O Opus Dei e a IVG

O Dr. Gentil Martins não se limita ao fanatismo religioso que o caracteriza, substitui-se ao Estado e à Ordem dos Médicos de que foi Bastonário.

«Para mim são licenciados em medicina, não são médicos» - afirmou em relação aos que – no caso do Sim ganhar o referendo – passem a realizar abortos até às 10 semanas. (DN, ontem, pág. 5).

Neste caso, não é o ilustre cirurgião que se pronuncia, é o exaltado membro do Opus Dei. Não é o médico respeitável mas o inquisidor fanático que, se pudesse, suspenderia das funções abnegados colegas que pensam de forma diferente.

Que o Dr. Gentil Martins prefira o aborto assistido por polícias em vez de médicos, que queira mulheres judicialmente perseguidas, que considere a prisão até 3 anos uma pena insuficiente para um crime que só as fogueiras purificariam, é uma atitude pessoal que se respeita mas não a resposta de um Estado de direito.

Este referendo não procura averiguar as considerações éticas dos eleitores em relação ao aborto. Apenas pergunta aos eleitores se desejam que continue a ser crime a interrupção da gravidez, até às dez semanas, a pedido da mulher, em estabelecimento de saúde autorizado.

É por isso que as vozes de Gentil Martins e Bagão Félix parecem saídas do Concílio de Trento, eivadas da febre das fogueiras do Santo Ofício, ao serviço de um Deus violento, cruel e apocalíptico. Que demónios albergam duas pessoas que imaginamos pacificadas com a hóstia e a missa e incapazes de uma visão totalitária sobre as convicções alheias?

PE/Diário Ateísta

Comentários

Mano 69 disse…
O horror é o horror Carlos Esperança!

P.S.: Não é o Carlos Esperança que é o horror, mas sim o horror com esperança.
e-pá! disse…
O Dr. António Gentil Martins foi um distinto cirurgião pediátrico e durante 10 anos bastonário da Ordem dos Médicos.
Foi um cirurgião de reconhecido mérito, reconhecido internacionalmente, nomeadamente pelas intervenções que efectuou em separações de gémeos siameses.
Na Ordem dos Médicos, exerceu o cargo com dignidade mas acabou por saír completamente desfazado com os novos tempos da Medicina e, o pior, com as novas gerações de médicos. No seu entendimento, "reservava" competências para a Ordem que acabariam por ser ocupadas pelos sindicatos médicos. Viveu, nasceu em 1930, muito tempo num regime onde os sindicatos eram figuras decorativas e docéis e, mais, assimilou essa concepção que lhe seria fatal no pós-25 de Abril. É, portanto, uma figura histórica da Medicina portuguesa mas, com a voracidade dos tempos, deixou de ser uma referência para a moderna Medicina. Nunca entendeu isso. Sempre continuou a pensar nos moldes do "antigamente".
Feito este parêntesis sobre o enquadramento do Dr. A. Gentil Martins, no panorama médico nacional de hoje, há outra vertente.
Para além de um brilhante curriculum profissional, sujeito como todos à usura do tempo tem, como todos os homens, uma vida privada própria.
Nesta vertente, interessou-se, pela intervenção social, enquanto cidadão.
É nessa última qualidade que se apresenta como integrante do movimento pelo "NÃO". Não como médico ou como referência para os actuais médicos que trabalham por esse país fora.
A verdade é que ao contrário do que argumenta, o Dr. Gentil Martins é, neste momento, mais um licenciado em Medicina, muito dificilmente (ou esporadicamente)será um médico. Seria bom que não rotulasse os seus colegas com um mal que efectivamente padece.
Enquanto cidadão tem uma intervenção social (legítima), balizada por opções confessionais (também legítimas) que o orientam para posições éticas próprias - que não pode impor aos "outros".
A Opus Dei, prelatura que parece integrar, esconde-se, muitas vezes, atrás de personagens técnicas ou científicas, para diluir a referenciação confessional e tornar aparentemente "asséptica" o seu modelo e a sua metodologia de intervenção na sociedade e, mais particularmente, em restritas comunidades.
É, para resumir, uma metodologia proselitista.

A opinião, ou as opções, do Dr. Gentil Martins, valem o que valem. Não comprometem (felizmente), nem influenciam (de sobremaneira), o grupo profissional médico que, quotidianamente, cuida dos doentes e, enfrenta (todos os dias) os problemas das mulheres que pretendem fazer uma IVG.

