ZECA AFONSO - Homenaxe de Galicia

Em 10 de Maio de 1972 Zeca cantou, pela primeira vez, no Burgo das Nacións, praça de Santiago de Compostela, a célebre canção “Grândola Vila Morena”.
Passados 37 anos o município local - a expensas das solicitações de vários “cantadores” e artistas galegos - e com a persistência do seu eterno amigo Benedicto - decidiu homenagear o trovador coimbrão, inscrevendo-o na toponímia do burgo.
Passados 37 anos o município local - a expensas das solicitações de vários “cantadores” e artistas galegos - e com a persistência do seu eterno amigo Benedicto - decidiu homenagear o trovador coimbrão, inscrevendo-o na toponímia do burgo.
Um gesto de solidariedade, de gratidão, de reconhecimento a um inesquecível cidadão português que nutria um especial afecto pela Galiza, especialmente, por Santiago de Compostela, onde tinha um especial grupo de amigos e muitos admiradores.
Viviam-se tempos difíceis, quer em Portugal, quer em Espanha. Estávamos em pleno “marcelismo”, já em perfeita sintonia e continuidade com a ditadura salazarista e, em Espanha, o franquismo entrava no lento estertor que desembocaria na restauração de uma monarquia constitucional que, paulatinamente, com as forças políticas anti-franquistas, foi abrindo as portas à democracia.
Esta homenagem ao trovador e cantador de fados de Coimbra que, para além de um cidadão de causas nobres, um resistente anti-fascista, que utilizava a canção como uma arma e que fortuitas circunstâncias o tornaram num dos símbolos do 25 de Abril, deverá ser considerada um acto gratificante, um motivo de contentamento e de alegria, para todos os portugueses.
É reconfortante divulgar esta homenagem ao Zeca, neste País, quando o “alcaide” de Santa Comba Dão, resolveu – no passado 25 de Abril - assinalar a memória do ditador Salazar.
Comportamentos dispares, em dois países contíguos, mas que tratam a memória histórica dos povos, diferentemente.
Uns celebram a libertação – onde quer que ela ocorra – outros, revivalistas assinalam o passado obscuro e retrógrado, sem brilho nem glória, interessado em colher dividendos na senda do mercantilismo que vegetando ao redor turismo histórico, está totalmente divorciado da vivência democrática, da memória dos resistentes, dos que foram presos, torturados e dos que morreram.
Isto é, para alguns, será, banal, natural e uma mera coincidência afrontar a memória dos que resistiram heroicamente, mais concretamente, dos melhores que ainda vivem entre nós.
Coimbra, foi o "ninho" onde Zeca se acolheu para festejar alegrias, para sofrer desencantos, para fazer música, para cantar, para conviver com o seu mundo – uma constante intersecção entre a música, o canto e a política.
Foi uma cidade determinante para a sua formação, nomeadamente, à volta do peculiar mundo estudantil de então, das tertúlias épicas das “Repúblicas”, das conspirações românticas da Clepsidra, da sedimentação de um espírito agitador e, também, agitado.
Coimbra, sem querer estabelecer paralelo com a infâmia praticada pelo diletante edil de Santa Comba, tem sido madrasta à memória de Zeca Afonso.
Mas a cidade deve muito ao Zeca que, como todos sabemos, nada deixaria que algo fosse cobrado por sua conta. Certamente que se sentiria intelectualmente confortado com os longos tempos em que se vagueou pela Alta, passeou pela Baixa e, porque não, divagou pela boémia. A modéstia que, a par da timidez, era apanágio do Zeca não nos deve inibir de relembrar este homem que viveu intensamente Coimbra e merecia maior reconhecimento da cidade.
Isto é, para alguns, será, banal, natural e uma mera coincidência afrontar a memória dos que resistiram heroicamente, mais concretamente, dos melhores que ainda vivem entre nós.
Coimbra, foi o "ninho" onde Zeca se acolheu para festejar alegrias, para sofrer desencantos, para fazer música, para cantar, para conviver com o seu mundo – uma constante intersecção entre a música, o canto e a política.
Foi uma cidade determinante para a sua formação, nomeadamente, à volta do peculiar mundo estudantil de então, das tertúlias épicas das “Repúblicas”, das conspirações românticas da Clepsidra, da sedimentação de um espírito agitador e, também, agitado.
