Notas soltas - Abril/2006

Constituição/1976 – Trinta anos após a aprovação, com alterações que o tempo e as circunstâncias aconselharam, mantém-se a referência do ordenamento jurídico e aval dos direitos, liberdades e garantias que, durante 48 anos, foram negados aos portugueses.

Carlos Fabião
– Com a morte do ex-Governador da Guiné e chefe do EMGE, a democracia perdeu uma referência emblemática e um dos mais empenhados e generosos militares de Abril. Sofreu agravos e o ostracismo com enorme coerência e dignidade.

Marcelo Rebelo de Sousa – A situação de comentador televisivo confunde-se com as funções de conselheiro de Estado, não se percebendo se as suas afirmações são recados, opiniões ou intrigas.

Santos Cabral – A demissão, por razões de confiança política, não beliscam o decoro do ilustre juiz conselheiro, ao contrário da do antecessor cuja conduta atingiu o prestígio próprio, o da PJ e a honra de Ferro Rodrigues.

Iraque – O julgamento de Saddam é uma farsa. Os crimes sSão indefensáveis e sobram razões à acusação, mas mingua legitimidade aos julgadores. A verdade que se pretende apurar colide com a mentira que se quer apagar – o motivo falso da invasão.

Berlusconi – A postura, a linguagem e os interesses eram intoleráveis. O desaire da direita, daquela direita, pôs fim ao populismo, nepotismo e confusão de interesses públicos e privados. Tal como no poder, Berlusconi foi mesquinho na derrota.

Romano Prodi – A vitória é um desafio à unidade da esquerda. Feito o que era urgente – afastar Berlusconi –, falta o mais difícil, dignificar o Estado, pôr a economia a funcionar e manter a estabilidade governativa.

Irão – Os avanços nucleares e as declarações agressivas dos ayatollahs, com fortes motivações de hegemonia política e proselitismo religioso, justificam a apreensão mundial e vigilância estreita.

Vaticano – A aproximação à Sociedade S. Pio X (SSPX), onde sobressaem dois bispos abertamente fascistas e anti-semitas, é um indício dos caminhos que a ICAR se propõe trilhar com quem excomungou no anterior pontificado.

STJ – O acórdão que considera «lícito» e «aceitável» que uma funcionária de um lar de crianças deficientes, dê «estalos», «palmadas» e feche crianças em quartos escuros como medidas educativas, faz considerações deploráveis e jurisprudência inaceitável.

Espanha – Dia 14 comemorou-se o 75.º aniversário da II República que forças obscurantistas e reaccionárias derrubaram para impor a ditadura que oprimiu, torturou, exilou e assassinou centenas de milhares de patriotas e democratas.

Filipinas – A crucificação de fiéis, a evocar o sofrimento do seu Deus, não é um acto de piedade, é a violência que mostra a face da Igreja – a crueldade com que o clero conserva e promove uma fé arcaica, indigna do ser humano.

Israel – O atentado suicida que matou dez israelitas e feriu 60, com o Hamas a recusar condená-lo, compromete a Palestina e desmotiva os que apoiam a sua causa, indiscutivelmente legítima.

Madeira – O encerramento da Assembleia Regional no dia 25 de Abril, data a que deve a existência, é um insulto patético de Alberto João Jardim que fez o tirocínio democrático na escola do Estado Novo e o de boas maneiras em Chão da Lagoa.

25 de Abril – 32 anos depois, há quem exonere da lapela o cravo e da memória a Revolução, parasitas de alheia coragem, a comer frutos da árvore que não plantaram e a repoltrearem-se à farta na mesa que não puseram.

Chernobyl – A explosão com a força de 200 bombas como a de Hiroxima é uma tragédia viva e uma dolorosa recordação cujas feridas permanecem. Chernobyl é uma catástrofe em aberto, um laboratório de horrores e uma memória por encerrar.

Cavaco Silva – Foi estranho o entusiasmo dos aplausos do PSD e do CDS, na AR, ao discurso marcado por fortes preocupações sociais. Terá sido desatenção, dureza de ouvido ou oportunismo?

CDS – O azedume à Constituição da República é a reacção natural de um partido que nunca condenou a de 1933 nem sentiu a necessidade de existir enquanto a ditadura oprimiu o povo português.

Itália – A Esquerda conseguiu assegurar, para além da presidência do Governo, a da Câmara de Deputados e do Senado. Com margem tão escassa, o futuro Governo não aguenta a legislatura mas o País já não tem de aguentar Berlusconi.

Agricultura – A CAP viveu vinte anos à custa dos subsídios da União Europeia enquanto a agricultura definhou e morreu. O ministro Jaime Silva quer pôr termo ao parasitismo. Que não lhe doam as mãos. Portugal conhece esses «agricultores».

aesperanca@mail.telepac.pt

Comentários

Anónimo disse…
Meu caro Esperança ponha-se você no lugar do juiz do STJ, que simplesmente considerou que os castigos (que não os condenados nos tribunais anteriores) não configuravam maus tratos cfr a lei.
Imagine você que ele dizia que sim. Imagine agora que você dava um estalo a um filho seu, ou mandava para o quarto como castigo e que um dos nicks que nutrem um ódio às suas ideias sabem disso. Imediatamente colocavam uma queixa em si em tribunal que uma vez que o STJ dizia que um estalo ocasional ou colocar uma criança num quarto era uma prática de maus tratos o condenava a uns anitos na penitenciária.

O juiz teve bom senso, com justificações um pouco absurdas, é certo, mas teve algum bom senso.
Anónimo disse…
Eminência:

Compreendo o seu entusiasmo relativamente ao discurso de Cavaco Silva nas comemorações do 25 de Abril.
Há, de facto, um paralelismo entre este discurso e a
Carta Encíclica «Deus Caritas Est» de B16. Um ultra-ortodoxo da doutrina cristã fala de amor, um tecno-liberal, desenraizado dos assuntos sócio-culturais, fala de exclusão social.
Mistura-se alhos com bogalhos. Tira-se espaço aos opositores. Esvazia-se os conteúdos teológicos e/ou ideológicos dos problemas. Enxovalha-se despudoradamente a inteligência das pessoas. Confunde-se tudo!
Para rematar o ramalhete só falta Manuel Monteiro dar aulas de marxismo ao CC do PCP ou o Carlos Esperança ser nomeado professor de teologia no Sacro Colégio cardinalício.

Não é verdade eminentíssimo Cardeal?

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