O movimento "Médicos pela Escolha" (MMPE), por exemplo, tem outra projecção e outra influência, no seio dos médicos, ao integrar-se na movimentação global pelo "SIM".

É a lei da vida: os novos e os velhos tempos. Ou, os velhos e os novos médicos. Ou, ainda, as velhas e novas idoneidades.
Mano 69 disse…
Excelente obituário e-pá!
osso disse…
penso que qualquer debate não ganha nada com ataques pessoais.
o que interessa se o homem é do opus dei ou de outra coisa qualquer.
para rebater as suas ideias importa argumentar e propor uma solução melhor. quem diz que ele opta por punir a mulher? se calhar a sua opinião é apenas de não impedir um nascimento sem que o ser que é o feto/embrião seja "ouvido".
e-pá! disse…
Osso:

Quem vota pelo NÃO, opta por punir a mulher. Não há outra saída.
Senão, entramos em "marcelices"...
Anónimo disse…
Gentil Martins foi, certamente,um grande cirurgião; mas, pobre dele, não consegue "separar" o fanatismo, da moderação, nem respeitar os mais elementares princípios da deontologia.
Como homem, não passa de um resabiado saudosista do vinte e quatro barra quatro, que vai "marrar" até morrer sem dar por isso.

"Siamês"
Anónimo disse…
Esse tipo é da linha de Jérôme Lejeune: um médico anti-semita, anti-maçónico, com uma homofobia importante se opôs à legalização da IVG em França.
A vida é assim.
Quantos médicos com o humanismo do Mengel, Karradzic, Lejeune, Martins no mundo?
E o pior é quando tomam o poder.
Anónimo disse…
Todos vocês metem medo. Não passam de "iluminados" fundamentalistas de esquerda. Aquela esquerda fedorenta e mal formada que ve as coisas com talas nos olhos como os burros. E querem que todos pensem da mesma maneira que vocês, ou seja, não passam de recém-promovidos burgueses de meia tigela a defenderem o politicamente correcto, supostamente a IVG.
E não têm cultura nem dimensão humana para entenderem a diferença entre um licenciado e um médico.
É que um licenciado é um profissional da medicina, um assalariado. Um médico é um homem que respeita o juramento de Hipócrates e defende a "vida" por todos os meios ao seu alcance. Qualquer vida, mesmo a dos embriões.
É isso que vocês não percebem, porque só mentes livre e brilhantes como a do Dr. Gentil Martins são capazes de o fazer e dizer em público essa verdade absoluta e inquestionável que é a defesa do valor da vida.
Figurinhas, vocês não passam de figurinhas.
Sex Fev 09, 02:44:00 PM:

Caro Torquemada anónimo:

Acha que os órgão paroquiais nos deixavam publicar a nossa opinião como nós consentimos a vossa?

Sabe que só a Polónia, Malta e Irlanda têm uma lei mais restritiva do que a que vier a ter Portugal se ganhar o sim?

Sabe que os regimes fascistas foram os mais violentos persegudores de mulheres por IVG?

Em França houve, sob Vichy, uma condenação à morte por esse motivo.

Intolerância beata, basta.
Anónimo disse…
Ao Sex Fev 09, 02:44:00 PM:

Quem é você senão um feiticeiro de meia tigela que nem em Vilar de Perdizes consegue montar a banca.
Tome mas é cuidado com os fósforos porque as fogueiras já lá vão.

"O outro Siamês"
Anónimo disse…
Beato é você. Com todo esse anticlericalismo militante que apregoa, acho que ainda não se libertou dos calções de menino do coro.
E não confunda as coisas se faz favor. Defenda o que quiser mas não rotule o que não conhece, porque além da evidente falta de educação é um acto estúpido.
E acho ainda outra coisa: você tem um problema com a autoridade. Não gosta de autoridade, arrelia-lhe as meninges. O que é um um sentimento "repeitável". Mas assuma: não se diga socialista, seja anarquista porque é isso que você é.
Mano 69 disse…
e-pá!
É a vida?!

