Felipe González : porque quer o PPE sacrificá-lo?



A situação é tão grave e ao mesmo tempo tão caricata no que diz respeito à perda de iniciativa do PSE que, o Sr. Nicolas Sarkozy, ao que parece, em lance ousado e exploratório, por conta do PPE, se apressou na proposição de Felipe González para um Alto cargo na UE, um pouco na sequência do estrondoso falhanço político de Tony Blair na mediação do conflito do Médio Oriente.

Mais uma vez uma jogada de antecipação que, aparecendo como uma abertura do PPE ao pluralismo, à diversidade, visa "amarrar" um dos possíveis lideres da necessária e indispensável refundação do anquilosado PSE, a um cargo europeu, pomposo, mas, na prática, mais ou menos formal que, no futuro próximo, lhe tolheria a iniciativa e a capacidade de intervenção ideológica e política.

Aliás, o convite é tanto mais estranho quanto as convicções públicas de Felipe González sobre o actual rumo da UE, há largos anos conduzida pelo PPE, são pouco abonatórias para a Direita Europeia e, entram em franca contradição com a linha política de dependência dos EUA, praticada durante anos pelos governantes europeus, desde a longínqua situação dos países da ex-Jugoslávia, um alargamento precipitado e ao encontro de interesses geo-estratégicos regionais até à nomeação de Durão Barroso - apoiante de Bush na guerra do Iraque - para presidente da CE...

Felipe González, enquanto presidente de uma "comissão de sábios para estudar o futuro da UE", uma espécie de prateleira dourada onde está provisoriamente colocado, tem repetido à saciedade que a UE : "está a perder influência geo-política, económica e tecnológica de uma forma muito acelerada e "em resultado disso, estamos a perder competitividade e valor" . [*]
Mais, F González chamou a atenção para "o fosso tecnológico entre Estados Unidos e UE e adverte para os perigos da dependência externa, em particular no domínio militar".
Ninguém o ouve. Só necessitam da sua cara para infundir um ar de inovação, de ilusória mudança, no ambiente caquético das actuais políticas europeias.

González conhece bem, diria, demasiado bem, as elites políticas europeias.
Elas conhecem-se umas às outras, frequentam os mesmos areópago, trocam favores, constroem cunplicidades e alimentam o "status quo".
O seu objectivo é burocratizar ad eternum e, deste modo, impedir a inovação.
Então, porque surge a tentativa de afundar Felipe González no atoleiro governado pelo PPE?

Na sua concepção de político europeu, mais do que o "Tratado de Lisboa" que não ultrapassou uma aviltante guerrilha de divisão de poderes e de repartição de representatividades e normalização equilibrista de retornos e compensações entre os seus estados membros , a "Agenda de Lisboa", discutida em 2000, tinha um conteúdo progressista e conseguiu identificar os sintomas da doença europeia, i. e., atenuar (eliminar?) o fosso tecnológico entre a UE e os EUA.
Embora, a "Agenda de Lisboa", dos tempos estratégicos de António Guterres, tenha detectado os sinais que nos estão empurrando para perda do comboio do futuro, i.e., crescimento lento, perda de competitividade e no aumento do atraso tecnológico, falhou em diagnosticar a doença e instituir uma terapêutica...que, passará obrigatoriamente pela já velha, mas indispensável fórmula:
I+D+I: Investigação + Desenvolvimento + Inovação.

Daí para cá, ao não conseguir desenvolver a adequada terapêutica, a UE, entrou em queda acelerada, quer no campo político, quer no tecnológico, com evidente conforto da Direita sempre subsidiária da dependência da política americana.

A actual crise económica e social desencadeada pela "bolha" imobiliária americana - convém recordar isso de vez em quanto se não ainda pensamos que foi um castigo por mau comportamento - veio, mostrar que a recuperação será também subsidiária e dependente da economia americana, pelas mesmas razões.

Esta dupla dependência dos padrões americanos - políticos e económicos - é trágica - será mesmo fatal - para a Europa.
Não para a sua existência formal mas para o futuro da Europa.
Será esse sentimento de impotência, frustração de perda de rumo e de destino que determina a ascensão eleitoral dos anti-europeístas ferrenhos, dos eurocépticos envergonhados e da extrema-direita ascendente (xenófoba, ultra-nacionalista e proteccionista).

Deixar que Sarkozy tenha a veleidade de tentar "amestrar" Felipe González "oferecendo-lhe de bandeja" um alto cargo formal na UE, é partir as pernas à refundação do PSE é entregar o ouro ao bandido.
Na verdade, em política, como nos tempos maquiavélicos da família Bórgia, existem presentes envenenados...e convergências suicidas.

Os resultados europeus não foram só "decepcionantes" - como lhe chamou Sócrates - para o PS português. Eles puseram a nu a enorme fragilidade e inoperacionalidade do PSE e de toda a Esquerda europeia, em conquistar eleitores para uma política com valores, doutrina e ética, em pleno colapso económico provocado pela Direita.
Mais, em consequência deste fenómeno, assistimos a um inevitável - num sistema global – atraso e ao inevitável retrocesso tecnológico e económico.
Enfim, ao tratarmos com ferramentas domésticas os problemas europeus, favorecemos uma dilacerante perda de influência europeia no Mundo, ficamos à espera de Godot.

A decadência europeia, tem sido liderada, conduzida e apressada pelos sucessivas Comissões europeias e Gobvernos nacionais do Centro-Direita.
Não podemos deixar de responsabilizá-los por isso.

É tempo de a Esquerda preparar-se para actuar, definir objectivos e liderar o arranque económico e tecnológico, i.e., a mudança.
A Europa do Futuro não se deve entregar Felipe González aos “salteadores da arca perdida...”


[*] – entrevista ao Financial Times,19 Mar 2008

Comentários

andrepereira disse…
Mas se os melhores do PSE não ocuparem cargos de relevo, como podem influenciar as políticas? Vai agora o PSE colocar-se de fora e aguardar a derrocada total deste edifício doente montado pela direita europeia?
e-pá! disse…
Caro André:

Os "melhores" socialistas, quer actuem no âmbito nacional, quer sejam personalidades dimensão europeia, não se devem colocar fora da política.

Devem, prioritariamente, trabalhar no PSE no sentido de retirar o longo e hegemónico domínio do PPE na UE.

Só assim teremos Europa!

Mensagens populares deste blogue

O Sr. Duarte Pio e o opúsculo

Coimbra - Igreja de Santa Cruz, 11-04-2017