Momento de poesia

MEU PAÍS


Meu país marginal
sem raiz
de heróis vazios
insofrido ...
Rebanho inerte
obediente
à laçada dos pastores
... vilões ...

Meu país mal amado
vais de paragem em paragem
perdido
rente à sombra
envergonhado ...

Descobriste a Índia
perdeste,
foste ao Brasil
enriqueceste com o ouro
e com o escravo
na África sufocaste
na França a abastança
da maison ambicionada
de telha negra coroada
com mil azulejos aos berros
na aldeia de granito assombrada...

Meu país sem sentido
de revoluções inacabadas
nunca trabalhaste o sonho,
apenas fabricaste o mito ...

Meu país incompleto
deserdado ...
Meu país
à espera do desejado ...

Foste pastor, agricultor,
guerreiro e marinheiro
vadio do mundo, crioulo ...
Foste herói, santo e mártir
e também ladrão, mil vezes roubado ...
Foste poeta, missionário
e também traficante ...
Ganhaste e perdeste na guerra
foste arado, espada e torno
foste cimento de mundos ...

Agora és um pedaço de terra
de gente envergonhada
à procura da verdade
na nostalgia de futuros
e nas contas com o passado ...

Alexandre de Castro - Lisboa, 1998

Comentários

Anónimo disse…
“ Mesmo a doença de Alzheimer não impediu uma senhora, no grande abandono em que se encontrava, de se interrogar e de me interrogar: «Diz-me: “Quando é que somos mais nós próprios?” Decorrido algum tempo, continuou: “É uma questão crucial!” E eu pensei assim comigo mesmo: “Na verdade, o que é que faz com que tenhamos valor, e aos olhos de quem? O que é que constitui a nossa dignidade, o nosso valor: é a nossa autonomia? O grau da nossa inteligência? A capacidade de nos relacionarmos com os outros? A saúde do nosso corpo? A imagem que damos de nós?”
.

G. TERLINDEN in J’ai rencontré des vivants. Ouverture au spirituel dans le temps de la maladie.
Anónimo disse…
O que tem a doença de Alzheimer a ver com o poema?????
Será que já estamos todos dementes??
Graza disse…
Já foi escrito em 98, mas receio que possa ser lido no futuro com o paralelismo com que lemos Eça.
Graza disse…
Parece que foi escrito para Junho de 2012. E é um grande poema, saiu-lhe bem! Parabéns.

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