Será! O seu problema é que ela é mais curta (de vistas) que comprida.
Anónimo disse…
O Prof. Gentil Martins é uma exemplo de médico, mais do que isso, é um exemplo de pessoa. Como alguém à pouco tempo dizia, o Prof. Gentil Martins é a humanidade em pessoa. Paslavras para quê?
Um verdadeiro médico não olha a credos nem taras de pseudo-modernice que o tempo um dia há-de levar. Um médico salva vidas. É este o propósito da medicina, salvar vidas. Não é utilizar os conhecimentos de que dispõe para promover a morte. Esse é um profissional da coisa...
Claro que, como pessoa íntegra e responsavel que é, sempre dedicou a vida a salvar vidas. Logo, a exemplo de todos os grandes nomes da Medicina em Portugal, vai votar NÃO! Como exemplo de honestidade que é, não vai encher os bolsos à custa deste negócio...
Carlos Esperança disse…
Caros leitores que legitimamente têm uma posição diferente da minha:

A actual lei favorece as clínicas clandestinas.

A despenalização, até às dez semanas, a pedido da mulher, é um rombo para tal negócio.
e-pá! disse…
Mano 69:

"O seu problema é que ela é mais curta (de vistas) que comprida."

Não é isso!
É que todos vamos (podemos) ter um (ou vários) obituário(s).
Isso é que é a vida!
Anónimo disse…
Carlos Esperança: Como é possivel estar tão bem informado relativamente ao nome dos membros da Opus Dei? Sei que aqueles não fazem disso tabu mas também não conheço nenhuma lista que mencione os mesmos....
Anónimo disse…
Tem razão, caro anónimo. Eu conheço pessoas que pertencem à ordem Opus Dei e nunca as oiço a falar nisso. É uma opção pessoal e ninguem tem nada a ver com isso.Mas sabe que há uma esquerda que se pensa iluminada cujo cérebro há-de morrer afogado em clichés...
e-pá! disse…
Anónimo Sex Fev 09, 07:20:00 PM

E já agora não quer pôr em dúvida se a própria Opus Dei existe?

E, esses membros que conhece e não falam, serão mesmo da Obra?

Será que Josemaría Escrivá de Balaguer existiu?

Agora, o que é importante é perceber que o facto de pertencer, ou não, à Opus Dei, não (não pode) ter qualquer relevância cívica. É uma opção confessional, pessoal, íntima. Só poderá ter relevância religiosa. E tem tido.
Se é supernumerário, numerário, adscricto, cooperante ou membro da sociedade sacerdotal da Santa Cruz poderá ser uma miragem - já que ou vivem na clandestinidade ou não existem...

Agora, se de facto existirem (temos de admitir o contraditório) parece-me é que terão má cotação ou má reputação. Na verdade, quando se cita alguém como pertencendo à Opus Dei, há sempre incómodos. Dos citados. Ficam comprometidos. Não gostam que se fale disso. Porquê?
Por causa dos escândalos financeiros onde foi envolvida?
Aqui mesmo ao lado, na "vizinha" Espanha... associados ou integrando a Direita (PP).

O melhor é esquecer e assobiar para o ar!
A Opus Dei tem outra finalidade:
é um cliché para afogar a Esquerda.
Logo, à Esquerda só lhe resta associar-se ao Instituo de Socorro a Naufragos... e, finalmente,... um dia, se o "Santo" Escrivá o permitir, verá a lista dos membros da Obra inscritas nas bóias de salvação...ou num "Código da Vinci" revisto e aumentado.
Ana Maria disse…
diz ele:«Para mim são licenciados em medicina, não são médicos»

E ele? nao terá errado na escolha do curso? Pelos vistos o que no fundo ele quer ser é juiz par julgar e condenar as mulheres, os médicos... e sabe-se la quem mais.
Ferros Curtos disse…
É tão boa peça - e não falo aqui da parte profissional - que quer que o seu código moral, seja o código penal das mulheres portuguesas.

Nunca o vi tão impertigado para atacar os pedófilos - e já tivemos e estamos a ter processos de pedofilia .... enfim coisas !
e-pá! disse…
Ana Maria:

Todos os médicos são licenciados em Medicina.
Nem todos os licenciados em Medicina são médicos. Para o serem têm de medicar, isto é, contactarem com os doentes.
Estar num palanque a dizer baboseiras sobre a IGV, sobre as mulheres e sobre a despenalização, isto é, sobre a validade do próximo referendo, não dá esse estatuto.
São estas as inferências...
Mano 69 disse…
e-pá!

Com amigos como você, para fazer obituários e quejandos, quem é que precisa de inimigos.
Ana Maria disse…
é-pá

«Agora, o que é importante é perceber que o facto de pertencer, ou não, à Opus Dei, não (não pode) ter qualquer relevância cívica. É uma opção confessional, pessoal, íntima.»

A IVG tambem é e deve ser uma opção pessoal e intima...

SE fosse confessional votaria «não» mas como não o é... Voto SIM

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