Fumar faz mal (2)


O percursor das leis antitabágicas chamava-se Adolf Hitler; ao que parece considerava que fumar era um hábito importado dos índios da América e dos pretos de África, portanto próprio de raças inferiores e impróprio de arianos puros; mais ou menos o mesmo pensavam Mussolini, Franco e Salazar, também "inveterados" não fumadores.

Agora os talibãs antitabágicos usam métodos estalinistas para refazer a história: apagam das fotografias o charuto de Churchill, o cachimbo de Sartre e o cigarro de Malraux.

A lei porque tanto anseiam´é uma lei fascista, pois pretende retirar às pessoas o direito de fumar ou não fumar; é uma lei hipócrita, porque não dá sequer aos proprietários dos cafés e similares o direito de permitir ou não permitir o fumo nos seus estabelecimentos; se, como alegam os referidos talibãs, 70% dos portugueses não fumam, então a maior parte dos hoteleiros optaria por proibir o fumo, pois assim ganharia mais dinheiro! Então para que é necessária uma lei a dizer que "é obrigatório proibir", com um radicalismo de sentido oposto ao libertário "é proibido proibir" de Maio de 1968?

Com uma lei desse género não teríamos a obra de Sartre, por ele escrita em grande parte em cafés, enquanto ia pacificamente fumando o seu cachimbo; não teríamos tido a "tertúlia" da Brasileira, por causa do inevitável cachimbo do Prof. Paulo Quintela; e não teríamos tantas outras coisas de que dizemos gostar tanto.

A diferença entre um anti-tabagista e um fumador é a mesma que a que existe entre os anti-abortistas e os que defendem a despenalização do aborto: é que não há abortistas a querer que as outras abortem, nem tabagistas a querer que os outros fumem. Os fumadores não são prosélitos do fumo; apenas querem que os deixem em paz e sossego.

Pelo contrário, os anti-tabagistas não fumam nem querem deixar os outros fumar.

a) António Horta Pinto

Comentários

jrd disse…
Fumei cachimbo cerca de trinta anos e consegui "curar-me".
Nada tenho contra os fumadores, a quem reconheço o direito de fazerem o que quiserem da sua saúde, mas não lhes reconheço o direito de fazerem o que querem da minha e recuso o papel de fumador passivo.
O meu espaço não é o deles, quando fumam, e o deles não é certamente o meu porque respeito a opção que fizeram.
Por ser demasiado redutora não entendo a dicotomia fumadores/bons versus não fumadores/maus.
Anónimo disse…
FUMAR FAZ MAL?

E uma queca , não?...

Zézé
e-pá! disse…
A legislação anti-tabágica é mais um passo na caminhada visando a "normalização" da sociedade, a meu ver, terrivelmente condicionadora das diversidades que informam o perfil identitário.
Absolutamente de acordo sobre a proibição de fumar em espaços públicos fechados. Claro que nesta situação tem de prevalecer o interesse público.
Agora, porque não poderão existir, p. exº., restaurantes, discotecas, bares, aviões, etc. "para fumadores"?
O "não-fumador", teria sempre ampla possibilidade de escolha (o mercado dos 70% assegura-lhe isso) e se optasse ir a um espaço de fumadores, teria de "aguentar"...

As regulamentações de comportamentos são sempre polémicas. A existência de uma larga maioria de não-fumadores (70%?) não lhe confere direitos (em alguns aspectos)discricionários sobre a minoria de "fumadores".
Todos sabemos o que significa o não reconhecimento dos direitos das minorias, ao nível social e cultural.
Por outro lado, a legislação anti-tabágica proposta para entrar em vigor no nosso País, enferma de um outro pecadilho. Apela à denúncia pelos cidadãos dos prevaricadores e, pior, dilui a fiscalização por entidades privadas, p. exº., proprietários de restaurantes, etc.
Embora reconheça que, p. exº., a denúncia de actos criminosos, ilegalidades ou injustiças presenciadas e comprovadas pelos cidadãos, possa até constituir um dever cívico, o mesmo não penso em relação aos comportamentos sociais, que não afectem directamente o colectivo. Todos teremos (ainda) alguns traumas acerca dos "bufos", pelas iniquidades conotadas com os mesmos, nomeadamente, a possibilidade de "invasão" da esfera privada e da reserva intima dos cidadãos.

Fumar é, com certeza, prejudicial à saúde.
Mas não deve ser a porta de entrada de uma perspectiva regulamentadora de comportamentos.
Senão, p. exº., o sedentarismo, que também é prejudicial à saude, e afecta cerca de 70% dos portugueses, deverá também ser "punido"?
Vou denunciar o meu vizinho que não faz caminhadas, exercício físico, etc.?
Referi o sedentarismo por a percentagem estatistica ser idêntica aos "não-fumadores".

