica perdida. Mas é sempre possível tentar novas oportunidades.
Zapatero tem tentado isso. Com a obstrução da direita espanhola, o ódio dos falangistas e a inflexibilidade ultra-radical do Herri Batasuna.
E, como refere o post, o lento, mas irreversível, "desabar" da ETA que, como se vê, embora dividida internamente e pejada de contradições políticas entre as vias a adoptar, ainda mexe … para alimentar o nosso descontentamento.
Esta dualidade de critérios é espantosa.
Esse tipo de ilações, essas dicotomias entre bons e maus, esses rótulos, só servem para alimentar a violência. E qualquer morte é uma violência.
Esta violência que, como é óbvio, visceralmente, rejeitamos tem sempre as suas causas, se quisermos, motivações. Não nos interessa ficarmos pelo conhecimento mas isso pode ajudar-nos a resolver os conflitos.
Como, na realidade, tem feito Zapatero, (ainda) sem exito.
Neste blog há censura.(...)
Sex Dez 07, 10:48:00 AM
RE: Trata-se de uma calúnia tão anónima e falsa como o autor.
O que nos deve diferenciar da barbárie entre outras coisas e a condenação da violência a todos os títulos.
Há um ano Zapatero apelidava o porta-voz da ETA, Arnaldo Otegui, como um homem de paz, pouco depois eram mortas duas pessoas num atentado no aeroporto de Barajas e mesmo aí Zapatero deixou a porta aberta a uma futura negociaçao, só agora o governo aparenta ter outra firmeza em relaçao ao tratamento a dar ao terrorismo basco, só agora o governo pensa sériamente em ilegalizar a ANV algo que o PP sempre defendeu, é Zapatero que se aproxima da posiçao de Rajoy e nao o inverso.
Entretanto houve muito tempo perdido.
Nada de confusoes, Rajoy quer tanto acabar com a ETA como Zapatero, no entanto o caminho seguido por este último acabou involuntariamente por beneficiar os etarras.
Será o iberismo de Saramago chegando ?
É um blogue cujos comentários são livres e, pelos vistos, cosmopolita.