O álcool mata...

Para gozo de Maomé em país dito cristão e gáudio dos autóctones politicamente correctos o Governo acaba de impor aos condutores o limite máximo de 0,2 gramas de álcool por litro de sangue.
A avaliar pela solidariedade da oposição e pelo raro coro de aplausos na comunicação social indígena não me atrevo a discordar do facto de nem um copo de três ser permitido a um condutor em nome da segurança rodoviária.
Para não destoar da onda fundamentalista que grassa na paróquia, e querendo dar o meu contributo para a segurança rodoviária, venho sugerir a aplicação da lei seca, com a vantagem de ser extensiva aos peões que, sob o efeito do álcool, estão mais sujeitos a desequilibrar-se e serem atropelados.
Mas que dizer do efeito demolidor duma feijoada à transmontana a servir de lastro no bojo dum condutor numa tarde cálida de Verão? Ou do pós-prandial dum cozido à portuguesa? Ou do quilo produzido por um arroz de lampreia enquanto houver ciclóstomo? E das nefastas consequências duma noite de estúrdia na condução de madrugada? Para quando as medidas repressivas que se impõem?
Se, depois disso, a sinistralidade rodoviária se mantiver, só há um meio eficaz para eliminá-la – reduzir a zero a velocidade. Este método só tem o inconveniente de conduzir a um paradoxo, não conduzir, ou, dito de outro modo, obrigar as pessoas a andarem paradas. Mas resulta, tenho a certeza.
A avaliar pela solidariedade da oposição e pelo raro coro de aplausos na comunicação social indígena não me atrevo a discordar do facto de nem um copo de três ser permitido a um condutor em nome da segurança rodoviária.
Para não destoar da onda fundamentalista que grassa na paróquia, e querendo dar o meu contributo para a segurança rodoviária, venho sugerir a aplicação da lei seca, com a vantagem de ser extensiva aos peões que, sob o efeito do álcool, estão mais sujeitos a desequilibrar-se e serem atropelados.
Mas que dizer do efeito demolidor duma feijoada à transmontana a servir de lastro no bojo dum condutor numa tarde cálida de Verão? Ou do pós-prandial dum cozido à portuguesa? Ou do quilo produzido por um arroz de lampreia enquanto houver ciclóstomo? E das nefastas consequências duma noite de estúrdia na condução de madrugada? Para quando as medidas repressivas que se impõem?
Se, depois disso, a sinistralidade rodoviária se mantiver, só há um meio eficaz para eliminá-la – reduzir a zero a velocidade. Este método só tem o inconveniente de conduzir a um paradoxo, não conduzir, ou, dito de outro modo, obrigar as pessoas a andarem paradas. Mas resulta, tenho a certeza.
Nota: Texto de 16/04/2001, publicado em vários jornais, contra o fundamentalismo. O decreto não entrou em vigor o que foi pretexto para ataques violentos a Guterres.
Comentários
Julgo que foi Durão Barroso que impediu que os 0,2g/l fossem para a frente, mantendo os 0,5 e borrifando-se no parecer da comissão de sábios que inspirara a decisão anterior.
Houve até um famoso discurso dele aos empresários algarvios, sossegando-os em termos copofónicos.
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Em «As 1001 Noites» (essencialmente passadas no actual Iraque), toda a rapaziada bebe álcool que se farta, mesmo o chamado "comendador dos crentes".
Não aparece uma única referência a essa interdição, e nunca percebi porquê.
Já não me recordo bem como se manteve a actual taxa, mas lembro-me da pressão da imprensa escrita para reduzir a zero a taxa de quem conduz.
Este texto foi publicado no T&Q, Beiras e DN.
Depois de alguma discussão, encomendou-se um estudo a um grupo de sábios, tendo sucedido o mesmo que com a co-incineração:
Quando o resultado saiu, os que "perderam" puseram em causa o estudo.
Durão Barroso ganhou as eleições nessa altura e assim ficou a coisa.
Não sei as datas certas. Só sei que o texto seguinte foi de Setembro de 2002
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O trunfo é copos
Por alturas da chegada de Durão Barroso aos EUA foi declarado o «Alerta! Laranja!», talvez por o considerarem representante de um país com armas de destruição maciça - os automóveis. É que, por cá, se alguém andar na rua a ameaçar pessoas com uma navalha, será agarrado; mas, se o fizer com um carro (podendo matar mais gente do que a guerra do Golfo), só será incomodado se tiver mesmo muito azar.
A «Science & Vie» de Agosto relaciona alcoolemia com sinistralidade e indica os países com maior consumo de álcool no MUNDO. E lá estamos nós, a par da França e do Luxemburgo, gratos por a revista omitir os destinos dos nossos emigrantes... e as decisões do governo em tais assuntos.
Também como matéria de meditação temos o tal condutor apanhado a conduzir com 4,97 g/l de sangue (aí vem mais uma «tradição ininterrupta»...), a dar uma entrevista à TV; não numa clínica nem numa prisão, mas na rua, antes de se meter no carro (a álcool?)! Revolta-se ele por o mandarem para a psiquiatria em vez de lhe tirarem a carta. E tem razão: quem lá devia estar (nas urgências e com camisas-de-forças) deviam ser os que fazem com que tais casos sejam possíveis.
Por mim, quando agora oiço uma buzina «pi-pi-pi», penso logo: «Foge, que aí vem um com 3,14!»
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"EXPRESSO" - "Carta Branca", em 21 Set. 2002
Se os "sábios" tivessem mais sabedoria e menos "sabença" teriam chegado á conclusão óbvia de que a maioria dos portugueses anda com mais de 0,2g/l, tanto os que têm acidentes como os que não têm, e tanto os que andam de carro como os que andam a pé!