Independência do Kosovo

Após a agressão da NATO à Sérvia-Montenegro em 1999, e o estabelecimento de um protectorado internacional sob a égide das Nações Unidas (UNMIK), oito anos passaram até que uma resolução final quanto ao estatuto do Kosovo se tornasse uma inevitabilidade.

Entretanto, muita água correu debaixo da mesma ponte, uma ponte europeia. Milošević caiu em 2001 (teria sido destituído muito antes, não fora a agressão ilegítima jure gentium da NATO). A Sérvia democratizou-se (apesar da ascendência política dos ultra-nacionalistas do SRS, liderados por Vojslav Šešelj, arguido no Tribunal de Haia para os crimes cometidos na antiga Jugoslávia, que ganharam as últimas eleições legislativas em Janeiro, obtendo 28,59% dos votos). O Montenegro tornou-se independente em Junho de 2006. A Sérvia finalmente, tornou-se por sua parte independente.


Historicamente, o Kosovo foi o berço da nação Sérvia. O nome constitucional sob a segunda Jugoslávia, a Jugoslávia titista, era o de Região Autónoma Sérvia de Kosovo-Metohia (Constituição de 1980). Metohia significa literalmente, terras da igreja (ortodoxa sérvia). Região onde coabitavam outrora várias etnias, destacando-se os Sérvios e os Albaneses, porventura a etnia mais primeva da região. Os primeiro estado sérvio, liderado pelo czar Stefan Dušan, perdeu aí a sua primeira batalha de sobrevivência contra o Império Otomano, Kosovo Polje, em 1389. Segue-se um período de jugo otomano, em que muitos cidadãos da região se converteram ao Islão, nomeadamente parte dos albaneses, bem como muitos sérvios (nomeadamente os bosníacos e os gorani). Lançados os dados da história, a Sérvia torna-se finalmente independente do domínio otomano em 1804, sob a liderança de Đorđe Petrović. Após a primeira guerra mundial, a Sérvia vitoriosa conquista as ricas e férteis províncias da Vojvodina, obtidas às custas da desintegração do Império Austro-Húngaro. Resultado: êxodo maciço de sérvios do Kosovo, servos das terras da igreja, a fim de se tornarem homens livres em terra virgem e fértil. Poucos aí continuaram, apesar da soberania sérvia que aí se manteve durante as três Jugoslávias até 1999.

Obviamente, após oito anos de protectorado, o Kosovo aspira à independência. Quasi-estado fortemente disfuncional, o mais pobre da Europa descontando os estados do Cáucaso(964 Euros per capita), conta com várias adversidades no seu caminho rumo à independência.

Muitas motivadas por questões intestinas. Num país em que, hoje em dia, 92% da população é albanesa, de etnia Gheg (tradicionalmente minoritária na República da Albânia), a credibilidade do establishment albanês é mínima, sendo que, na sua maioria, os quadros são oriundos do movimento independentista/terrorista (segundo a perspectiva) UÇK. A economia é frágil, a corrupção grassa. Coenxistem no Kosovo albaneses, sérvios, rrom (parte da etnia cigana não islamizada e serbófona), gorani (eslavos islamizados, falantes de Torlakian, idioma de transição entre o sérvio, o macedónio e o búlgaro, língua imortalizada pelo escritor sérvio Stefan Sremac), ashkali e egipciões (pessoas de etnia cigana albanófonas e islamizadas), e ainda bosníacos (sérvios islamizados). Existe alguma pressão (inclusive dentro do grupo de contacto) para uma divisão do Kosovo entre sérvios e albaneses. Tal seria trair as minorias menos significativas, bem como destabilizar os países vizinhos.

Outras motivadas pelas complexidades geopolíticas e ingerência de estados terceiros. Tentarei analisar os interesses dos vários países envolvidos.

Entre os países vizinhos encontram-se os interesse mais dramáticos. A Sérvia luta pela sua integridade territorial. A Macedónia pugna pela sua existência, contando com 28% de população albanesa que já demonstrou irridência em 2000. A Albânia, em frágil equilíbrio entre a comunidade Tosk e Gheg, procura uma solução em que o Kosovo seja independente mas não ligado à Albânia.