Temos de saber até onde os poderes públicos devem (podem) ir no caminho da regulamentação de comportamentos.
E defender a perservação da diversidade individual dos apetites de burocratas e moralistas.
E, em relação aos poderes do Estado, devemos estar atentos aos direitos das minorias.

Declaração de interesses:
sou fumador e sedentário.
kavkaz disse…
Fiquei chocado com a expressóes que utilizou: abortistas e anti-abortistas e a comparação com fumadores.

Quem são os abortistas ? São os que têm como profissão fazer abortos ? Não conheço ninguém assim ! Nas Finanças não existe ninguém colectado com tal profissão. Conhece abortistas ?

Talvez seja melhor corrigir alguma linguagem escabrosa e ofensiva e que não corresponde a qualquer realidade.

Eu votei SIM no referendo e repugna-me tal linguagem. Acho-a inaceitável e ofensiva !

Quanto aos «direitos» dos fumadores a terem paz e sossego, estarei de acordo se eles deixarem os não-fumadores nas mesmas condições: paz e sossego. O que não é costume, reconheça-se !
Anónimo disse…
Antonio Horta Pinto: Completamente de acordo!!!

Esta lei é, sem sombra de duvida, uma cópia talibanesca dos EUA, País que desinfecta o braço do condenado antes de lhe dar a injecção letal, e que muito provavelmente proibe, o condenado à morte, de fumar. não vá o cigarro fazer-lhe mal.

Se nos EUA proibirem os fritos, ou o uso de peugas, será que vamos ter dos imitar?
Anónimo disse…
Há alguma coisa aqui na linha de raciocínio que me escapou. Um coisa é opor-se ao "branqueamento" de fotos e filmes, outra coisa é opor-se à proibição de termos os fumadores a incomodarem os outros. A liberdades dos fumadores deve acabar onde começa a liberdade dos não fumadores.

O que dizer então da lei do limite de velocidades? É fascista? O que dizer da proibição de buzinar à noite, estacionar no passeio, construir monstros em terrenos privados, poluir um rio? Fascistas?
Anónimo disse…
jrd:
Parabéns (sinceros) por se ter "curado".
Parece-me óbvio que eu não disse nem quis dizer que os fumadores são todos bons e os não fumadores todos maus; só disse, e repito, que fumar ou não fumar não é critério para distinguir os bons dos maus.
Concordo plenamente que não queira ser fumador passivo; mas para isso basta que haja cafés e restaurantes onde se não possa fumar e outros onde se possa fazê-lo. Ora os antitabagistas fundamentalistas pretendem que não se possa fumar em NENHUM café ou restauranta.É apenas contra isso que me insurjo.

Zézé: e um bom cozido à portuguesa?

The new hope:
A comparação entre tabaco e aborto era justamente para dizer que não há "abortistas" nem "tabagistas"; só há anti-abortistas e anti-tabagistas;isto é:nem os defensores da despenalização do aborto defendem que se deve abortar(poderão até aconselhar alguma amiga a não o fazer) nem os fumadores defendem que se deve fumar (pelo contrário, até aconselham os outros a não fumarem).Pelo contrário, os anti-abortistas pretendem meter na cadeia quem aborte e quem fume.
Quanto ao mais, concordo inteiramente consigo; limito-me a defender que possa haver alguns cafés, restaurantes, bares e discotecas onde se possa fumar.
É óbvio, por outro lado, que o simples facto de ser fumador não transforma ninguém num génio.E há certamente génios que não fumam.

e-pá: estou inteiramente de acordo consigo.

KavKaz: descupe, mas compreendeu mal o que eu escrevi; o que eu disse foi precisamente que não havia abortistas nem tabagistas, mas apenas anti-abortistas e anti- tabagistas. Os que votaram Sim, como eu, não andam a fazer propaganda do aborto, tal como os fumadores não fazem propaganda do tabaco. Por favor, leia o que respondi a "The new hope".

Ana Maria: também concordo inteiramente consigo; a lei que pretendem fazer é além do mais uma revoltante americanice.

Miguel: do que se trata é justamente de defender a liberdade de fumar e a liberdade de não fumar.Mas para isso não é preciso proibir fumar em TODOS os cafés, restaurantes, bares, discotecas,etc. O sistema deve ser opcional. E se, como dizem, 70% são não fumadores certamente que haverá muito mais estabelecimentos onde seja proibido fumar do que aqueles em que se possa fumar. Nesta economia capitalista, "o mercado se encarregará de resolver o problema", como dizem os tecnocratas!

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