Coimbra, sem querer estabelecer paralelo com a infâmia praticada pelo diletante edil de Santa Comba, tem sido madrasta à memória de Zeca Afonso.
Mas a cidade deve muito ao Zeca que, como todos sabemos, nada deixaria que algo fosse cobrado por sua conta. Certamente que se sentiria intelectualmente confortado com os longos tempos em que se vagueou pela Alta, passeou pela Baixa e, porque não, divagou pela boémia. A modéstia que, a par da timidez, era apanágio do Zeca não nos deve inibir de relembrar este homem que viveu intensamente Coimbra e merecia maior reconhecimento da cidade.
Tal não tem sido feito!
Já depois do 25 de Abril, em 2007, num empolgante sarau cultural na Galiza realizado no Paço da Cultura de Pontevedra (“Gala Homenaxe”), uma co-produção TV Galiza/RTP, foi possível fazer reviver a memória, a grandeza e a dignidade de Zeca Afonso.
Zeca terá, um dia, afirmado: "Galiza é para mim também uma espécie de pátria espiritual...".
No próximo domingo, amanhã, Zeca, prematuramente afastado do mundo dos vivos, estará novamente vivo e presente na Galiza, de retorno aos que o amam, de volta à sua Pátria adoptiva.
Se estivesse entre nós, certamente que nos incitaria nesta aproximação de Portugal com a Galiza, onde de facto reside o cerne da nossa nacionalidade e repousa um lastro significativo da nossa identidade cultural, com inúmeros pontos de contacto e a necessitar que sejam lançadas pontes de intercâmbio cultural.
Aposto como diria com o seu jeito tímido, escondido atrás de uma límpida e melodiosa voz:
- traz outro amigo também…
Já depois do 25 de Abril, em 2007, num empolgante sarau cultural na Galiza realizado no Paço da Cultura de Pontevedra (“Gala Homenaxe”), uma co-produção TV Galiza/RTP, foi possível fazer reviver a memória, a grandeza e a dignidade de Zeca Afonso.
Zeca terá, um dia, afirmado: "Galiza é para mim também uma espécie de pátria espiritual...".
No próximo domingo, amanhã, Zeca, prematuramente afastado do mundo dos vivos, estará novamente vivo e presente na Galiza, de retorno aos que o amam, de volta à sua Pátria adoptiva.
Se estivesse entre nós, certamente que nos incitaria nesta aproximação de Portugal com a Galiza, onde de facto reside o cerne da nossa nacionalidade e repousa um lastro significativo da nossa identidade cultural, com inúmeros pontos de contacto e a necessitar que sejam lançadas pontes de intercâmbio cultural.
Aposto como diria com o seu jeito tímido, escondido atrás de uma límpida e melodiosa voz:
- traz outro amigo também…
Comentários
Por isso, quando lá estou, chego a imaginar que a Galiza é Portugal, mas não, "na memória", Portugal não é a Galiza ...
Infelizmente, para Portugal, não há memória.
Em 1972 vivia-se em Portugal o pico da conrtestação da guerra colonial.
Zeca e Adriano estavam empenhados na luta anti-colonial e, em Portugal, tudo era dificil.
Em Espanha, existia a possibilidade de iludir essa situação.
Recordemos a composição de Rosália de Castro, aparentemente, sobre a emigração, cantada por Adriano Correia de Oliveira:
"Este parte, aquele parte
e todos, todos se vão
Galiza ficas sem homens
que possam cortar teu pão
Tens em troca
órfãos e órfãs
tens campos de solidão
tens mães que não têm filhos
filhos que não têm pai
Coração
que tens e sofre
longas ausências mortais
viúvas de vivos mortos
que ninguém consolará"Na verdade, Galiza era Portugal...
E esta canção muito mais do que um lamento contra a emigração de galegos era um libelo acusatório contra o colonialismo português...
Na verdade, para contornar a realidade e, mais importante, para continuar cá fora a lutar (mesmo com canções) eram necessários múltiplos expedientes e maiores cumplicidades.
Parabéns pelo acto cívico e pelo privilégio.