As potências ocidentais, motivadas pelo o seu imperialismo económico e financeiro, procuram a solução que melhor se adeque aos seus interesses. A Rússia procura um precedente para impor a soberania limitada a alguns territórios, e eventualmente extirpar parte de alguns países vizinhos (nomeadamente o caso da Abcázia no Norte, na Geórgia). Daí, e não pelos lindos olhos da Sérvia, anuncia vetar uma eventual independência do Kosovo. Outras nações da União Europeia ameaçam não reconhecer um eventual futuro estado: a Espanha, a França, nomeadamente, por temerem os seus intestinos fantasmas separatistas; a Eslováquia e a República Checa, por temerem um precedente- a prevalência da autodeterminação das minorias- sobre o da não ingerência e continuidade política do Estado (lembremo-nos da destruição da Checoslováquia na conferência de Munique de 1938 a pretexto dos direitos das minorias alemãs nos Sudetas).

Quo itur ad urbem? Independência do Kosovo, reconhecida pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas. Sem titubear, por muito que algo fique entalado na garganta. Senão, o sangue poderá voltar aos Balcãs. E poderá visitar alguns vizinhos da cidade olímpica de Soitchi.

O Kosovo necessita estabilidade num quadro estabilizado, e unânime. Se a águia negra não for saciada segundo as suas expectativas, ainda que com sacrifício da águia branca, o sol poderá declinar mais cedo, e o David da cruz de São Jorge ter que travar uma luta assimétrica contra o Golias da outra águia branca. Confusos? Uma questão de bandeiras.

Comentários

Anónimo disse…
Rui Cascao:

Eis um artigo que esclarece, perturba e obriga a reflectir.

Apesar de tudo, não defendo a independência do Kosovo.

Tal como não aceitei a independência da Croácia cujos «padrinhos» provocaram a desintegração da Jugoslávia.

De qualquer modo, obrigado pelas informações, preciosas para uma opinião esclarecida.
Rui Cascao disse…
Caro Carlos,

Eu também não defendo a independência do Kosovo, mas vejo-a como um mal menor.

A minha esposa nasceu num país chamado Jugoslávia, numa cidade chamada Skopje.

Cada vez que visito essa interessante cidade, tenho uma nítida sensação que Skopje poderia ser outra Sarajevo. Tenho muitas simpatias divididas entre as várias nações balcânicas. Por isso sou tão realista, tentando ser objectivo.

Tenho muita curiosidade em conhece-lo e falar mais longamente consigo, pelo que lhe deixo o meu email, rui@ruicascao.com .
Anónimo disse…
Outra voz contra a independência do kosovo.
Agradeço-lhe a informação. Nela diz que o Kosovo foi o berço da Sérvia; logo, reagirá muito mal à independência e teremos novos problemas. Porque não a autonomia do Kosovo dentro da Sérvia?
Ainda há dias ouvi o Dr. Fernando Nobre,muito conhecedor desses lugares e dessas questões, temendo que a UE fosse no sentido da independência e ignorando a história da Sérvia.
andrepereira disse…
Uma lição de estudos eslavísticos. Muito Boa!
De um lado o "direito à auto-determinação dos povos". Do outro o respeito pela integridade dos Estados.
Auto-determinação dos povos colonizados (África, América, Ásia), apenas? Auto-determinação de nações (povo, território, ?língua?)?
8% de sérvios no Kosovo. Será a"herança histórica" suficientemente para dizer não a 90% da população?
O Referendo não será boa solução? Mas Referendo só com a população do Kosovo ou de toda a Sérvia?
Que bom viver num dos países com as fronteiras mais antigas da Europa e não conseguir perceber as dinâmicas de amor e ódio que grassam pela Europa central...
Anónimo disse…
«Que bom viver num dos países com as fronteiras mais antigas da Europa e não conseguir perceber as dinâmicas de amor e ódio que grassam pela Europa central...» (André Pereira)

RE: E pela Península Ibérica?
leticia e sofia disse…
gostei muito do artigo, daqui do Brasil agradeço

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