Ramalho Eanes referiu como trágica a descolonização em que «milhares de pessoas foram obrigadas a partir para um país que não era o seu». Tem razão o ex-PR cujo papel importante na democracia e o silêncio o agigantou depois da infeliz aventura por interposta esposa na criação do PRD e da adesão à Opus Dei, sempre por intermédio da devota e reacionaríssima consorte, que devolveu o agnóstico ao redil da Igreja. Eanes distinguiu-se no 25 de novembro, como Dinis de Almeida no 11 de março, ambos em obediência à cadeia de comando: Costa Gomes/Conselho da Revolução . Foi sob as ordens de Costa Gomes e de Vasco Lourenço, então governador militar de Lisboa, que, nesse dia, comandou no terreno as tropas da RML. Mereceu, por isso, ser candidato a PR indigitado pelo grupo dos 9 e apoiado pelo PS que, bem ou mal, foi o partido que promoveu a manifestação da Fonte Luminosa, atrás da qual se esconderam o PSD e o CDS. Foi nele que votei contra o patibular candidato do PSD/CDS, o general Soares...
Comentários
1.) O seu inicial envolvimento com a FRETILIN nos anos de 75;
2.) a participação na declaração unilateral de independência (República Democrática de Timor-Leste);
3.) a impotência da invasão de Timor pela Indonésia (9 dias depois);
4.) a assumpção do cargo líder da resistência maubere à ocupação;
5.) a profícua actividade diplomática, a partir das dificeis condições da montanha, no massacre do cemitério de Sta Cruz;
6.) a sua prisão em 1992
7.) o seu julgamento na Indonésia, sem direito a defesa;
8.) à sua condenação a prisão perpétua;
9.) a realização do referendo de 30 de Agosto 1999;
10.) a opção livre e esmagadora, nesse referendo, do povo timorense pela independência;
11.) os tempos do “terror indonésio” que se seguiram ao referendo;
12.) a sua libertação, em 1999, da prisão de Cipinang (Jacarta), sob a pressão diplomática internacional;
13.) o seu regresso a Timor;
14.) a liderança de uma campanha de reconciliação e reconstrução;
15.) a governação, em parceria; com a administração local da ONU;
16.) a emergência como líder incontestado da nova nação;
17.) a sua eleição, em Abril 2002, com expressiva margem de votos, como presidente de Timor-Leste;
18.) a independência formal de Timor em Maio 2002;
19.) a vitória da FRETILIN nas eleições legislativas e constituintes;
20.) a formação de um governo presidido por Mari Alkatiri;
21.) uma acentuada viragem política e ao surgimento de crescentes dificuldades de relacionamento institucional;
22.) a ruptura definitiva, em 2006, com o governo de Alkatiri, provocando a sua demissão;
….
Há um longo, riquíssimo, e algo misterioso, percurso. Esteve presente, e influenciou, todas estas etapas. A sua crise com a FRETILIN é pública e notória, desde 2002, quando teve necessidade de afirmar, acusando: “perdemos a noção da nação porque nos agarramos ao sentido dos interesses partidários”.
Mas, todavia, a sua dissidência é muito mais longínqua. Começa na resistência, em 1987-88, como comandante chefe das FALINTIL, onde escreve num relatório extremamente crítico para coma a direcção política (FRETILIN): “Doze anos depois, temos que reconhecer com amargura os efeitos que uma estratégia política mal traçada proporcionou ao Povo Maubere e o levou desastrosa situação a que ainda ninguém conseguiu pôr fim! “
A actual crise, com a FRETILIN, persiste. A recente ilibação de Mari Alkatiri, pelo MP timorense, fragiliza-o. A intenção de Mari Alkatiri disputar as próximas eleições para a presidência agrava o “clima” político timorense. Não agrada aos australianos, nem à influente (politicamente) Igreja Católica. Para Xanana é uma provocação (política). A saída que privilegia é abandonar o cargo de presidente da República (já o tinha feito em outras crises). Pelo curto caminho que lhe resta, optou por enveredar nas infindáveis malhas da intriga que pululam em Timor. É o que, infelizmente, representa a audição de Rai Los, à frente de manifestantes contra a descriminilização judicial de Alkatiri. Depois da intromissão no poder executivo vai ser provocado para interferir no poder judicial.
Esperemos, em nome de um brilhante trajecto de luta e acção política que resista a esta tentação. Merece, de facto, com este invejável curriculum, sair pela porta grande... e ser objecto do reconhecimento de todos os mauberes. Merece-o!
Lá me vou arriscar a mais uma "inferência" (como gosta de lhe chamar).
- Não me diga que é Bento XVI...