2010 - o espectro da "indigência" …

Dados do Eurobarómetro (Out. 2009) mostram que, em Portugal, 61% dos cidadãos acreditam que o nível de pobreza cresceu no último ano.
[http://ec.europa.eu/public_opinion/index_en.htm]
Por outro lado, segundo o INE, em 2008, 73% dos portugueses tiveram dificuldades (pequenas ou grandes/ permanentes ou transitórias) para pagar as contas quotidianas.
Estes dados confirmam o vago sentimento geral que extensas bolsas de pobreza povoam o nosso País.
Mais, os apoios sociais públicos ou privados, intensificados durante a recente crise económico-financeira, salvaram 23% dos portugueses das dificuldades imediatas, persistindo, contudo, cerca de 18% dos cidadãos (dados de 2008) a viver abaixo do limiar da pobreza (os que auferem um rendimento inferior a 406 € /mês).
Neste contexto, estão criadas profundas fissuras sociais mas, concomitantemente, há um embotamento da capacidade dos portugueses interiorizarem estes desastrosos indicadores.
Este grave quadro económico e social não é exclusivo de Portugal e atinge transversalmente a Europa. Para combater esta dramática situação os Estados encontram-se condicionados por falta de espaço de manobra (especialmente os integrantes da chamada “zona euro”), nomeadamente, por restrições orçamentais subsidiárias da acumulação de défices excessivos gerados no combate à crise.
A agravar a situação, continuará a persistir o crescimento sustentado do desemprego, mesmo quando se verifica uma lenta e pesarosa saída de recessão.
O conjunto destas situações, levou a UE a instituir, apara 2010, o Ano Europeu da Luta contra a Pobreza.
Como a UE reconhece é necessário: lutar pelo direito das pessoas em situação de pobreza e exclusão social a viverem com dignidade, aumentar a adesão dos cidadãos às políticas de inclusão social, promover uma maior coesão social e renovar o envolvimento da UE nesta tarefa conjugando e coordenando todos os níveis de poder.
O êxito destas medidas (genericamente enunciadas) depende da estabilidade politica (governamental), da atenuação das crispações sociais e da estratégia de combate ao défice orçamental público.
Os últimos tempos mostram que, em Portugal, as condições para o sucesso têm de ser encontradas fora de um quadro de confronto entre os diferentes órgãos de poder, nomeadamente, entre Presidente da República e Governo e entre o Governo e a Assembleia da República, entre o Governo e as Oposições.
Porque, num ambiente de tamanha gravidade, os portugueses nunca perdoarão aos que por interesses políticos, económicos ou partidários, gerarem “guerras do alecrim e da manjerona” esquecendo ou menosprezando o terrífico espectro de miséria que paira sobre largos estratos populacionais.
A pobreza não é só ter os bolsos vazios será, também, sentir-se abandonado, desprezado e injustiçado. Isto é, a pobreza não pode cohabitar a exclusão social. Porque, se isso acontecer, o risco da pobreza cair na indigência - donde quase todas saídas ficam bloqueadas - é enorme!
Como enorme será o risco de desagregação do tecido social, com todas as consequências conhecidas.
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