Paulo Rangel: o "marasmo" como solução para a crise?...
As recentes eleições para o Parlamento Europeu abalaram e obrigaram à revisão das estratégias relativas aos próximos actos eleitorais nacionais, em muitos Países da UE.Uma significativa abstenção que não encontrou, ainda, uma explicação cabal e taxativa.
Um recuo inesperado, em termos de “dimensão” eleitoral, de toda a Esquerda (excepto os Verdes), nomeadamente, do PSE, veio perturbar o instável equilíbrio que a Europa vivia, apesar dos tempos de crise.
É certo que estas modificações não se registaram exclusivamente em Portugal.
Atingiram, praticamente, toda a Europa e devem ser avaliadas num contexto global.
A evolução da UE, tem sofrido sérios reveses e os cidadãos – aparentemente – divorciados da política estão atentos.
Mesmo quando optam por abster-se de votar.
Esta atitude representa mais a incerteza sobre o futuro da Europa, como está a ser construída, do que uma posição política esclarecida e fundamentada.
As políticas europeias assentes sobre o Acto Único Europeu, os tratados de Maastricht e de Nice, a agenda de Lisboa e o, ainda adiado, Tratado de Lisboa, não resolveram os problemas europeus, não obtiveram uma consensualização para as políticas, económicas e sociais a aplicar e muito menos criaram uma identidade europeia que “galvanizasse” os cidadãos europeus.
A UE é encarada mais como uma fatalidade do que um desígnio, pelo que o alheamento era inevitável.
As dificuldades, que atingem a grande maioria da população europeia, infundem-lhe um profundo sentimento de insegurança que a Direita é exímia a explorar.
Mas, confundir esta atitude abúlica e de certo modo temerosa, com uma opção política é inverter toda a lógica eleitoral que se baseia na vontade participativa – que não existe.
Por isso, o “arraial” do Centro Direita é um “gigante” com pés de barro.
É uma vitória de Pirro que, como na famosa batalha, levou o comandante das forças a exclamar: “mais uma vitória assim e estou perdido”. Os custos desta vitória vão ser muito pesados para a construção europeia.
Vamos continuar a viver num regime de “mandarinato” sediado em Bruxelas. A sigla “A Europa para os cidadãos” é antes de tudo uma boutade que não conduzirá, nem reforçará, qualquer tipo de integração europeia. A eurocracia burocrática reinante na UE favorece o populismo. Dá votos ao populismo.
Foram estas as circunstâncias que à revelia de uma imagem de errónea solidez do PS, acabaram – apesar das mais dispares sondagens - por favorecer o PSD.
Mas, o PSD, nestas eleições, não discutiu a Europa. Elaborou um "caldo de cultura" indecifrável, onde se misturaram situações nacionais com europeias e vice-versa. Recorreu a estafadas divisas ou lemas que pensávamos já não terem qualquer impacto. Por exemplo: Pelo “interesse nacional” – assino por baixo (ass: Paulo Rangel). Ninguém se preocupa em explicar o que entende ser o “interesse nacional”, uma frase muito próxima do remate final dos ofícios de outros tempos: “A Bem da Nação”!. E, pior será, entender esse “interesse nacional” no contexto de eleições europeias que envolvem 27 Países. Uma miscelânea indecifrável.
Paulo Rangel, nos festejos da vitória, não desenvolveu uma ideia nova para a Europa. Virou-se para dentro, para o País. Tentou tirar dividendos futuros, i. e., resolveu, desde logo, assestar baterias para as Legislativas.
Apesar, de continuarmos imersos numa profunda crise económica e social, lança uma cruel “novidade”. Perante os resultados o Governo teria perdido a legitimidade para lançar mão de instrumentos e meios com vista a combater a crise. “Determinou” ufano e embebido pelos fumos da vitória que o Governo entrava em “gestão corrente”. Só não teve coragem de dissolver a Assembleia da República…
Crise que exige, tanto cá como no exterior, ajustes quase diários de acordo com os indicadores económicos e sociais que vão sendo conhecidos.
O “imobilismo” defendido por Paulo Rangel é, posteriormente, clarificado por Manuela Ferreira Leite, com conceitos vagos, do tipo: encontrando-se o governo em fim de ciclo político não deve tomar medidas que comprometam as gerações futuras. Como se no inicio do mandato o pudesse fazer, impunemente...
Mas o anedótico desta questão é, por exemplo, a situação de um dos recentes governos da corresponsabilidade do PSD, em exercício de gestão corrente (por dissolução da AR) um ministro que se transformou numa “fábrica de despachos”…
O discernimento político dos portugueses adquire, em cada acto eleitoral, mais acuidade. As eleições europeias puniram, em Portugal, erros do PS e, na Europa, do PSE.
Todavia, esse acontecimento político é já passado e rapidamente deixará de funcionar como um élan dinâmico para os adversários, nos futuros actos eleitorais.
As Legislativas são outras eleições, outro tipo de consulta popular, que o PS deve encarar com realismo e modéstia.
Neste momento, a exigência de uma nova “maioria absoluta” é uma miragem, mas temo que os fundamentalistas continuem a insistir nessa aleivosia.
A modéstia em avaliar com rigor o Estado da Nação, trabalhar afincadamente no combate da crise, manter o rumo definido pelo Governo e concertado com a UE será, nestas eleições, a chave do sucesso.
O PS tendo afrontado interesses instalados de múltiplos sectores profissionais, teve a ingrata tarefa de pedir sacrifícios para equilibrar as finanças públicas, a par do esforço (nem sempre conseguido) para modernizar e desenvolver o País, o que não é fácil e os portugueses sabem-no.
Precisa de ser melhor explicado. Didaticamente clarificado.
De resto, mantém intactas as condições para vencer as próximas eleições Legislativas se não sucumbir ao desânimo, a precipitados desvarios e a atitudes diletantes.
E, não insistir numa usual e recorrente "aberração democrática" de que não há alternativa!
Em democracia há sempre uma ou várias alternativas.
O "marasmo" é que não conduz a qualquer solução!
Comentários
CE
o partido B propõe: parar tudo, dar o dinheiro aos banqueiros que eles é que sabem como é, e vão fazer o português rico.
opto pela modernização do país.
ps - já repararam que há mais agências bancárias do que mercearias?...