IRÃO: uma "oculta" vitória da mudança?

Mousavi perdeu “oficialmente” as eleições.
Assim o determinou o supremo líder ayatollah Ali Khamenei.
Resta saber se Ahmadinejad as ganhou.
Melhor, em que condições as “ganhou”.
Ninguém apareceu na rua para festejar.
As ruas encheram-se de motins rejeitando os resultados “oficiais” e classificando o acto eleitoral de “farsa”.
Mas independentemente destas engenharias e manipulações dos resultados, nada será igual, no futuro.
A campanha eleitoral revelou profundas fracturas na sociedade iraniana. Os debates e comícios concederam uma oportunidade única para as mulheres participarem na política. Isto foi visível, nomeadamente, nas áreas urbanas.
A sociedade iraniana encontra-se estilhaçada. Há duas facções em nítido confronto. A classe média não aceita as linhas de política externa, pejadas de fanfarronice, protagonizadas por Ahmadinejad. Não suporta bloqueios e sanções, embora, os media passassem a imagem de que os iranianos apoiam a “aposta” nuclear, para fins pacíficos. É para eles uma questão energética e não uma finalidade bélica. Muitos dos iranianos tiveram oportunidade de revelar, nestes dias de abertura que a campanha proporcionou, a sua concordância com uma retoma das relações com os EUA.
Estes factos não poderão deixar de condicionar uma mudança de rumo no 2º. mandato de Ahmadinejad.
Duas condicionantes vão estar em confronto:
- A “vigilância” distante e invisível de Ali Khamenei, como guia da “revolução”, que “amarra” o actual presidente;
- A reafirmação de Barack Obama que – não deixando de lamentar o decorrer do processo eleitoral - não fecharia as portas a futuras negociações é fruto da nova política externa americana.
Uma incógnita, não exclusivamente iraniana, mas essencialmente dependente da evolução da economia mundial, poderá acelerar ou retardar as necessárias “mudanças”:
- a evolução do preço do barril de petróleo nos mercados internacionais.
O Irão tem vivido, recentemente, graves problemas orçamentais com a queda do preço do petróleo, pelo que nem tudo estará nas mãos dos ultra-conservadores, na aparência liderados por Ali Khamenei, mas prisioneiros de uma sanguinária teocracia, ávida de principescas mordomias e faraónicos privilégios financeiros.
A “derrota” de Mir-Hossein Mousavi pode muito bem ser o começo de uma (controlada) época de transição que os ayatollahs já não terão capacidade, nem autoridade, para se opôr.
Uma “invisível” mudança poderá estar em marcha, pese embora o status quo político que, estas eleições, acabaram por ditar.
As ditaduras (civis, militares ou, neste caso, religiosas) têm uma irreprimível tentação para caírem... de podres, sobre a poderosa determinação da vontade popular.
Comentários
Aqui no Ponte Europa sempre se combateu a criminosa invasão do Iraque.
Por isso, as suas observações não são justas.
O que provavelmente separa o Ponte Europa das suas convicções, aliás legítimas, é o combate a todas as formas de tirania. E não apenas a algumas.
na frente da A,Saudita e Pakistan... Iran é democratico...
É a última vez que lhe afirmo isto: «Não há teocracias que não sejam tiranias». Ponto final.
E há regimes totalitários, que o Stefano parece defender, que não são teocracias.
"Ahmadinejad terá ganho as presidenciais de 12 de junho, mas os iranianos querem reformas".